HISTÓRICO DE ALIANÇAS ENTRE PL E MDB MOSTRA QUE CONVERGÊNCIAS POLÍTICAS SEMPRE FIZERAM PARTE DA DISPUTA EM MATO GROSSO
Trajetória das duas siglas no Estado inclui alianças, rupturas e diferentes projetos eleitorais; cenário de 2026 recoloca em debate a coerência entre discurso ideológico e prática política
A discussão sobre a aproximação entre PL e MDB em Mato Grosso ganhou força às vésperas das eleições de 2026, mas o histórico eleitoral do Estado mostra que a relação entre as duas siglas nunca foi marcada por uma incompatibilidade permanente. Ao contrário: nas últimas sete eleições estaduais, PL ou PR, denominação adotada pelo partido entre 2006 e 2019 e MDB estiveram juntos em cinco disputas, ora na mesma chapa, ora apoiando projetos políticos comuns.
A trajetória inclui a eleição de 1998, quando as duas siglas integraram a coligação que lançou Júlio Campos ao Governo; a união em torno da reeleição de Blairo Maggi, em 2006, com Silval Barbosa (MDB) como vice; a composição de 2010, quando Silval e Blairo venceram as disputas pelo Governo e Senado; e a aliança de 2014, quando MDB e PR participaram do mesmo projeto liderado por Lúdio Cabral, com Teté Bezerra como vice e Wellington Fagundes candidato ao Senado. Em 2022, PL e MDB voltaram a integrar o mesmo arco político na reeleição de Mauro Mendes, enquanto Wellington também conquistou novo mandato no Senado.
O histórico evidencia que as alianças partidárias em Mato Grosso sempre foram influenciadas pela conjuntura, pela formação de maiorias e pela construção de chapas competitivas. Ao site Rdnews, a cientista política Christiany Fonseca avalia que existe “muito mais continuidade do que ruptura” nesse processo e que a polarização nacional alterou principalmente a narrativa utilizada para justificar as alianças, e não necessariamente a lógica de composição entre partidos.
É nesse contexto que chama atenção a posição do prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, que afirmou não participar de projetos políticos que incluam o MDB. A declaração foi dada em março, quando já havia especulações sobre uma possível aproximação de Janaina com o grupo de Otaviano Pivetta.
A questão que permanece no debate político é objetiva: o critério seria o MDB ou o projeto político ao qual o MDB estiver associado?
A pergunta ganhou ainda mais relevância diante das articulações envolvendo Janaina Riva e Otaviano Pivetta. Em julho, o próprio governador confirmou que o Republicanos mantinha conversas com outros partidos da base e afirmou que trabalharia para contar com MDB e Podemos em sua composição. Reportagens também registraram tratativas entre as direções nacionais do Republicanos e do MDB para uma possível composição com Janaina na chapa de Pivetta.
Ou seja, a mesma aproximação com o MDB que é apresentada como problema quando relacionada ao projeto de Wellington também esteve no centro das articulações do grupo adversário. A diferença, nesse caso, parece estar menos na legenda e mais na composição política que está sendo construída.
Outro episódio recente reforça a necessidade de separar passado político de posicionamentos atuais. Com o possível nome de Alencar Farina para a vice de Wellington, Abilio reconheceu que o médico teve, em outro momento, aproximação com o PT, mas afirmou que sua trajetória mais recente demonstra alinhamento com o bolsonarismo. Segundo declaração atribuída ao prefeito, Farina teve participação nas campanhas de Jair Bolsonaro em 2018 e 2022 e manteve atuação próxima ao grupo político de direita.
O próprio Abilio, ao comentar o nome, afirmou que Farina é “um bom médico”, “inteligente” e possui “bom relacionamento”, defendendo que não seja prejudicado por posições políticas adotadas no passado.
A lógica apresentada pelo prefeito para avaliar Farina também coloca outra questão no debate: se uma trajetória política anterior não impede que alguém seja reconhecido hoje como alinhado ao bolsonarismo, por que o passado de outros atores políticos deveria ser utilizado como impedimento absoluto para alianças atuais?
A discussão sobre coerência também ultrapassa as fronteiras de Mato Grosso. Em São Paulo, o MDB de Ricardo Nunes formou, em 2024, uma ampla aliança que reuniu MDB, PL, PP, Republicanos, PSD e outras siglas. O vice de Nunes, coronel Mello Araújo, foi indicado pelo PL, com apoio de Jair Bolsonaro.
A composição paulista é um exemplo concreto de como partidos podem estabelecer alianças eleitorais por razões estratégicas, mesmo quando suas trajetórias nacionais ou posições em determinados temas não são idênticas. A frente liderada por Nunes chegou a reunir 12 partidos de diferentes campos políticos.
O cenário reforça uma característica histórica da política brasileira: alianças eleitorais são frequentemente construídas a partir da realidade de cada Estado ou município, da necessidade de formar maiorias e da competitividade das chapas.
Em Mato Grosso, portanto, a discussão sobre 2026 não pode ser reduzida a uma simples oposição entre “ideológicos” e “pragmáticos”. O próprio histórico das duas siglas demonstra que PL e MDB já estiveram juntos diversas vezes, inclusive em projetos vitoriosos e em palanques que reuniram diferentes correntes políticas.
A questão que se coloca agora é se os critérios utilizados para julgar uma aliança serão aplicados de maneira uniforme a todos os grupos políticos ou se mudarão conforme o candidato e o projeto eleitoral envolvidos.
Mais do que uma discussão sobre siglas, o cenário de 2026 expõe uma disputa sobre coerência, conveniência e estratégia política e caberá ao eleitor avaliar quais alianças fazem sentido diante dos projetos apresentados para Mato Grosso.
Da Redação



