COMO SEPARAR O PT DA ESQUERDA
A revolução — ou golpe — de 1889 trouxe um grito de libertação. Mas será que podemos afirmar que, naquele momento, nasceu efetivamente a esquerda no Brasil? Considero essa hipótese prematura, embora diferentes classes sociais também tenham contribuído para a derrubada da monarquia, então representada pelo imperador Dom Pedro II.
No século XX, Getúlio Vargas desempenhou um papel bastante complexo nesse contexto. Ele não era exatamente um líder de esquerda, mas um político de orientação nacional-desenvolvimentista e populista. Durante seus governos, especialmente no Estado Novo, adotou políticas que beneficiaram os trabalhadores, como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Entretanto, também reprimiu movimentos comunistas, como ocorreu após a Intentona Comunista de 1935.
Vargas, portanto, ocupou um espaço intermediário: atraía o apoio popular, mas não representava propriamente a esquerda ideológica como a entendemos hoje. O Partido Comunista Brasileiro, fundado em 1922, já existia, mas também não representava, sozinho, a diversidade de interesses das classes trabalhadoras brasileiras.
Nas décadas seguintes, outro movimento ocorreu sob o argumento de conter os ânimos das classes consideradas menos favorecidas: a intervenção militar de 1964. Dois aspectos merecem destaque nessa reflexão.
O primeiro é que, inicialmente, o poder foi tomado por meio da deposição do presidente da República, enquanto o Congresso Nacional e outras instituições continuaram existindo, ainda que submetidos, progressivamente, a restrições, cassações e intervenções. Não se tratou, portanto, de uma simples substituição de presidente, mas de um processo que instaurou uma ditadura e restringiu as liberdades democráticas.
O segundo aspecto diz respeito à realidade demográfica e territorial do Brasil. Em 1900, a população mundial era estimada em aproximadamente 1,6 bilhão de pessoas. Em 1950, o Brasil possuía cerca de 52 milhões de habitantes. Diante de um território tão vasto, cabe perguntar: quem eram, afinal, os menos favorecidos? Como explicar a pobreza em um país com tantas terras e recursos naturais? A questão não se resumia à disponibilidade de espaço, mas também à distribuição da terra, às oportunidades, à educação e às condições de acesso à riqueza nacional.
Na década de 1980, os movimentos que faziam oposição ao regime militar passaram a se organizar em diferentes correntes, muitas delas identificadas com a esquerda. Nesse ambiente de mobilização política e social, surgiu o Partido dos Trabalhadores (PT), que reuniu diversos setores da sociedade em torno da defesa da democracia, dos direitos humanos e das reivindicações dos trabalhadores.
Outro marco dessa mobilização foi o Grito dos Excluídos, realizado pela primeira vez em 7 de setembro de 1995. A iniciativa nasceu de discussões promovidas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no contexto da Segunda Semana Social Brasileira, entre 1993 e 1994. A manifestação surgiu para dar voz aos grupos marginalizados e denunciar as injustiças sociais. Desde então, passou a ocorrer anualmente no Dia da Independência, buscando lembrar que a independência política precisa ser acompanhada de condições dignas de vida para todos os brasileiros.
Com a redemocratização, a esquerda se reorganizou, conquistou espaço e chegou ao poder federal com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, para assumir a Presidência em 2003.
Essa construção política foi resultado de anos de organização social e participação de diferentes setores da sociedade. Mas, depois de mais de duas décadas de governos que tiveram o PT como protagonista em boa parte desse período, cabe uma reflexão: o que efetivamente mudou na vida dos brasileiros? E, sobretudo, o que aconteceu com as promessas de transformação social que sustentaram esse projeto político?
Na minha avaliação, o primeiro governo Lula só não enfrentou consequências ainda mais graves porque contou com uma estrutura econômica herdada do governo Fernando Henrique Cardoso. O segundo mandato de Lula, por sua vez, deixou problemas e desequilíbrios que contribuíram para o trauma econômico que explodiu durante o governo Dilma Rousseff.
O governo intermediário de Michel Temer e, posteriormente, o de Jair Bolsonaro trouxeram novos direcionamentos e alguns ajustes à política econômica. Entretanto, a retomada do PT ao poder, em 2023, voltou a colocar no centro do debate a percepção de que o partido pode não representar mais, de maneira satisfatória, as necessidades de toda a esquerda brasileira.
É justamente aqui que nasce a pergunta que dá sentido a este artigo: como separar o PT da esquerda?
A esquerda é muito maior do que um partido. Ela reúne trabalhadores, intelectuais, movimentos sociais, organizações comunitárias e pessoas que defendem diferentes formas de combater a pobreza e reduzir as desigualdades. Nenhum partido deveria reivindicar para si o monopólio da representação dos menos favorecidos.
Se o PT não consegue responder às novas demandas sociais, quem assumirá esse papel? Quem dará voz aos excluídos do mundo digital, aos trabalhadores ameaçados pela automação e pela robotização, às famílias que perderam poder de compra e aos jovens que procuram uma oportunidade para construir o próprio futuro?
Quem poderá desempenhar, nos dias de hoje, um papel semelhante ao de Getúlio Vargas, articulando interesses sociais, desenvolvimento econômico e capacidade de diálogo?
Na minha visão, uma das respostas possíveis está na reorganização de um campo de centro-esquerda, com participação de partidos como o MDB e o PSD, desde que apresentem propostas concretas, compromisso social e capacidade de gestão. Não basta ocupar o espaço deixado por outra legenda: é preciso construir um projeto nacional que dialogue com as necessidades reais da população.
O Brasil precisa de uma reconstrução moral, financeira e institucional, acompanhada do restabelecimento de valores que fortaleçam a família, a responsabilidade individual, a solidariedade e o respeito ao próximo.
A participação histórica de setores da Igreja Católica na mobilização social brasileira também merece reflexão. Os bispos e as comunidades cristãs que ajudaram a dar voz aos excluídos têm, hoje, um papel importante na defesa das famílias vulneráveis, na formação dos jovens e na recuperação dos vínculos comunitários. É preciso olhar para as famílias que se sentem abandonadas, para os trabalhadores que perderam oportunidades e para as pessoas que não encontram amparo nas estruturas políticas que ajudaram a construir.
Os trabalhadores, por sua vez, enfrentam uma transformação profunda. A automação e a robotização estão modificando as relações de trabalho e exigindo novas qualificações. Não podemos abandonar essas pessoas à própria sorte. Precisamos de educação, capacitação profissional, empreendedorismo e políticas públicas que abram caminhos para a produção e para o emprego.
Ao mesmo tempo, precisamos recuperar a essência constitucional dos movimentos de classe. A representação social não pode se transformar em instrumento permanente de disputa partidária, assim como a defesa dos direitos dos trabalhadores não pode ficar subordinada aos interesses eleitorais de uma legenda.
A história mundial demonstra que mudanças profundas também podem ocorrer sem uma guerra civil ou uma revolução armada. Um exemplo é a Revolução de Veludo, ocorrida na antiga Tchecoslováquia, em 1989. Por meio de manifestações populares, mobilização estudantil, resistência civil e articulação política, a população contribuiu para o fim do regime comunista e para a abertura de um processo democrático. Apesar de episódios de repressão policial, a transformação ficou marcada pelo caráter predominantemente pacífico. A experiência demonstra que organização, coragem cívica e sabedoria política podem abrir caminhos para mudanças históricas sem mergulhar uma nação em uma guerra civil.
O Brasil também precisa aprender a transformar suas divergências em caminhos de reconstrução. Não precisamos eliminar adversários políticos, mas superar a incapacidade de dialogar. Não precisamos de salvadores da pátria, mas de instituições responsáveis, lideranças preparadas e cidadãos conscientes de seus direitos e deveres.
A separação entre o PT e a esquerda não deve significar o abandono das causas sociais. Pelo contrário: deve representar a oportunidade de recuperar essas causas, ampliar a participação democrática e construir alternativas que não dependam de uma única organização partidária.
O Brasil é uma nação formada pela miscigenação de povos, culturas e histórias. Essa diversidade é uma de nossas características mais marcantes e deveria ser uma força de união, não um motivo para a divisão permanente.
Brasileiros, independentemente de suas convicções políticas, precisamos compreender que a nossa casa é uma só. O futuro não pertence exclusivamente à esquerda, à direita ou ao centro. Pertence à capacidade que tivermos de construir um país mais justo, próspero e digno para as próximas gerações.
Brasil e brasileiros: uma nação verde e amarela, um povo miscigenado, irmãos de uma mesma pátria. Está na hora de reconstruirmos a nossa casa, chamada Brasil.
Marcelo de Castro Souza é técnico em Meio Ambiente, com atuação destacada na região da BR-163. Seu trabalho é voltado principalmente para processos de mudança de categoria e reclassificação de Unidades de Conservação, contribuindo para o aprimoramento da gestão ambiental e o fortalecimento das políticas públicas voltadas à conservação dos recursos naturais.


