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Formar talentos ou contratar estrelas: onde nasce um time vencedor?

Formar talentos ou contratar estrelas: onde nasce um time vencedor?
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Quando uma equipe precisa elevar seu desempenho, surge uma decisão recorrente: investir nos atletas que já fazem parte do grupo ou buscar alguém de fora com experiência e resultados comprovados? A resposta parece simples quando observamos apenas a qualidade individual. No esporte, porém, reunir os melhores nomes não significa necessariamente construir o melhor time. Há uma diferença entre acumular talentos e transformar competências individuais em resultado coletivo.

Isso fica evidente em modalidades como o voleibol, nas quais praticamente nenhuma ação acontece de forma isolada. Uma recepção interfere no levantamento, que determina as possibilidades do ataque. Bloqueio, defesa e cobertura dependem de leitura, comunicação e conhecimento sobre o comportamento dos companheiros. Um atleta pode decidir uma jogada. A consistência exige conexão.

Um estudo publicado em 2026 na revista Psychology of Sport and Exercise, realizado com equipes esportivas universitárias, analisou a associação entre os comportamentos técnicos e interpessoais dos treinadores, a coesão dos grupos e as percepções de desempenho. Os resultados reforçam que construir um time envolve mais do que desenvolver capacidades técnicas individuais: a qualidade das relações estabelecidas pelo treinador também está relacionada à forma como o grupo funciona coletivamente.

Minha experiência como atleta da NCAA Division I e, posteriormente, como treinadora mostrou isso de diferentes perspectivas. Em ambientes de alto rendimento, rapidamente percebemos que não basta saber quem salta mais alto, ataca mais forte ou apresenta os melhores números. É preciso entender como cada atleta executa sua função dentro de uma estrutura coletiva.

Isso não diminui o valor de uma contratação de alto nível. Uma jogadora experiente pode elevar o padrão técnico, ampliar o repertório competitivo e preencher uma necessidade específica. O problema surge quando se espera que sua chegada resolva questões que pertencem ao grupo.

Quem chega precisa compreender o sistema, os padrões de comunicação e o comportamento dos companheiros sob pressão. Da mesma forma, os demais precisam aprender a jogar com essa pessoa. Currículo não elimina adaptação. Formar talentos também exige mais do que manter atletas durante anos. Evolução depende de método, treinamento, feedback e oportunidades progressivas de responsabilidade. Permanência, sozinha, não produz maturidade esportiva.

Por isso, a escolha entre formar e contratar parte de uma falsa oposição. Times competitivos precisam fazer as duas coisas. Desenvolver atletas ajuda a preservar identidade, continuidade e conhecimento coletivo. Buscar alguém de fora pode acrescentar uma competência que ainda não existe internamente.

O desafio está em saber quando recorrer a cada caminho. Contratar diante de toda deficiência pode interromper a evolução de quem já está sendo preparado. Apostar exclusivamente na formação interna também pode limitar o grupo quando faltam experiência ou características específicas.

Essa decisão exige uma pergunta anterior: do que o time realmente precisa? Nem sempre o atleta com o melhor currículo é aquele capaz de produzir o maior impacto naquele grupo. Às vezes, uma característica complementar vale mais do que um conjunto impressionante de números individuais.

No alto rendimento, ninguém vence apenas reunindo currículos. Resultados consistentes aparecem quando técnica, função, confiança e estratégia conseguem operar juntas. Por isso, talvez a pergunta não seja onde encontrar os melhores talentos, mas se existe uma estrutura capaz de fazê-los jogar como um time.

Ana Paula Zandona é treinadora de voleibol e especialista em desenvolvimento de atletas e análise de performance, com experiência no esporte universitário dos Estados Unidos. Ex-atleta de voleibol no Brasil e nos EUA, atuou como levantadora na NCAA Division I e construiu sua carreira como treinadora em diferentes programas universitários americanos. Possui experiência em planejamento de treinos, recrutamento, desenvolvimento técnico e análise de desempenho por meio de dados e ferramentas especializadas. É mestre em Administração Esportiva e Estudos do Esporte e atualmente cursa MBA em Business Analytics.

Referência
• Psychology of Sport and Exercise. Estudo sobre comportamentos interpessoais de treinadores, coesão de equipes e desempenho percebido em atletas universitários, 2026.

Por Ana Paula Zandona

Célio