{"id":92241,"date":"2022-10-01T17:08:31","date_gmt":"2022-10-01T20:08:31","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/10\/01\/sobreviventes-do-massacre-do-carandiru-se-apoiam-na-fe-para-lidar-com-trauma\/"},"modified":"2022-10-01T17:08:31","modified_gmt":"2022-10-01T20:08:31","slug":"sobreviventes-do-massacre-do-carandiru-se-apoiam-na-fe-para-lidar-com-trauma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/10\/01\/sobreviventes-do-massacre-do-carandiru-se-apoiam-na-fe-para-lidar-com-trauma\/","title":{"rendered":"Sobreviventes do massacre do Carandiru se apoiam na f\u00e9 para lidar com trauma"},"content":{"rendered":"<p>MANUELA FERRARO<br \/>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Edivaldo Godoy, 64, levou tr\u00eas tiros, nas costas e nas m\u00e3os, durante o massacre do Carandiru, que ocorreu no dia 2 de outubro de 1992. Na \u00e9poca, ele cumpria uma pena de mais de 60 anos por ter sido condenado por diversos assaltos a bancos.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Na chacina que ocorreu h\u00e1 30 anos, policiais militares invadiram o pavilh\u00e3o 9 da Casa de Deten\u00e7\u00e3o, nome oficial do pres\u00eddio na zona norte de S\u00e3o Paulo. Mataram 111 detentos e obrigaram sobreviventes a carregarem os corpos.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o virar um deles, Godoy teve que se fingir de morto entre os cad\u00e1veres. &#8220;\u00c9 um trauma que vou levar para o caix\u00e3o&#8221;, diz. A brutalidade do epis\u00f3dio se transformou em sequelas psicol\u00f3gicas, como o medo de lugares escuros e os pesadelos que o transportam de volta ao Carandiru.<\/p>\n<p>O ex-detento, que comanda hoje a SOS Carentes, ONG que acolhe moradores de rua e egressos do sistema prisional, diz que a f\u00e9 foi seu principal alicerce para lidar com o trauma. &#8220;Quem sobreviveu \u00e0quilo l\u00e1 recome\u00e7ou do zero. Por isso, acredita em Deus&#8221;, explica Godoy, que compara essa cren\u00e7a a &#8220;uma rocha, uma for\u00e7a exterior&#8221; que lhe deu for\u00e7as nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A espiritualidade \u00e9 comum entre os sobreviventes. Entre alguns deles, a religiosidade j\u00e1 era exercida no pr\u00f3prio c\u00e1rcere. Francys Lins, que hoje tem 55 anos, chegou \u00e0 Casa de Deten\u00e7\u00e3o em 1987, com apenas 19. Cumpriria pena por assalto a m\u00e3o armada, homic\u00eddio qualificado e furto qualificado, consequ\u00eancias do envolvimento com drogas.<\/p>\n<p>No Carandiru, engajou-se na rotina do minist\u00e9rio de Bel\u00e9m, segmento da Assembleia de Deus que existia dentro do pres\u00eddio. Foi porteiro, di\u00e1cono, evangelista e se tornou pastor dentro do pr\u00f3prio Pavilh\u00e3o 9.<br \/>Morador do quinto andar do pr\u00e9dio, Lins diz que ouviu a pol\u00edcia subir cantando as escadas da cadeia. &#8220;Eles diziam: &#8216;O Choque chegou \/ Voc\u00eas pediram \/ O Fleury mandou'&#8221;, relata. Luiz Ant\u00f4nio Fleury Filho era governador de S\u00e3o Paulo na \u00e9poca.<\/p>\n<p>A isso, relata, somava-se o som das rajadas de tiros e os gritos dos detentos que pediam para n\u00e3o morrer. Duas semanas ap\u00f3s o massacre, ele foi transferido para o pres\u00eddio de Araraquara, no interior do estado, e passou a sonhar com o epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>&#8220;Lembro que, um dia, estava deitado e os outros presos come\u00e7aram a vibrar e a gritar. Eu levantei assustado. Eles comemoravam um gol numa partida de futebol. Mas eu achei que estava de novo no Carandiru&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Hoje, entretanto, Lins diz que pouco se lembra do epis\u00f3dio. Depois do c\u00e1rcere, viajou em miss\u00f5es durante 20 anos. Tamb\u00e9m continuou como pastor e tem o massacre como carro-chefe de seus testemunhos. Mora em Guap\u00f3, em Goi\u00e1s, onde trabalha como produtor rural e \u00e9 membro de uma ONG de reabilita\u00e7\u00e3o para usu\u00e1rios de drogas.<\/p>\n<p>O Evangelho, para ele, entrega uma esp\u00e9cie de &#8220;detox espiritual&#8221; para quem est\u00e1 preso. E a pastoral carcer\u00e1ria, por sua vez, tem papel fundamental na ressocializa\u00e7\u00e3o do preso. &#8220;Na pris\u00e3o, muitos pedem um caminho de volta. E \u00e9 a igreja que alcan\u00e7a essas pessoas, que oferece um ombro amigo, uma palavra de consola\u00e7\u00e3o&#8221;, diz.<\/p>\n<p>\u00c9 isso o que motiva Luiz Paulino, 55, que entrou no Carandiru em mar\u00e7o de 1986 para cumprir pena por homic\u00eddio qualificado. Embora tenha nascido em ber\u00e7o evang\u00e9lico, ele diz que estava afastado da igreja na \u00e9poca do massacre. Mas conta que, durante a chacina, viveu algumas experi\u00eancias transcendentais.<\/p>\n<p>Quando os policiais colocaram a metralhadora no guich\u00ea da cela onde estava, por exemplo, o gatilho da arma n\u00e3o funcionou e n\u00e3o disparou nenhuma bala. Depois, no caminho at\u00e9 o p\u00e1tio, que passou por um corredor polon\u00eas formado pelos militares, Paulino afirma que viveu duas vezes o que a B\u00edblia chama de &#8220;arrebatamento de sentido&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Meu corpo estava ali, mas algo levou meu esp\u00edrito para as sombras. Depois, ouvi uma voz dizendo que eu n\u00e3o iria morrer, e voltei a raciocinar&#8221;, diz. Ap\u00f3s a chacina, quando passou para o regime semiaberto, que cumpriu em Franco da Rocha, Paulino se reconciliou com a igreja, virou pastor e passou a frequentar novamente o Carandiru, mas desta vez para pregar.<\/p>\n<p>E faz isso at\u00e9 hoje em pres\u00eddios da Grande S\u00e3o Paulo, conciliando a atividade com o trabalho como assistente jur\u00eddico. Com essa evangeliza\u00e7\u00e3o, ele pretende levar adiante a f\u00e9 que o ajudou a lidar com o trauma do massacre. &#8220;Eu troco uma ideia e tento resgatar quem est\u00e1 na vida louca. Quero que me olhem e pensem: &#8216;Olha o hist\u00f3rico dele, se ele nunca abaixou a cabe\u00e7a, eu tamb\u00e9m n\u00e3o vou abaixar&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/1950500\/sobreviventes-do-massacre-do-carandiru-se-apoiam-na-fe-para-lidar-com-trauma?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MANUELA FERRAROS\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Edivaldo Godoy, 64, levou tr\u00eas tiros, nas costas e<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":92242,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-92241","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92241","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92241"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92241\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92242"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}