UTI é interditada por falta de médicos enquanto Pivetta fala em avanço na saúde e fila de 21 dias
Dados oficiais mostram 865 mil pacientes aguardando atendimento em Mato Grosso; discurso do governador sobre a saúde contrasta com a realidade da rede pública
A interdição ética da UTI Pediátrica e Neonatal do Hospital e Pronto-Socorro Municipal de Várzea Grande, determinada pelo Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT) por falta de médicos, expõe a distância entre o discurso do governador Otaviano Pivetta (Republicanos) e os problemas enfrentados diariamente pela população.
A unidade foi impedida nesta quarta-feira (23) de receber novos pacientes após fiscalização constatar insuficiência de profissionais na escala médica.
A situação também contrasta com a resposta dada por Pivetta na sabatina promovida ontem pelo próprio CRM-MT. Questionado sobre concursos para médicos, o governador afirmou que o Estado deve priorizar a administração de contratos e disse que concurso será realizado “se necessário”. “Nesse momento, nós estamos contratualizando”, declarou. O episódio de Várzea Grande, porém, mostra que a falta de profissionais continua afetando diretamente o funcionamento de serviços de alta complexidade.
O contraste fica ainda mais evidente quando se observa o tamanho da demanda do SUS em Mato Grosso. Dados do Portal Transparência da Regulação, alimentado diariamente pela Secretaria de Estado de Saúde, apontam 865.575 pacientes aguardando consultas, exames e procedimentos. São 333.388 pessoas na fila por consultas, 429.027 por exames e outros pacientes aguardando internações e procedimentos. A espera média chega a um ano e dois meses, com casos que ultrapassam 13 anos.
Na sabatina, entretanto, Pivetta afirmou que o tempo médio de espera teria caído de cerca de 90 para 21 dias. A declaração não esclareceu qual recorte da fila está sendo considerado nem como esse número se relaciona com os 865 mil pacientes registrados na Regulação estadual. O próprio sistema oficial informa que organiza o acesso a consultas, exames e procedimentos em Mato Grosso.
O discurso sobre a qualidade dos hospitais também merece ser confrontado com indicadores nacionais. Pivetta já classificou o Hospital Central de Mato Grosso como “o maior e melhor hospital público do país”. Entretanto, no ranking Melhores Hospitais Públicos do Brasil 2026, elaborado pelo IBROSS em parceria com instituições como OPAS/OMS, Conass e Conasems, o Hospital Central de Mato Grosso não aparece entre os dez primeiros colocados. A lista avaliou hospitais 100% SUS considerando critérios como qualidade assistencial, eficiência, segurança e satisfação dos pacientes.
O cenário coloca uma questão objetiva para o debate eleitoral: enquanto o governador apresenta a saúde como uma área em evolução, uma UTI é interditada por falta de médicos, 865 mil pessoas permanecem nas filas do SUS e o principal hospital público apresentado pelo governo como referência nacional não figura entre os dez primeiros do ranking nacional de 2026. Os números mostram uma realidade mais complexa do que a apresentada nas falas de Pivetta.
Da Redação



