El Niño reforça importância da descompactação do solo antes da safra
Com previsão de intensificação do fenômeno climático, o manejo físico das áreas de plantio ganha relevância para reduzir riscos de erosão, encharcamento e perdas produtivas nas lavouras
O avanço do El Niño em 2026 acende um alerta para os produtores rurais. Segundo boletim do Climate Prediction Center, da NOAA, publicado em 11 de junho, as condições do fenômeno já estão presentes e devem se intensificar ao longo do inverno no Hemisfério Norte, com 63% de chance de forte intensidade entre novembro e janeiro. No Brasil, o Instituto Nacional de Meteorologia aponta que o fenômeno costuma provocar efeitos opostos entre as regiões, com maior risco de seca no Norte e Nordeste e tendência de grandes volumes de chuva no Sul.
Para a agricultura, esse cenário aumenta a necessidade de atenção ao manejo e à conservação do solo. Em regiões sujeitas ao excesso de chuva, áreas compactadas tendem a intensificar problemas de drenagem, erosão e desenvolvimento das lavouras. Já em áreas com possibilidade de veranicos ou estiagens, a compactação reduz a capacidade de armazenamento de água em profundidade, deixando as plantas mais vulneráveis ao estresse hídrico.
De acordo com Henrique Figueiredo Moscatelli, engenheiro agrônomo e analista de inovação do Grupo Piccin, o produtor não consegue controlar o regime de chuvas, mas pode preparar melhor as áreas de plantio para enfrentar os extremos climáticos. “Um solo menos compactado infiltra mais água, drena melhor e favorece o aproveitamento de água e nutrientes pelas plantas. Dessa forma, a descompactação deixa de ser uma operação pontual e passa a integrar a estratégia de redução de risco”, afirma.
A compactação ocorre quando há adensamento das camadas do solo, geralmente provocado pelo tráfego intenso de máquinas, pisoteio animal, manejo inadequado ou operações realizadas em condições de umidade desfavorável. Essa condição limita o crescimento radicular e reduz a capacidade de exploração do perfil do solo. Segundo a Embrapa, em anos com déficit ou excesso hídrico, esses efeitos tendem a ser ainda mais relevantes para a produtividade.
Na prática, quando a chuva é intensa e o solo não consegue absorver o volume recebido, a água passa a escorrer pela superfície. Esse escoamento pode formar corredeiras, evoluir para processos erosivos e carregar a camada mais fértil do solo. “Em áreas planas ou com baixa drenagem, o problema também pode aparecer na forma de alagamento. Quando a água permanece acumulada por vários dias, as raízes sofrem com a falta de oxigênio, o que compromete o desenvolvimento da planta”, explica o especialista.
Atenção aos detalhes
Os sinais de compactação podem ser observados em campo, especialmente em talhões com desenvolvimento desigual das plantas, pontos de acúmulo de água após chuvas ou áreas com histórico de tráfego frequente de máquinas e animais. No entanto, a avaliação técnica deve ser feita com o uso de penetrômetro, equipamento que mede a resistência do solo à penetração e ajuda a identificar a profundidade da camada compactada.
As culturas anuais, como soja e milho, estão entre as mais sensíveis ao problema. Por terem ciclo curto e sistema radicular diretamente afetado pelas condições físicas do solo, elas têm menor capacidade de recuperação quando enfrentam encharcamento prolongado ou falta de água em fases críticas. Em solos compactados, as raízes tendem a crescer de forma superficial e lateralizada, em vez de se aprofundarem em busca de água e nutrientes.
É preciso mexer na terra
A descompactação mecânica atua no rompimento das camadas adensadas. Com o uso correto dos implementos, o solo recupera sua estrutura física, melhora a aeração e favorece o desenvolvimento radicular, além de melhorar o aproveitamento de água e nutrientes. O resultado é uma lavoura mais estável tanto em períodos de excesso de chuva quanto em momentos de menor disponibilidade hídrica, aponta Moscatelli.
Mas a operação exige planejamento, e o principal cuidado está relacionado à umidade do solo. Se realizada em condições muito secas, pode demandar maior potência e gerar torrões. Já em solo excessivamente úmido, a haste pode apenas “riscar” a camada compactada sem rompê-la adequadamente, além de aumentar o risco de novos problemas estruturais. “Por isso, a recomendação é avaliar cada área, identificar a profundidade da compactação e ajustar corretamente a profundidade de trabalho e o espaçamento entre hastes”, pontua o profissional.
No caso da Piccin, a empresa conta com uma linha de descompactadores voltada a diferentes realidades produtivas, incluindo modelos modulares, versões para barra de tração, equipamentos dobráveis e opções com hastes desencontradas para ambientes com maior presença de palhada ou soqueira. Segundo Moscatelli, a escolha correta do implemento deve considerar fatores como tipo de solo, potência do trator, tamanho da área, profundidade necessária de trabalho, robustez e facilidade de regulagem.
Mais do que corrigir problemas físicos do solo, a descompactação contribui para aumentar a estabilidade produtiva das lavouras diante das oscilações climáticas. “O produtor não controla o clima, mas controla o preparo do solo. É aí que se ganha ou se perde antes mesmo de plantar. Uma safra produtiva não começa na semente, começa no perfil das áreas de lavoura”, reforça o especialista.


Kassi Bonissoni



