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Voo 1907: 20 anos de uma tragédia que marcou o país

Voo 1907: 20 anos de uma tragédia que marcou o país
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Choque entre Boeing da Gol e jato Legacy sobre o norte de Mato Grosso matou 154 pessoas em 29 de setembro de 2006; duas décadas depois, familiares ainda convivem com a dor e uma disputa judicial permanece sem desfecho

Às 16h56 de 29 de setembro de 2006, o céu sobre o norte de Mato Grosso se tornou cenário de uma das maiores tragédias da história da aviação brasileira. Um Boeing 737-800 da Gol, com 154 pessoas a bordo, colidiu em pleno voo com um jato executivo Embraer Legacy 600. Não houve sobreviventes no avião comercial.


Nesta terça-feira (29), o acidente com o voo 1907 completa 20 anos. Duas décadas depois, as marcas permanecem entre familiares das vítimas e também na história da aviação brasileira. Uma disputa judicial iniciada há 18 anos sobre os valores de um seguro obrigatório ainda tramita nos tribunais.

O Boeing havia partido de Manaus com destino ao Rio de Janeiro, com escala prevista em Brasília. O Legacy, de matrícula norte-americana, fazia o trajeto entre São José dos Campos (SP) e Fort Lauderdale, nos Estados Unidos.
As duas aeronaves se encontraram a aproximadamente 37 mil pés de altitude na região da Serra do Cachimbo, no norte mato-grossense.


O Legacy perdeu parte da ponta de uma das asas, mas continuou controlável e conseguiu pousar na Base Aérea do Cachimbo, no sul do Pará. Seus sete ocupantes sobreviveram.
Para o Boeing, o choque foi devastador.


A aeronave perdeu cerca de um terço da asa esquerda, tornou-se incontrolável e se desintegrou durante a queda sobre uma extensa área de floresta.

BUSCAS NA FLORESTA
A localização dos destroços deu início a uma complexa operação de busca e resgate numa região de mata fechada e difícil acesso.


A Força Aérea Brasileira (FAB) instalou uma base de operações na Fazenda Jarinã, a cerca de 40 quilômetros do local da queda. Indígenas da região também tiveram participação nas buscas e no acesso à área onde os destroços estavam espalhados.


Para as famílias, começava uma espera dolorosa pela localização e identificação dos corpos.
A psicóloga Neusa Felipetto Machado, hoje com 76 anos, perdeu o marido, Valdomiro Henrique Machado, com quem havia sido casada por 34 anos.


Ela contou à Folhapress que ainda alimentava a esperança de encontrá-lo vivo quando, na noite de 11 de outubro, recebeu a ligação informando que o corpo havia sido localizado.


No dia seguinte, 12 de outubro, Neusa foi ao Instituto Médico Legal (IML), em Brasília. Reconheceu o marido por uma característica que fazia parte das brincadeiras do casal: os “pés tortos”.
A data carregava outra coincidência. Valdomiro era devoto de Nossa Senhora Aparecida e foi identificado justamente no dia dedicado à santa.


Um ano depois, Neusa voltou à Fazenda Jarinã levando uma imagem de Nossa Senhora. No local, familiares participaram de uma procissão até uma capela construída na propriedade.
“A vida segue, mas a cadeira dele vai estar sempre vazia”, disse Neusa, ao resumir à Folhapress o que restou depois de duas décadas.

154 HISTÓRIAS INTERROMPIDAS
Entre as vítimas estava também o estudante de medicina Átila Antônio Assad Rezende, de 24 anos.
Ele voltava de Manaus e faria conexão em Brasília antes de seguir para o interior de Goiás, onde estavam os pais.
A tia, Salma, recebeu a notícia de que o voo estava atrasado enquanto participava do ensaio de um coral. Depois, coube a ela buscar informações no aeroporto e acompanhar a angústia da família.
Átila foi encontrado ainda preso à poltrona 5A pelo cinto de segurança.
Se estivesse vivo, teria completado 44 anos neste mês.
“É muito estranho quando chega próximo ao dia”, afirmou Salma à Folhapress. Vinte anos depois, ela diz ainda se surpreender ao encontrar pessoas que desconhecem a tragédia. 
Familiares planejam se reunir nesta terça-feira no Jardim Botânico de Brasília, onde existe uma placa em homenagem às 154 vítimas.

O QUE APONTOU A INVESTIGAÇÃO
A investigação sobre o acidente não atribuiu a tragédia a uma causa isolada.
Entre os fatores apontados estavam problemas relacionados ao transponder do Legacy, que deixou de transmitir corretamente, comprometendo a identificação da aeronave e o funcionamento do sistema de prevenção de colisões (TCAS).
Também foram identificadas falhas nas instruções de altitude e no acompanhamento das aeronaves pelo controle de tráfego aéreo. Em relação ao Boeing da Gol, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) não identificou falhas ativas de sua tripulação que tivessem contribuído para a colisão.


A conclusão foi de uma combinação de fatores humanos, operacionais e ligados ao controle do tráfego aéreo. A investigação resultou ainda em recomendações para mudanças de procedimentos, treinamento e atuação dos controladores.
Os dois pilotos norte-americanos que comandavam o Legacy foram condenados pela Justiça brasileira, mas não cumpriram pena no Brasil e vivem nos Estados Unidos.

JUSTIÇA, 20 ANOS DEPOIS
O aniversário de duas décadas ocorre enquanto parte das famílias continua envolvida em uma disputa judicial.
Desde 2008, tramita uma ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal (MPF) para corrigir o valor do seguro obrigatório de Responsabilidade do Explorador ou Transportador Aéreo (Reta) pago após a tragédia.
Segundo a ação, foram pagos R$ 14.223,64 por apólice na época, valor que estaria congelado desde 1995, embora a legislação previsse atualização pela inflação.


Neste mês, a ministra Isabel Gallotti, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), reconheceu em decisão monocrática o direito dos beneficiários ao reajuste. De acordo com a decisão, a indenização corrigida pelos índices da Justiça Federal seria quase dez vezes superior ao montante quitado originalmente.


A estimativa é de que cada família possa receber cerca de R$ 300 mil em valores atuais. O montante é independente das indenizações decorrentes dos acordos firmados pelas famílias após o acidente. Os valores definitivos ainda terão de ser calculados e a decisão admite recurso.
A ação também envolve familiares das 199 vítimas do voo TAM 3054, acidente ocorrido em Congonhas, em São Paulo, em 2007.


A Gol informou à Folhapress que não comenta processos judiciais em andamento e afirmou respeitar a memória dos passageiros e tripulantes do voo 1907. A companhia também disse que concluiu os acordos de indenização com as famílias. A Anac informou que analisa a decisão para avaliar eventual recurso.
Para quem perdeu alguém naquela tarde sobre Mato Grosso, porém, os 20 anos não são apenas uma marca no calendário.


Eulália Machado de Carvalho, de 72 anos, perdeu o marido, Luiz Antônio Pereira de Carvalho, então com 55. Ela relaciona a demora do processo à dificuldade de encerrar um capítulo que começou naquela tarde de setembro.
“Por causa dessa pendência, a gente não tem paz para encerrar a dor. É uma questão de justiça que não se esclareceu”, afirmou.


Duas décadas depois, a queda do voo 1907 permanece como uma tragédia ocorrida no coração geográfico de Mato Grosso, mas que espalhou suas consequências por famílias de diferentes partes do Brasil.
Para elas, o calendário chegou aos 20 anos. O luto, não.

Por Folhapress

Célio