{"id":82711,"date":"2022-07-25T11:08:26","date_gmt":"2022-07-25T14:08:26","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/07\/25\/mulheres-negras-desistem-de-ter-filhos-por-medo-do-racismo-e-protecao-a-saude-mental\/"},"modified":"2022-07-25T11:08:26","modified_gmt":"2022-07-25T14:08:26","slug":"mulheres-negras-desistem-de-ter-filhos-por-medo-do-racismo-e-protecao-a-saude-mental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/07\/25\/mulheres-negras-desistem-de-ter-filhos-por-medo-do-racismo-e-protecao-a-saude-mental\/","title":{"rendered":"Mulheres negras desistem de ter filhos por medo do racismo e prote\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0(FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;E se isso acontecer com um filho meu?&#8221;<br \/>Foi o que se perguntou Lorena Vit\u00f3ria, uma mulher negra de 21 anos, ap\u00f3s ver seus namorados, todos negros, serem abordados de forma violenta pela Pol\u00edcia Militar.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>O medo de que os futuros rebentos sejam v\u00edtimas de racismo faz com que a estudante de design de moda questione se vale a pena ceder ao desejo de ser m\u00e3e, ou se \u00e9 melhor n\u00e3o colocar outra crian\u00e7a negra em um mundo racista.<\/p>\n<p>&#8220;A gente v\u00ea hoje em dia as coisas que acontecem, tanto de abordagem como de morte, e eu sempre fico muito mal e acabo imaginando: se com o filho dos outros j\u00e1 me d\u00f3i tanto, como seria se isso acontecesse com um filho meu?&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A indecis\u00e3o de Lorena \u00e9 comum entre mulheres negras. O medo de que seus filhos sofram racismo \u2013que se manifesta na viol\u00eancia policial e obst\u00e9trica, no preconceito e na discrimina\u00e7\u00e3o\u2013 faz com que muitas delas abram m\u00e3o da maternidade. A decis\u00e3o tamb\u00e9m serve como prote\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>Isso ocorre pois o racismo \u00e9 motor de sofrimento ps\u00edquico, afirma Marizete Gouveia, doutora em psicologia pela Universidade de Bras\u00edlia e autora da tese &#8220;Onde se esconde o racismo na psicologia cl\u00ednica?&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo a especialista, o sofrimento causado pelo preconceito racial faz com que mulheres negras criem mecanismos de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental. N\u00e3o ter filhos \u00e9 um deles, uma vez que n\u00e3o precisariam se preocupar com as viol\u00eancias que viriam a sofrer.<\/p>\n<p>&#8220;Pode ser uma medida de autoprote\u00e7\u00e3o, no sentido de n\u00e3o ter que se preocupar com a crian\u00e7a, mas vai al\u00e9m disso. \u00c9 tamb\u00e9m n\u00e3o trazer uma crian\u00e7a para esse mundo violento. Eu vou me poupar de n\u00e3o ter essa preocupa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e9 um al\u00edvio n\u00e3o vivenciar essa crian\u00e7a sendo exposta a esse mundo.&#8221;<\/p>\n<p>De acordo com o Atlas da Viol\u00eancia 2021, realizado pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, desde a d\u00e9cada de 80, quando come\u00e7aram a crescer as taxas de homic\u00eddio no Brasil, o aumento foi mais acentuado entre a popula\u00e7\u00e3o negra, especialmente entre os mais jovens.<\/p>\n<p>E o medo se torna ainda maior se o filho for homem. Um levantamento realizado pelo F\u00f3rum com microdados do Anu\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica mostra que negros s\u00e3o 78,7% do total de mortes violentas intencionais entre homens. Isso significa que um homem negro tem 3,7 vezes mais chances de morrer do que um n\u00e3o negro.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da bab\u00e1 Gisele (nome fict\u00edcio, a pedido), que teve sua decis\u00e3o pautada na viol\u00eancia crescente entre negros e na sua experi\u00eancia profissional. Percebeu que era uma inquieta\u00e7\u00e3o constante a ideia de deixar seus filhos em casa para cuidar dos filhos de outras mulheres.<\/p>\n<p>&#8220;Como que eu vou me sujeitar a ter um filho e passar a semana fora de casa?&#8221;, diz ela. &#8220;\u00c9 esse o problema, tirar do filho o direito de ter a m\u00e3e por perto, porque esse trabalho consome.&#8221;<\/p>\n<p>Ela, que evita transitar em espa\u00e7os em que pode sofrer racismo, sente que n\u00e3o vale a pena ter um filho que ter\u00e1 sua liberdade podada para que n\u00e3o passe por situa\u00e7\u00f5es de preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Muitas vezes voc\u00ea tem o sonho dessa realiza\u00e7\u00e3o na sua vida, mas por falta de op\u00e7\u00e3o, por falha do estado e pelo racismo, voc\u00ea tem que tomar outros caminhos.&#8221;<\/p>\n<p>Evelyn Daisy de Carvalho de Sousa, 39, por outro lado, nunca teve um forte desejo de ser m\u00e3e devido a uma condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade heredit\u00e1ria. Conforme se tornou adulta, o medo de que seus filhos sofressem viol\u00eancia foi o que era preciso para que ela confirmasse a decis\u00e3o. Percebeu tamb\u00e9m que precisava proteger sua sa\u00fade mental. Sabia que ter um filho negro seria motivo de preocupa\u00e7\u00e3o constante.<\/p>\n<p>Sua decis\u00e3o acumula ainda outras variantes. Fundadora do Tra\u00e7amor, um projeto que atende mulheres em per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o capilar, Evelyn tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o de dois sobrinhos negros, o que faz com pense constantemente em como os manter vivos e seguros.<\/p>\n<p>&#8220;Imagina eu tendo gerado, colocado uma crian\u00e7a no mundo para ter essa preocupa\u00e7\u00e3o? Porque sobrinho e marido n\u00e3o s\u00e3o exatamente uma escolha. Engravidar, n\u00e3o. Voc\u00ea coloca uma pessoa no mundo para sofrer essas consequ\u00eancias.&#8221;<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, viu a irm\u00e3 sofrer com a viol\u00eancia obst\u00e9trica em suas quatro gravidezes, sendo mal atendida por m\u00e9dicos em dois partos. &#8220;Na ginecologia n\u00f3s passamos muita humilha\u00e7\u00e3o. Eu passei muita humilha\u00e7\u00e3o com o ginecologista do posto do meu bairro. Imagina se eu estivesse gr\u00e1vida?&#8221;<\/p>\n<p>O estudo &#8220;A cor da dor: iniquidades raciais na aten\u00e7\u00e3o pr\u00e9-natal e ao parto no Brasil&#8221;, publicada nos Cadernos de Sa\u00fade P\u00fablica em 2017, mostra que mulheres pretas s\u00e3o mais propensas do que brancas a terem um pr\u00e9-natal inadequado, aus\u00eancia de acompanhantes no parto e menos anestesia local quando praticada a episiotomia, que consiste num corte na regi\u00e3o da vagina para facilitar a sa\u00edda do beb\u00ea.<\/p>\n<p>Para Janete Santos Ribeiro, mestre em educa\u00e7\u00e3o pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e ex-coordenadora pedag\u00f3gica do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o racismo tem definido as necessidades e escolhas da popula\u00e7\u00e3o negra. A pesquisadora se diz dividida quanto ao que pensa sobre a decis\u00e3o de mulheres negras que optam por n\u00e3o ter filhos.<\/p>\n<p>Por um lado, cr\u00ea que a popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o deve pautar suas escolhas apenas com base na viol\u00eancia que sofre. Por outro, acredita ser importante que essas mulheres encontrem mecanismos que as ajudem a proteger seu bem-estar e sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>&#8220;Eu acolho as duas perspectivas, mas acredito que o importante \u00e9 que a pauta, o agenciamento seja nosso. N\u00e3o partir das viol\u00eancias impostas historicamente aos nossos corpos. Se n\u00e3o voc\u00ea sai de um adoecimento para outro&#8221;, afirma Ribeiro, que tamb\u00e9m \u00e9 professora da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n<p>A pesquisadora pondera, por\u00e9m, que a decis\u00e3o deve levar em considera\u00e7\u00e3o se existe o desejo pela maternidade e pensar em quais formas isso ser\u00e1 sanado para n\u00e3o virar um fator de sofrimento. &#8220;A solid\u00e3o da mulher negra tem sido uma imposi\u00e7\u00e3o da cultura patriarcal, elitista e racista. N\u00e3o queremos mais essa solid\u00e3o pautando nossas decis\u00f5es e escolhas.&#8221;<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/1927852\/mulheres-negras-desistem-de-ter-filhos-por-medo-do-racismo-e-protecao-a-saude-mental?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0(FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;E se isso acontecer com um filho meu?&#8221;Foi o que se perguntou Lorena<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":82712,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-82711","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82711","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82711"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82711\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82712"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}