{"id":98180,"date":"2022-11-20T19:08:16","date_gmt":"2022-11-20T22:08:16","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/11\/20\/imigrantes-fizeram-estadios-e-vendem-falcoes-leoes-mortos-e-acai-em-doha\/"},"modified":"2022-11-20T19:08:16","modified_gmt":"2022-11-20T22:08:16","slug":"imigrantes-fizeram-estadios-e-vendem-falcoes-leoes-mortos-e-acai-em-doha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/11\/20\/imigrantes-fizeram-estadios-e-vendem-falcoes-leoes-mortos-e-acai-em-doha\/","title":{"rendered":"Imigrantes fizeram est\u00e1dios e vendem falc\u00f5es, le\u00f5es mortos e a\u00e7a\u00ed em Doha"},"content":{"rendered":"<p>(UOL\/FOLHAPRESS) &#8211; Depois de passar a maior parte da vida de olhos vendados como parte de seu treinamento, um falc\u00e3o peregrino de penugem prateada finalmente foi desvendado e bateu asas para longe do bra\u00e7o do cliente de Khaled Alkaja, que se assustou. Mas a ave logo sentiu um pux\u00e3o na pata direita e teve o voo interrompido, virando em dire\u00e7\u00e3o ao solo e em seguida ao bra\u00e7o de seu comprador, no qual cravou suas garras outra vez. Khaled, sentado em um sof\u00e1 ao lado da arena onde seus outros 14 falc\u00f5es se empoleiravam, deu instru\u00e7\u00f5es ao cliente.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>&#8220;A confian\u00e7a entre o treinador e o falc\u00e3o n\u00e3o nasce de uma hora pra outra&#8221;, disse ele. Khaled nasceu na S\u00edria e vive em Doha, no Qatar, h\u00e1 vinte anos, onde compartilha com clientes, com os filhos e com jornalistas que eventualmente o procuram um pouco do que sabe sobre a arte de domar falc\u00f5es. Esse of\u00edcio ele aprendeu com o pai, cujo olhar imponente observa a movimenta\u00e7\u00e3o da loja de um porta-retrato na parede.<\/p>\n<p>Neste domingo \u00e0s 13h (de Bras\u00edlia), os falc\u00f5es de Khaled ter\u00e3o um dia de folga, porque o Qatar enfrentar\u00e1 o Equador na abertura da Copa do Mundo, e o treinador fechar\u00e1 sua loja para estar na arquibancada do est\u00e1dio Al Bayt. O s\u00edrio se juntar\u00e1 a uma multid\u00e3o de outros trabalhadores imigrantes do Qatar que ter\u00e3o a oportunidade \u00fanica de viver a primeira Copa sediada no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Nunca os imigrantes do Qatar tiveram tantos holofotes sobre si quanto nos \u00faltimos anos, quando esse pequeno pa\u00eds importador de m\u00e3o de obra precisou construir do zero a infraestrutura necess\u00e1ria. Poucos desses imigrantes chegaram ao Qatar para domar aves de rapina, como Khaled. A maioria foi importada para construir est\u00e1dios, pr\u00e9dios, linhas e esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4, ruas e estradas e tudo o que pa\u00eds precisou para receber o Mundial.<\/p>\n<p>Ao todo, os trabalhadores imigrantes comp\u00f5em cerca de 95% da for\u00e7a de trabalho do Qatar, o que representa quase 2 milh\u00f5es de pessoas vindas de pa\u00edses como \u00cdndia, Bangladesh, Nepal, Sri Lanka, Nig\u00e9ria, Gana e Eti\u00f3pia. Eles ajudaram a construir a Copa e agora ter\u00e3o o direito de usufrui-la, j\u00e1 que um morador do Qatar pode conseguir ingressos pelo equivalente a R$ 60.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros dizem muito, mas n\u00e3o tudo. Com o in\u00edcio do torneio, n\u00f3s agora podemos encontrar esses trabalhadores, saber seus nomes, seus rostos e suas hist\u00f3rias. Eles est\u00e3o em todos os lugares da cidade. Em certo sentido, eles s\u00e3o a cidade.<\/p>\n<p>Em Doha n\u00e3o h\u00e1 folha que caia da \u00e1rvore sem que um imigrante esteja pronto para recolh\u00ea-la e n\u00e3o h\u00e1 carro de aplicativo cujo motorista n\u00e3o tenha vindo de muito longe, como o indiano Assan, que j\u00e1 morou na Ar\u00e1bia Saudita, nos Emirados \u00c1rabes, mas escolheu fazer de Doha sua casa porque os qataris s\u00e3o gentis e educados. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 marido que n\u00e3o feche os olhos e n\u00e3o pense na esposa, deixada no interior da \u00c1frica ou do Sul da \u00c1sia, \u00e0 espera de um retorno sem data para acontecer.<\/p>\n<p>A Copa do Qatar \u00e9 a Copa de Susan Mmbone, que saiu de Kisumu, no Qu\u00eania, depois de se formar na faculdade e hoje vende a\u00e7a\u00ed em um quiosque no centro de Doha. A filha Aalyia ficou com a av\u00f3 e ouviu da m\u00e3e que um dia as duas viveriam juntas na Europa. Essa \u00e9 a Copa de Maneesh Gopalan, de Kerala, na \u00cdndia, que trabalha como sous-chef do restaurante Era e sente saudades do arroz temperado da m\u00e3e, Mallika. Essa \u00e9 a Copa de Lawson Innocent, de Volta Region, em Gana, que j\u00e1 foi assistente de vendas, seguran\u00e7a privado e hoje monta toldos e barracas para eventos da Fifa. Sua esposa e seus tr\u00eas filhos ficaram na \u00c1frica, de onde um dia ele sonha em tir\u00e1-los.<\/p>\n<p>No mercado Souq Waqif, o maior de Doha, o indiano Shafeeq Vallumbrath vende rel\u00f3gios de pulso e \u00f3culos de sol, mas n\u00e3o tem tempo para ir \u00e0 praia, o afeg\u00e3o Najeebullah Muradi produz espadas \u00e1rabes curvas, usadas na dan\u00e7a ou na guerra, e Ali Ali, sentado de pernas abertas no ch\u00e3o da pr\u00f3pria loja, serra os chifres de uma cabra do deserto, diante do olhar petrificado de um le\u00e3o empalhado, a venda por R$ 37 mil.<\/p>\n<p>Passear pelo Corniche, o principal cart\u00e3o postal do pa\u00eds, \u00e9 se perder no meio de uma arquitetura que impressiona, mas tamb\u00e9m perder de vista a hist\u00f3ria dos homens que juntaram todo o a\u00e7o, o concreto e o vidro. As fechadas dos pr\u00e9dios mais imponentes espelham o c\u00e9u sem nuvens do inverno e \u00e0s vezes tamb\u00e9m as pequenas ondula\u00e7\u00f5es do golfo, mas nunca as digitais dos milhares de imigrantes que ergueram a suntuosa capital qatari.<\/p>\n<p>Quando a bola rolar logo mais, e as aten\u00e7\u00f5es do mundo estiverem voltadas pra dentro campo, os imigrantes seguir\u00e3o vendendo a\u00e7a\u00ed e rel\u00f3gio, treinando falc\u00f5es e empalhando le\u00f5es, orientando os turistas pelas amplas ruas de Doha e talvez esperando o dia em eles possam voltar pra casa.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Esporte<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/esporte\/1967186\/imigrantes-fizeram-estadios-e-vendem-falcoes-leoes-mortos-e-acai-em-doha?utm_source=rss-esporte&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(UOL\/FOLHAPRESS) &#8211; Depois de passar a maior parte da vida de olhos vendados como parte<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":98181,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-98180","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-esportes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98180","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=98180"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98180\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/98181"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=98180"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=98180"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=98180"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}