Dados oficiais e estudos desmentem tentativa de Pivetta de minimizar avanço das facções em Mato Grosso
A declaração do governador Otaviano Pivetta (Republicanos) de que Mato Grosso não possui nenhum território dominado por facções criminosas é desmentida por estudos especializados e por informações divulgadas pelas próprias instituições responsáveis pelo combate ao crime organizado.
Questionado na sexta-feira (24) sobre a presença desses grupos no Estado, Pivetta afirmou que Mato Grosso não possui áreas submetidas ao chamado poder paralelo.
“Ao contrário de outros estados, nós não temos nenhum território dominado pelo Estado paralelo. E não vai ter”, declarou o governador.
Pivetta também prometeu intensificar o combate às organizações criminosas, prender seus integrantes e impedir que elas ampliem a atuação em Mato Grosso. A disposição anunciada é necessária. O problema está em apresentar o domínio territorial das facções como uma ameaça futura, quando os dados mostram que a presença, a influência e a expansão desses grupos já são realidade no Estado.
Não se trata de uma narrativa criada pela oposição. O diagnóstico está em pesquisas nacionais, investigações policiais e comunicados oficiais da Polícia Civil, da Polícia Federal e de outros órgãos públicos.
A edição mais recente do estudo Cartografias da Violência na Amazônia, produzida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto Mãe Crioula, mostra uma expansão acelerada das facções na Amazônia Legal.
Em 2023, organizações criminosas estavam presentes em 178 municípios da região. O número passou para 260 em 2024 e chegou a 344 em 2025. O crescimento foi de 32% em apenas um ano. Em 258 cidades havia somente uma facção identificada, enquanto outras 86 registravam disputas entre grupos rivais.
Mato Grosso aparece no centro desse avanço.
O levantamento identificou facções em 92 dos 141 municípios mato-grossenses analisados, o equivalente a 65,2% das cidades incluídas na pesquisa. O Comando Vermelho foi apontado como a organização de maior alcance no Estado, com presença em 85 municípios e hegemonia em 71 deles.
Também foram identificadas atuações do Primeiro Comando da Capital, da Tropa do Castelar e do Bonde dos 40. O mapa alcança grandes centros urbanos, cidades do agronegócio, municípios da fronteira e localidades do interior.
Os números não significam que 92 cidades estejam totalmente inacessíveis à polícia. Significam algo que a declaração de Pivetta deixou de mostrar: as facções já conseguiram estabelecer presença permanente, controlar mercados ilegais, disputar regiões e organizar redes criminosas em grande parte de Mato Grosso.
O poder de uma facção não começa apenas quando uma viatura deixa de entrar em um bairro. Ele também aparece quando uma organização decide quem pode vender drogas em determinada área, cobra taxas, impõe regras, ordena ataques, movimenta dinheiro e pune quem desobedece às suas determinações.
É justamente essa forma de influência territorial que aparece nas investigações realizadas dentro do Estado.
Em Sorriso, por exemplo, a própria Polícia Civil de Mato Grosso reconheceu uma tentativa de expansão de uma organização criminosa.
Na Operação Yang, deflagrada em julho de 2025, foram expedidas 27 ordens judiciais contra integrantes de um grupo criminoso que buscava ampliar sua presença em Sorriso e na região. Segundo a investigação, a organização se estabeleceu após a prisão de integrantes de uma facção rival e passou a coordenar ataques e assassinatos contra adversários.
Os mandados alcançaram investigados em Sorriso, Cáceres, Várzea Grande, Nova Canaã do Norte e em outros estados. A Polícia Civil afirmou que o grupo atuava de forma estruturada e organizada, discutindo homicídios, sequestros, tráfico de drogas, aquisição de armas, disseminação de ordens e planejamento de ataques.
A comunicação oficial não descreveu criminosos isolados. Descreveu uma organização estruturada que buscava ampliar sua atuação no norte de Mato Grosso.
Em Sinop, outra operação da própria Polícia Civil encontrou uma rede criminosa com atuação contínua na cidade e na região.
A Operação Offline, deflagrada em março de 2026, cumpriu 40 ordens judiciais contra uma facção investigada por envolvimento com o tráfico de drogas. As investigações identificaram, segundo a Polícia Civil, um grupo estruturado e hierarquizado, com divisão de funções entre seus integrantes.
A operação integrou o Programa Tolerância Zero, criado pelo Governo de Mato Grosso justamente para combater facções criminosas em todo o Estado.
Mais uma vez, os dados oficiais não mostram apenas a existência de traficantes. Mostram hierarquia, divisão de tarefas, continuidade e organização.
A posição geográfica de Mato Grosso também favorece o interesse das facções. O Estado faz fronteira com a Bolívia e é atravessado por importantes rodovias utilizadas para transportar drogas em direção a outras regiões do país.
Em 2024, as polícias estaduais de Mato Grosso apreenderam 23,7 toneladas de cocaína, o maior volume entre todos os estados da Amazônia Legal. Mato Grosso e Amazonas, juntos, responderam por mais de 80% das apreensões estaduais de cocaína na região naquele ano.
A quantidade apreendida não significa que toda a droga seria consumida dentro do Estado. Ela confirma, no entanto, que Mato Grosso ocupa uma posição estratégica nas rotas do narcotráfico, principal fonte de financiamento das maiores facções do país.
A contradição mais direta com a fala de Pivetta aparece na Terra Indígena Sararé, no oeste de Mato Grosso.
Em setembro de 2025, a Polícia Federal realizou uma operação contra garimpo e desmatamento ilegal no território indígena. No comunicado oficial, a própria PF definiu o local atingido pela operação como uma área dominada por facções criminosas e fortemente armada.
Não se trata de uma interpretação da imprensa. A expressão foi utilizada pela instituição federal responsável pela investigação.
A Terra Indígena Sararé possui cerca de 67 mil hectares, estende-se por Conquista D’Oeste, Nova Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade e abriga indígenas do povo Nambikwara. Parte significativa do território já foi impactada pelo garimpo ilegal.
Em março de 2026, o Governo Federal iniciou uma grande operação para retirar invasores, destruir a estrutura dos garimpos e retomar o controle do território.
Somente na primeira semana, foram realizadas 126 ações e 67 pessoas foram detidas. As equipes localizaram 31 acampamentos e apreenderam, inutilizaram ou destruíram nove escavadeiras, 76 motores, 40 geradores, 24 quilos de explosivos, quatro mil litros de diesel, aparelhos celulares, ouro e uma arma de fogo. O prejuízo inicial imposto à atividade criminosa foi estimado em R$ 26 milhões.
A atuação das facções sobre o garimpo na Sararé também foi revelada em uma reportagem de grande repercussão nacional exibida pelo Fantástico, da TV Globo.
A reportagem mostrou como o Comando Vermelho teria entrado inicialmente na região como um braço armado, oferecendo segurança aos garimpeiros. Depois, a organização teria passado a exigir participação nos lucros e avançado sobre as próprias áreas de extração de ouro.
As imagens exibidas pelo programa mostraram a dimensão da destruição ambiental e a estrutura montada dentro da terra indígena. Um dos pontos de exploração chegou a funcionar como uma pequena vila, com bares, comércio, farmácia e serviços utilizados pelas pessoas envolvidas no garimpo.
Segundo as informações apresentadas na reportagem, mais de duas mil pessoas chegaram a atuar na extração ilegal dentro do território. A atividade destruiu áreas de vegetação nativa, abriu crateras e avançou até sobre morros e serras.
O caso da Sararé é objetivo: dentro de Mato Grosso, a Polícia Federal identificou uma área dominada por facções e fortemente armada. Meses depois, uma operação envolvendo vários órgãos federais precisou ser mobilizada para retomar o controle do território.
Por isso, a declaração de Pivetta não encontra respaldo nem mesmo nas informações oficiais.
O governador pode sustentar que Mato Grosso não possui bairros completamente inacessíveis às forças policiais, como ocorre em áreas específicas de outros estados. Isso, porém, é diferente de afirmar que não existe nenhum território dominado ou submetido à influência de facções.
Esses fatos não deixam espaço para tratar o avanço das facções como uma possibilidade distante.
As organizações criminosas já estão em Mato Grosso. Elas disputam cidades, controlam atividades ilegais, movimentam drogas e dinheiro, coordenam ataques e diversificam suas fontes de renda, inclusive por meio da exploração ilegal do ouro.
Reconhecer essa realidade não diminui o trabalho das forças de segurança. Ao contrário, mostra a dimensão do problema enfrentado diariamente pelos policiais e demais agentes públicos.
A promessa de que “não vai ter” pode ser apresentada como uma meta do Governo. Não pode substituir o diagnóstico da situação atual.
Os dados oficiais mostram que já tem.
Ao minimizar esse cenário, Pivetta apresenta à população uma visão que não corresponde ao Mato Grosso revelado pelos estudos e pelas operações policiais.
O portal Deixa Que Eu Te Conto mantém o espaço aberto para manifestação do governador Otaviano Pivetta, da Secretaria de Estado de Segurança Pública e das demais instituições mencionadas.
Matéria que repercurtiu no Fantástico A declaração do governador Otaviano Pivetta (Republicanos) de que Mato Grosso não possui nenhum território dominado por facções criminosas é desmentida por estudos especializados e por informações divulgadas pelas próprias instituições responsáveis pelo combate ao crime organizado.
Questionado na sexta-feira (24) sobre a presença desses grupos no Estado, Pivetta afirmou que Mato Grosso não possui áreas submetidas ao chamado poder paralelo.
“Ao contrário de outros estados, nós não temos nenhum território dominado pelo Estado paralelo. E não vai ter”, declarou o governador.
Pivetta também prometeu intensificar o combate às organizações criminosas, prender seus integrantes e impedir que elas ampliem a atuação em Mato Grosso. A disposição anunciada é necessária. O problema está em apresentar o domínio territorial das facções como uma ameaça futura, quando os dados mostram que a presença, a influência e a expansão desses grupos já são realidade no Estado.
Não se trata de uma narrativa criada pela oposição. O diagnóstico está em pesquisas nacionais, investigações policiais e comunicados oficiais da Polícia Civil, da Polícia Federal e de outros órgãos públicos.
A edição mais recente do estudo Cartografias da Violência na Amazônia, produzida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto Mãe Crioula, mostra uma expansão acelerada das facções na Amazônia Legal.
Em 2023, organizações criminosas estavam presentes em 178 municípios da região. O número passou para 260 em 2024 e chegou a 344 em 2025. O crescimento foi de 32% em apenas um ano. Em 258 cidades havia somente uma facção identificada, enquanto outras 86 registravam disputas entre grupos rivais.
Mato Grosso aparece no centro desse avanço.
O levantamento identificou facções em 92 dos 141 municípios mato-grossenses analisados, o equivalente a 65,2% das cidades incluídas na pesquisa. O Comando Vermelho foi apontado como a organização de maior alcance no Estado, com presença em 85 municípios e hegemonia em 71 deles.
Também foram identificadas atuações do Primeiro Comando da Capital, da Tropa do Castelar e do Bonde dos 40. O mapa alcança grandes centros urbanos, cidades do agronegócio, municípios da fronteira e localidades do interior.
Os números não significam que 92 cidades estejam totalmente inacessíveis à polícia. Significam algo que a declaração de Pivetta deixou de mostrar: as facções já conseguiram estabelecer presença permanente, controlar mercados ilegais, disputar regiões e organizar redes criminosas em grande parte de Mato Grosso.
O poder de uma facção não começa apenas quando uma viatura deixa de entrar em um bairro. Ele também aparece quando uma organização decide quem pode vender drogas em determinada área, cobra taxas, impõe regras, ordena ataques, movimenta dinheiro e pune quem desobedece às suas determinações.
É justamente essa forma de influência territorial que aparece nas investigações realizadas dentro do Estado.
Em Sorriso, por exemplo, a própria Polícia Civil de Mato Grosso reconheceu uma tentativa de expansão de uma organização criminosa.
Na Operação Yang, deflagrada em julho de 2025, foram expedidas 27 ordens judiciais contra integrantes de um grupo criminoso que buscava ampliar sua presença em Sorriso e na região. Segundo a investigação, a organização se estabeleceu após a prisão de integrantes de uma facção rival e passou a coordenar ataques e assassinatos contra adversários.
Os mandados alcançaram investigados em Sorriso, Cáceres, Várzea Grande, Nova Canaã do Norte e em outros estados. A Polícia Civil afirmou que o grupo atuava de forma estruturada e organizada, discutindo homicídios, sequestros, tráfico de drogas, aquisição de armas, disseminação de ordens e planejamento de ataques.
A comunicação oficial não descreveu criminosos isolados. Descreveu uma organização estruturada que buscava ampliar sua atuação no norte de Mato Grosso.
Em Sinop, outra operação da própria Polícia Civil encontrou uma rede criminosa com atuação contínua na cidade e na região.
A Operação Offline, deflagrada em março de 2026, cumpriu 40 ordens judiciais contra uma facção investigada por envolvimento com o tráfico de drogas. As investigações identificaram, segundo a Polícia Civil, um grupo estruturado e hierarquizado, com divisão de funções entre seus integrantes.
A operação integrou o Programa Tolerância Zero, criado pelo Governo de Mato Grosso justamente para combater facções criminosas em todo o Estado.
Mais uma vez, os dados oficiais não mostram apenas a existência de traficantes. Mostram hierarquia, divisão de tarefas, continuidade e organização.
A posição geográfica de Mato Grosso também favorece o interesse das facções. O Estado faz fronteira com a Bolívia e é atravessado por importantes rodovias utilizadas para transportar drogas em direção a outras regiões do país.
Em 2024, as polícias estaduais de Mato Grosso apreenderam 23,7 toneladas de cocaína, o maior volume entre todos os estados da Amazônia Legal. Mato Grosso e Amazonas, juntos, responderam por mais de 80% das apreensões estaduais de cocaína na região naquele ano.
A quantidade apreendida não significa que toda a droga seria consumida dentro do Estado. Ela confirma, no entanto, que Mato Grosso ocupa uma posição estratégica nas rotas do narcotráfico, principal fonte de financiamento das maiores facções do país.
A contradição mais direta com a fala de Pivetta aparece na Terra Indígena Sararé, no oeste de Mato Grosso.
Em setembro de 2025, a Polícia Federal realizou uma operação contra garimpo e desmatamento ilegal no território indígena. No comunicado oficial, a própria PF definiu o local atingido pela operação como uma área dominada por facções criminosas e fortemente armada.
Não se trata de uma interpretação da imprensa. A expressão foi utilizada pela instituição federal responsável pela investigação.
A Terra Indígena Sararé possui cerca de 67 mil hectares, estende-se por Conquista D’Oeste, Nova Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade e abriga indígenas do povo Nambikwara. Parte significativa do território já foi impactada pelo garimpo ilegal.
Em março de 2026, o Governo Federal iniciou uma grande operação para retirar invasores, destruir a estrutura dos garimpos e retomar o controle do território.
Somente na primeira semana, foram realizadas 126 ações e 67 pessoas foram detidas. As equipes localizaram 31 acampamentos e apreenderam, inutilizaram ou destruíram nove escavadeiras, 76 motores, 40 geradores, 24 quilos de explosivos, quatro mil litros de diesel, aparelhos celulares, ouro e uma arma de fogo. O prejuízo inicial imposto à atividade criminosa foi estimado em R$ 26 milhões.
A atuação das facções sobre o garimpo na Sararé também foi revelada em uma reportagem de grande repercussão nacional exibida pelo Fantástico, da TV Globo.
A reportagem mostrou como o Comando Vermelho teria entrado inicialmente na região como um braço armado, oferecendo segurança aos garimpeiros. Depois, a organização teria passado a exigir participação nos lucros e avançado sobre as próprias áreas de extração de ouro.
As imagens exibidas pelo programa mostraram a dimensão da destruição ambiental e a estrutura montada dentro da terra indígena. Um dos pontos de exploração chegou a funcionar como uma pequena vila, com bares, comércio, farmácia e serviços utilizados pelas pessoas envolvidas no garimpo.
Segundo as informações apresentadas na reportagem, mais de duas mil pessoas chegaram a atuar na extração ilegal dentro do território. A atividade destruiu áreas de vegetação nativa, abriu crateras e avançou até sobre morros e serras.
O caso da Sararé é objetivo: dentro de Mato Grosso, a Polícia Federal identificou uma área dominada por facções e fortemente armada. Meses depois, uma operação envolvendo vários órgãos federais precisou ser mobilizada para retomar o controle do território.
Por isso, a declaração de Pivetta não encontra respaldo nem mesmo nas informações oficiais.
O governador pode sustentar que Mato Grosso não possui bairros completamente inacessíveis às forças policiais, como ocorre em áreas específicas de outros estados. Isso, porém, é diferente de afirmar que não existe nenhum território dominado ou submetido à influência de facções.
Esses fatos não deixam espaço para tratar o avanço das facções como uma possibilidade distante.
As organizações criminosas já estão em Mato Grosso. Elas disputam cidades, controlam atividades ilegais, movimentam drogas e dinheiro, coordenam ataques e diversificam suas fontes de renda, inclusive por meio da exploração ilegal do ouro.
Reconhecer essa realidade não diminui o trabalho das forças de segurança. Ao contrário, mostra a dimensão do problema enfrentado diariamente pelos policiais e demais agentes públicos.
A promessa de que “não vai ter” pode ser apresentada como uma meta do Governo. Não pode substituir o diagnóstico da situação atual.
Os dados oficiais mostram que já tem.
Ao minimizar esse cenário, Pivetta apresenta à população uma visão que não corresponde ao Mato Grosso revelado pelos estudos e pelas operações policiais.
Por Daniel Trindade



