{"id":89952,"date":"2022-09-13T09:08:26","date_gmt":"2022-09-13T12:08:26","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/09\/13\/cineasta-jean-luc-godard-icone-da-nouvelle-vague-morre-aos-91-anos\/"},"modified":"2022-09-13T09:08:26","modified_gmt":"2022-09-13T12:08:26","slug":"cineasta-jean-luc-godard-icone-da-nouvelle-vague-morre-aos-91-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/09\/13\/cineasta-jean-luc-godard-icone-da-nouvelle-vague-morre-aos-91-anos\/","title":{"rendered":"Cineasta Jean-Luc Godard, \u00edcone da Nouvelle Vague, morre aos 91 anos"},"content":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; \u00cdcone da Nouvelle Vague, o cineasta Jean-Luc Godard, morreu aos 91 anos nesta ter\u00e7a-feira (13).<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Jean-Luc Godard vem de uma fam\u00edlia rica. Ali\u00e1s, muito rica. Riqu\u00edssima. Fam\u00edlia de banqueiros su\u00ed\u00e7os. No entanto procurou afastar-se por completo dessa riqueza.<\/p>\n<p>Foi com seu trabalho como oper\u00e1rio que financiou seu primeiro curta-metragem. Mais tarde, j\u00e1 morando em Paris, ele roubou do av\u00f4 um exemplar de um livro autografado por Paul Val\u00e9ry especialmente para o av\u00f4, de quem era muito amigo.<\/p>\n<p>Godard podia ter pedido dinheiro em casa, mas preferiu o furto. Era sua forma de mostrar o desejo de independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando escreve seu primeiro artigo para a j\u00e1 mundialmente famosa revista &#8220;Cahiers du Cin\u00e9ma&#8221;, em 1952, deu ao seu texto o nome de &#8220;Defesa e Ilustra\u00e7\u00e3o da Decupagem Cl\u00e1ssica&#8221;. Expunha ali as virtudes dos filmes feitos e montados \u00e0 maneira cl\u00e1ssica. Pois, como explicitaria quatro anos mais tarde, a montagem e a dire\u00e7\u00e3o de um filme s\u00e3o a mesm\u00edssima coisa.<\/p>\n<p>Isso ele fez na revista daquele que foi &#8220;o pai espiritual&#8221; dos jovens redatores da revista (Godard inclusive): Andr\u00e9 Bazin, o criador da teoria realista do cinema moderno, para quem a montagem era n\u00e3o mais do que uma trapa\u00e7a.<\/p>\n<p>Jean-Luc Godard foi assim desde sempre: iconoclasta. Gostava de colocar tudo em quest\u00e3o, inclusive a si mesmo.<\/p>\n<p>Em 1959, questionaria o cinema inteiro, com &#8220;Acossado&#8221; (1959), sua retumbante estreia. Tudo era improvisado. N\u00e3o havia roteiro. Pela manh\u00e3, o diretor tomava as notas sobre o que pretendia filmar naquele dia. Encerrava as filmagens quando entendia que a inspira\u00e7\u00e3o tinha acabado.<\/p>\n<p>A classe cinematogr\u00e1fica tradicional, t\u00e3o atacada nos &#8220;Cahiers&#8221; pela turma da nouvelle vague, regozijava-se com aquele filme que, dizia-se, seria imposs\u00edvel de montar.<\/p>\n<p>Doce ilus\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 &#8220;deu montagem&#8221;, como a mais moderna do mundo. Aquela em que cada &#8220;raccord&#8221; (o encontro entre dois planos) parecia desafiar os postulados do &#8220;bom cinema&#8221; e anunciar o futuro de sua arte.<\/p>\n<p>Deste ent\u00e3o mudaram os par\u00e2metros da montagem. Mas tamb\u00e9m os da filmagem. Com seu fot\u00f3grafo, Raoul Coutard, criou um estilo de reportagem, cinema com c\u00e2mera na m\u00e3o, sem luz artificial, ou quase, capta\u00e7\u00e3o das ruas ao vivo, longe dos est\u00fadios, um tanto de fic\u00e7\u00e3o e um tanto de document\u00e1rio no mesmo filme.<\/p>\n<p>Breve: Godard libertou o cinema de todas as conven\u00e7\u00f5es que o prendiam a um determinado tipo de forma. Sacudiu a poeira da sua arte com tal \u00eanfase que com um \u00fanico filme tornou-se um diretor essencial para o conhecimento do cinema. Sua arte era &#8220;a verdade em 24 quadros por segundo&#8221;, disse. Era tamb\u00e9m a mais pr\u00f3xima do homem, pois a \u00fanica que o captava por inteiro em seu tempo e espa\u00e7o, sem intermedi\u00e1rios. Mestre das frases de efeito (mas n\u00e3o s\u00f3 de efeito), postulou, com seu amigo Eric Rohmer, a superioridade de sua arte: &#8220;O cinema \u00e9 um pensamento que toma forma, bem como uma forma que permite pensar&#8221;.<\/p>\n<p>Godard gostava da liberdade. Inclusive da de mudar de filme para filme. Cada filme era um novo experimento. Gostava, por isso mesmo, do cinema mudo, aquele de um tempo &#8220;em que o cinema ainda n\u00e3o sabia o que era&#8221; e se buscava, filme ap\u00f3s filme. Antes de ser arte ou modo de express\u00e3o, o cinema confundia-se ent\u00e3o com a liberdade e a descoberta permanente.<\/p>\n<p>Quando passou da cr\u00edtica \u00e0 dire\u00e7\u00e3o, Godard desafiou todas as regras estabelecidas. Se as regras diziam que n\u00e3o se faz um primeiro plano com lente grande angular, ele fazia. Se diziam que n\u00e3o se pode usar branco para evitar o brilho, ele usava. Cada filme parecia ir em um sentido diferente do anterior. A contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ser uma forma de arte.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Raoul Coutard, o fot\u00f3grafo, sua companheira nessa primeira fase foi a atriz dinamarquesa Anna Karina, por quem se encantou vendo um filme publicit\u00e1rio e com quem se casaria pouco depois, lan\u00e7ando-a, j\u00e1, em &#8220;Uma Mulher \u00c9 uma Mulher&#8221; (1961). O casamento duraria menos que a parceria. &#8220;Alphaville&#8221; (1965) \u00e9 o primeiro filme que fazem depois da separa\u00e7\u00e3o (e em n\u00e3o poucos momentos uma declara\u00e7\u00e3o de amor do cineasta por sua musa). Fariam ainda &#8220;Made in USA&#8221; (1966) juntos.<\/p>\n<p>A \u00fanica fidelidade de Godard, desde ent\u00e3o e at\u00e9 agora, foi \u00e0 atualidade: podemos vasculhar sua filmografia. \u00c9 sempre do presente, de algo que o atrai ou inquieta que seus filmes est\u00e3o falando. Entre outras coisas. No mais, permitiu-se sempre ser contradit\u00f3rio.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o atingiu tamb\u00e9m sua vida pessoal, como relata sua segunda ex-mulher, Anne Wiazemsky. T\u00e3o revolucion\u00e1rio na arte, podia ser doentiamente ciumento em casa. Casa que, por sinal, podia usar como loca\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que morava l\u00e1. \u00c9 Wiazemsky, de novo, quem relata a dureza de ser for\u00e7ada a retomar pelo diretor, em cena, na manh\u00e3 seguinte, a mesma discuss\u00e3o que tivera com ele, e no mesmo lugar, na noite anterior.<\/p>\n<p>Para o bem e para o mau, assim constru\u00eda sua arte. Seu amigo Eric Rohmer, tamb\u00e9m diretor, dizia que Godard era como um ladr\u00e3o, que pilhava uma imagem aqui, uma cita\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria ali, depois um trecho de m\u00fasica, depois a imagem de um outro filme, juntava tudo e transformava numa ideia pr\u00f3pria. Assim montava seus pain\u00e9is, colando peda\u00e7o a peda\u00e7o, \u00e0s vezes desorientando o espectador que por vezes procurava ali uma profundidade que Godard mesmo nunca procurou. Sua arte era a do olhar, a da pele.<\/p>\n<p>Era, tamb\u00e9m, do momento. Cada filme de Godard \u00e9 uma esp\u00e9cie de document\u00e1rio sobre o momento em que \u00e9 feito: &#8220;O Pequeno Soldado&#8221;, a Guerra da Arg\u00e9lia; &#8220;Alphaville&#8221;, o totalitarismo informativo; &#8220;O Dem\u00f4nio das Onze Horas&#8221;, a sociedade de consumo; &#8220;Weekend&#8221;, a sociedade automobil\u00edstica e seus congestionamentos-monstro; &#8220;A Chinesa&#8221; e a ascens\u00e3o do mao\u00edsmo.<\/p>\n<p>A esse \u00faltimo, por sinal, Godard aderiu nos idos de 1968. Renegou sua obra anterior, deixou o cinema comercial, passou a fazer filmes coletivos destinados \u00e0 classe oper\u00e1ria, que, verdade seja dita, n\u00e3o se sensibilizava muito com eles.<\/p>\n<p>Godard passou da\u00ed \u00e0s s\u00e9ries em v\u00eddeo, quando nenhum cineasta ousava usar essa tecnologia. Que importa? Godard experimentava. Foi experimentando que chegou \u00e0 TV, com as s\u00e9ries &#8220;Seis Vezes Dois&#8221; (1976) e &#8220;France, Tour, D\u00e9tour, Deux Enfants&#8221; (1977).<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, seus filmes podem ser definidos, cada vez mais, por um novo g\u00eanero: o ensaio cinematogr\u00e1fico. Nem fic\u00e7\u00e3o, nem document\u00e1rio, \u00e0s vezes os dois, \u00e0s vezes nenhum. Voltou ao circuito comercial com &#8220;Salve-se Quem Puder (A Vida)&#8221;. Ora trouxe grandes estrelas (Johnny Halliday, Isabelle Huppert), ora lan\u00e7ou talentos (Marushka Detmers). Cada vez mais solit\u00e1rio, recolheu-se \u00e0 sua casa na Su\u00ed\u00e7a, e, n\u00e3o raro, apenas juntando peda\u00e7os de filmes de outros, soube impor, pela montagem, sua vis\u00e3o das coisas: falou das guerras na Europa, da ascens\u00e3o do neoliberalismo, da Am\u00e9rica, do socialismo.<\/p>\n<p>Desde &#8220;Acossado&#8221; at\u00e9 os mais recentes filmes-ensaio de Godard, pode-se gostar ou n\u00e3o de sua arte, pode-se &#8220;entender&#8221; ou n\u00e3o o que est\u00e1 l\u00e1, pode-se achar chato ou n\u00e3o, tr\u00eas coisas n\u00e3o se poder\u00e1 negar: 1) contam-se nos dedos os artistas com a intelig\u00eancia e a inquietude de Godard; 2) cada vez que ele colocou a c\u00e2mera para filmar, combinou cores, moveu seus atores, produziu beleza; 3) desde que Godard come\u00e7ou a filmar o cinema nunca mais foi o mesmo.<\/p>\n<p>O solo em que pisamos, quem o fecundou foi Godard. Com chatices e erros, mas tamb\u00e9m e sobretudo com g\u00eanio e grandeza.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Cultura<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1944131\/cineasta-jean-luc-godard-icone-da-nouvelle-vague-morre-aos-91-anos?utm_source=rss-cultura&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; \u00cdcone da Nouvelle Vague, o cineasta Jean-Luc Godard, morreu aos<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":89953,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-89952","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89952"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89952\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/89953"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}