{"id":95373,"date":"2022-10-26T12:08:22","date_gmt":"2022-10-26T15:08:22","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/10\/26\/poesia-dura-de-sua-musica-fez-milton-nascimento-se-tornar-a-voz-de-minas-gerais\/"},"modified":"2022-10-26T12:08:22","modified_gmt":"2022-10-26T15:08:22","slug":"poesia-dura-de-sua-musica-fez-milton-nascimento-se-tornar-a-voz-de-minas-gerais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/10\/26\/poesia-dura-de-sua-musica-fez-milton-nascimento-se-tornar-a-voz-de-minas-gerais\/","title":{"rendered":"Poesia dura de sua m\u00fasica fez Milton Nascimento se tornar a voz de Minas Gerais"},"content":{"rendered":"<p>(FOLHAPRESS) &#8211; Uma flauta e um viol\u00e3o abrem &#8220;Tr\u00eas Pontas&#8221;, segunda faixa do disco de estreia hom\u00f4nimo de Milton Nascimento lan\u00e7ado em 1967. Um coro acompanhado pela bateria logo invade a grava\u00e7\u00e3o antes da voz do cantor aparecer, ainda meio abafada pelos instrumentos, convocando seus conterr\u00e2neos a verem o trem que chega \u00e0 cidade e \u00e9 recebido com festa.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma jun\u00e7\u00e3o despretensiosa de sons que se desenrola a seguir, mas uma tradu\u00e7\u00e3o musical dos apitos, da fuma\u00e7a que sai da chamin\u00e9 e das rodas do trem que acelera e desacelera pelos trilhos da cidadezinha onde Milton cresceu e descobriu que gostava de m\u00fasica -e que voltaria a aparecer, de forma literal ou mais impl\u00edcita, em v\u00e1rias das cria\u00e7\u00f5es que levaram Minas Gerais e o pr\u00f3prio cantor para mais longe que aqueles trilhos podiam.<\/p>\n<p>&#8220;A m\u00fasica do Milton \u00e9 a hist\u00f3ria dele, muito ligada a essa paisagem do interior de Minas&#8221;, diz Maria Dolores, trespontana e autora de &#8220;Travessia: A Vida de Milton Nascimento&#8221;, biografia de 2006 que ganha nova edi\u00e7\u00e3o este ano. &#8220;Eu costumo dizer que ele seria o Milton Nascimento se tivesse nascido em qualquer lugar do mundo, porque essa genialidade \u00e9 muito natural dele, mas o personagem Bituca e o tipo de m\u00fasica que ele fez s\u00f3 existe porque ele cresceu em Tr\u00eas Pontas&#8221;.<\/p>\n<p>Do per\u00edodo na cidade a cerca de quatro horas da capital mineira, Belo Horizonte, onde anos mais tarde moraria, Milton guardou as m\u00fasicas que ouvia no r\u00e1dio sentado na cal\u00e7ada ao lado de Wagner Tiso, as refer\u00eancias dos filmes a que assistia no Cine Teatro Ideal, as novidades em vinil que uma amiga carioca trazia de trem nas f\u00e9rias e as vocaliza\u00e7\u00f5es que era obrigado a fazer para suprir a aus\u00eancia de notas de seu primeiro instrumento, uma sanfoninha que ganhou de seu pai.<\/p>\n<p>A inspira\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m vinha do cotidiano pacato e do horizonte de Tr\u00eas Pontas. &#8220;O Milton lembra que as primeiras vozes com as quais ele cantou foram as das montanhas. Ele descobriu aquele eco, aquela voz que respondia, e ficou encantado&#8221;, diz Maria Dolores.<\/p>\n<p>Ela cita ainda o impacto que tiveram sobre o menino festas como a Folia de Reis e, ainda que nunca tenha sido religioso, tudo o que era sagrado. Refer\u00eancias sonoras ao badalar dos sinos, ao canto desafinado do coral que reverberava nas paredes grossas e no teto alto das igrejas e \u00e0s ladainhas das prociss\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o raras nas composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Embora seja a mais celebrada, a Minas cantada e escrita por Milton nunca foi esse lugar totalmente id\u00edlico, permeado apenas por boas mem\u00f3rias. &#8220;Ele n\u00e3o doura a p\u00edlula para falar de Minas. Ele fala de um estado que carrega beleza, gl\u00f3rias, uma hist\u00f3ria nobre. Mas tamb\u00e9m mostra uma Minas Gerais de dor, do legado da escravid\u00e3o, das chagas do processo da minera\u00e7\u00e3o, do ciclo do ouro&#8221;, lembra Rafael Senra, professor da Universidade Federal do Amap\u00e1 que mergulhou na obra do m\u00fasico na disserta\u00e7\u00e3o &#8220;Dois Lados da Mesma Viagem: a Mineiridade e o Clube da Esquina&#8221;, publicada em 2010.<\/p>\n<p>Para ele, muito do amadurecimento do recorte que o compositor fez do estado vem da amizade com o jornalista Fernando Brant, que comp\u00f4s para a voz de Milton cl\u00e1ssicos como &#8220;Travessia&#8221;, &#8220;Maria Maria&#8221; e &#8220;Encontros e Despedidas&#8221;.<\/p>\n<p>Em &#8220;Ponta de Areia&#8221;, m\u00fasica que integra um dos discos mais importantes de Milton, &#8220;Minas&#8221;, de 1975, os dois escrevem sobre uma estrada de ferro que ligava Bahia \u00e0s Gerais e havia sido desativada, deixando um rastro de tristeza e cidades descaracterizadas -hist\u00f3ria que anos antes Brant havia contado em forma de reportagem para a revista O Cruzeiro.<\/p>\n<p>Da parceria dos dois tamb\u00e9m nasce o retrato do Beco do Mota, antigo ponto de prostitui\u00e7\u00e3o da mineira Diamantina, que na m\u00fasica de 1969 \u00e9 usado como met\u00e1fora para a repress\u00e3o da ditadura militar.<\/p>\n<p>Embora j\u00e1 tivesse cantado a inquieta &#8220;Para Lennon e McCartney&#8221;, composta por Brant, L\u00f4 Borges e M\u00e1rcio Borges em 1970, \u00e9 com &#8220;Clube da Esquina&#8221;, de 1972, que Milton chega ao auge de sua regionalidade -e tamb\u00e9m do quanto a extrapola e a transforma em sincretismo musical, se abrindo cada vez mais a estilos como o rock, o jazz, o blues e ritmos latino-americanos. Ao mesmo tempo, projeta Minas para o Brasil e para o mundo, levando nomes at\u00e9 ent\u00e3o pouco ou nada conhecidos, como L\u00f4, Beto Guedes e Toninho Horta, com ele.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um papel importante para a cena belo-horizontina, que num primeiro momento \u00e9 um gueto de improbabilidades. Voc\u00ea n\u00e3o estava no Rio nem em S\u00e3o Paulo, voc\u00ea estava \u00e0 margem. E o Clube da Esquina fez esse jogo virar um pouquinho&#8221;, afirma Samuel Rosa, l\u00edder da banda Skank, criada na capital mineira em 1991. &#8220;H\u00e1 quem diga que para voc\u00ea fazer alguma coisa acontecer no Brasil fora do Rio e de S\u00e3o Paulo voc\u00ea tem que ser bom uma vez e meia, mas o Clube da Esquina se forjou fora do eixo e foi muito mais do que isso&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 como se Milton e os outros integrantes mineiros daquela esp\u00e9cie de movimento -certamente o mais come quieto e casual da hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira- filtrassem suas experi\u00eancias e refer\u00eancias do passado e as usassem como norte, mas tamb\u00e9m adicionassem novas inspira\u00e7\u00f5es musicais que abririam o caminho para os que viriam depois.<\/p>\n<p>&#8220;Dizer que o Milton faz m\u00fasica mineira \u00e9 pouco para ele. Ele fez uma s\u00edntese daquilo que absorveu dos Beatles, de cantores na d\u00e9cada de 1950 e 1960, dos grandes nomes do jazz, da m\u00fasica sacra, africana. A m\u00fasica dele n\u00e3o se parece com nada. \u00c9 de Minas, mas, paradoxalmente, \u00e9 do mundo&#8221;, diz o vocalista do Skank.<\/p>\n<p>O legado de Milton tamb\u00e9m escorre para a m\u00fasica do rapper mineiro Djonga, que tem a voz do cantor como trilha da inf\u00e2ncia e recriou a famosa capa do &#8220;Clube da Esquina&#8221; em seu disco de estreia &#8220;Heresia&#8221;, de 2017. Ele tamb\u00e9m interpreta &#8220;Travessia&#8221; no \u00e1lbum &#8220;Atemporais&#8221;, que faz uma homenagem a Milton e \u00e9 previsto para este ano.<\/p>\n<p>&#8220;Depois de Milton aconteceu muita coisa em Minas, de Sepultura a Djonga. \u00c9 uma m\u00fasica pol\u00edtica, forte, com participa\u00e7\u00e3o de muita gente, mas ao mesmo tempo acho que os encontros continuam sendo casuais. \u00c9 uma aura Clube da Esquina que ronda&#8221;, diz o rapper.<\/p>\n<p>&#8220;Todo mundo consegue fazer essa m\u00fasica meio triste e meio feliz ao mesmo tempo. Tem uma dor na nossa poesia que \u00e9 diferente e eu acho que isso parte do Milton. N\u00f3s somos mineiros demais. \u00c9 at\u00e9 dif\u00edcil explicar, t\u00e1 ligado? \u00c9 dif\u00edcil explicar por que a gente \u00e9 a gente.&#8221;<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Cultura<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1958937\/poesia-dura-de-sua-musica-fez-milton-nascimento-se-tornar-a-voz-de-minas-gerais?utm_source=rss-cultura&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(FOLHAPRESS) &#8211; Uma flauta e um viol\u00e3o abrem &#8220;Tr\u00eas Pontas&#8221;, segunda faixa do disco de<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":95374,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-95373","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95373"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95373\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95374"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}