ENTRE CRISES, DESGASTES E MOVIMENTOS POLÍTICOS DESAJEITADOS: OS PRIMEIROS 30 DIAS DE GOVERNO DE OTAVIANO PIVETTA PREOCUPAM MATO GROSSO
Trinta dias após assumir oficialmente o comando do Governo de Mato Grosso, Otaviano Pivetta vive um início de gestão marcado por crises administrativas, desgaste político, idas e vindas, embates internos, declarações polêmicas e instabilidades na base na ALMT. Um cenário de instabilidade que já preocupa os mato-grossenses.
Desde a posse, após a renúncia de Mauro Mendes, Pivetta tenta imprimir uma marca própria ao governo. No entanto, os primeiros movimentos vêm sendo acompanhados por ruídos, recuos e dificuldades de articulação. Deixando dúvidas se este governo tem de fato condições de dar continuidade ao que Mauro Mendes vinha realizando.
Uma das primeiras decisões do novo governador foi a nomeação da coronel Susane Tamanho para comandar a Secretaria de Estado de Segurança Pública, tornando-se a primeira mulher da história a assumir a pasta em Mato Grosso. Embora a escolha tenha sido apresentada como estratégica e técnica para se aproximar o público feminino, os bastidores foram de forte tensão. Setores da Polícia Civil reagiram à indicação de uma oficial da Polícia Militar, enquanto grupos influentes da segurança pública e integrantes do Judiciário demonstraram resistência à decisão. Os resultados ainda não superaram a polêmica e o mal-estar causados pela escolha.
Na saúde, o desgaste foi ainda maior. A tentativa de desativar temporariamente sete unidades do Samu na Baixada Cuiabana e o desligamento de 56 profissionais provocaram reação imediata de servidores, entidades, parlamentares e população em geral. O governo propôs o fim do Samu em noma da economia, mas acabou recuando diante da pressão. A recontratação dos profissionais expôs fragilidade na condução da crise criada internamente e levantou dúvidas sobre o planejamento da gestão para uma área extremamente sensível.
Mas foi na política que Pivetta elevou o tom e também aumentou a temperatura do debate público.
Durante evento do lançamento das obras do Trevão que ligará, dará fluidez e segurança entre as BR 364 e 163, em Rondonópolis, Otaviano Pivetta fez duras críticas ao DNIT e insinuou que políticos da região teriam utilizado o órgão para fraudar licitações, “roubar o povo”, o que teria levado a um atraso de vinte anos a conclusão da construção. Em seguida, durante entrevista à imprensa, afirmou que “um senador” teria mandado no DNIT por mais de duas décadas sem realizar a reforma, mesmo com a liberação de recursos.
Sem apresentar provas, nomes ou documentos, Pivetta deixou no ar uma acusação gravíssima. E foi além: praticamente transferiu à imprensa a responsabilidade de investigar o caso.
A declaração causou estranheza no meio político. Afinal, se o governador possui informações concretas sobre corrupção, irregularidades ou desvios de recursos públicos, espera-se que apresente os elementos às autoridades competentes e não apenas faça insinuações públicas. Acusações dessa gravidade exigem responsabilidade, provas e encaminhamento formal aos órgãos de controle. Caso contrário, Pivetta incorreria no crime de prevaricação.
O episódio ampliou a percepção de que o governador já atua em ritmo de pré-campanha eleitoral e que seu alvo, insinuado, poderia ser o líder das pesquisas, Wellington Fagundes.
Nos corredores políticos, cresce a avaliação de que Pivetta pode ter antecipado o jogo eleitoral cedo demais. A busca constante por aproximação com lideranças do PL, especialmente em torno do pré- candidato à presidente, Flávio Bolsonaro, já começa a ser vista por aliados e adversários como excessiva e desgastante. O movimento, que inicialmente buscava sinalizar alinhamento político, começa a soar repetitivo e pouco efetivo diante da ausência de entregas concretas neste início de governo. Em menos de um ano é pelo menos a quinta vez que se anuncia que o acordo com a legenda está próximo e que Wellington Fagundes desistiria da sua pré-candidatura. Nem uma coisa nem outra aconteceu.
Outro fator que pesa contra o governador é a percepção crescente de distanciamento popular. Críticos afirmam que Pivetta mantém um perfil de gestão voltado prioritariamente aos setores econômicos mais fortes do Estado, com pouca sensibilidade social e dificuldade de diálogo com categorias afetadas por decisões do governo.
Além disso, segue avançando na Justiça uma ação do Ministério Público Estadual relacionada ao período em que Pivetta foi prefeito de Lucas do Rio Verde. O MPE pede sua condenação por supostos atos de improbidade administrativa envolvendo contratos públicos firmados à época. O processo aponta suspeitas de irregularidades em licitações, direcionamento de contratos e prejuízos milionários aos cofres públicos. O caso tramita desde 2009 e ainda aguarda sentença.
Neste primeiro mês, Otaviano Pivetta alternou medidas de impacto, recuos administrativos, embates políticos e declarações controversas. A avaliação predominante no meio político é de que o governador ainda busca encontrar equilíbrio entre gestão, articulação e projeto eleitoral. E que nos últimos dias se afasta cada vez mais de Mauro Mendes, de quem foi vice. Exemplo disso foram as duras críticas que fez ao tratamento dado por Mauro aos pequenos e médios produtores. Isso antes de afirmar que “agora tudo vai melhorar”.
A dúvida que começa a surgir nos bastidores é inevitável: assumir o governo e entrar imediatamente em clima de pré-campanha foi um movimento estratégico ou um tiro no pé?
Por enquanto, os primeiros 30 dias indicam mais turbulência do que estabilidade e bem distante de qualquer avaliação nota 10.
Da Redação


