{"id":82491,"date":"2022-07-23T13:08:36","date_gmt":"2022-07-23T16:08:36","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/07\/23\/chefes-toxicos-atingem-8-em-cada-10-executivos\/"},"modified":"2022-07-23T13:08:36","modified_gmt":"2022-07-23T16:08:36","slug":"chefes-toxicos-atingem-8-em-cada-10-executivos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/07\/23\/chefes-toxicos-atingem-8-em-cada-10-executivos\/","title":{"rendered":"Chefes t\u00f3xicos atingem 8 em cada 10 executivos"},"content":{"rendered":"<p>DANIELE MADUREIRA<br \/>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;Preciso de &#8216;mais g\u00e1s&#8217; em voc\u00ea&#8221;. A cobran\u00e7a sutil, em um email enviado pelo chefe poucas semanas depois de iniciar o novo trabalho, deixou Renato (nome fict\u00edcio), 36, incomodado. Analista s\u00eanior de TI de uma grande empresa de telecomunica\u00e7\u00f5es, ele tentava fazer o seu melhor depois de herdar tarefas de um colega rec\u00e9m-demitido, delegadas pelo chefe que tirou f\u00e9rias logo ap\u00f3s a sua contrata\u00e7\u00e3o, no regime remoto.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>O inc\u00f4modo inicial deu lugar a um mal-estar profundo quando, nas reuni\u00f5es online, ele, um analista s\u00eanior, passou a ser comparado depreciativamente com um analista j\u00fanior. Cr\u00edticas enviadas pelo chefe por email n\u00e3o raro tinham outros analistas copiados, alguns com dez anos ou mais de casa, que deixaram de ser promovidos com a chegada de Renato.<\/p>\n<p>Contratado em meio \u00e0 pandemia e morando em Belo Horizonte (MG), distante da sede da empresa, em S\u00e3o Paulo, ele n\u00e3o encontrou receptividade na equipe. N\u00e3o sabia com quem conversar para resolver d\u00favidas simples, enquanto quest\u00f5es urgentes, que envolviam terceiros, demoravam horas para serem respondidas. Passou a trabalhar de madrugada para conseguir solucionar pend\u00eancias sozinho.<\/p>\n<p>As cobran\u00e7as por resultados aumentavam. Renato diz que o chefe repetia que ele era um analista s\u00eanior em uma das maiores empresas do setor do mundo, e que por isso ele saberia como agir, uma vez que a empresa n\u00e3o tolerava erros.<\/p>\n<p>Mas Renato j\u00e1 n\u00e3o sentia mais confian\u00e7a em si mesmo e come\u00e7ou a sofrer de ansiedade, enfrentando epis\u00f3dios de p\u00e2nico quando avistava o nome do chefe nas chamadas do celular. Achava que seria demitido a qualquer momento.<\/p>\n<p>Ele afirma que se sentia &#8220;um lixo&#8221;.<br \/>O problema de Renato e de 78% dos altos executivos do pa\u00eds se chama &#8220;chefe t\u00f3xico&#8221;. Foi o que identificou uma pesquisa feita pela consultoria em gest\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o executiva BTA Associados, entre mar\u00e7o e abril deste ano, com 321 profissionais dos n\u00edveis de ger\u00eancia, diretoria, presid\u00eancia e conselhos de empresas.<\/p>\n<p>&#8220;Perguntamos aos executivos se eles j\u00e1 trabalharam ou trabalham com um chefe t\u00f3xico e 78% disseram que sim&#8221;, afirma a psic\u00f3loga Betania Tanure de Barros, s\u00f3cia da BTA e especialista em comportamento organizacional.<\/p>\n<p>Como principais caracter\u00edsticas de um chefe t\u00f3xico, que pratica ass\u00e9dio moral, os executivos apontaram desonestidade, agressividade, narcisismo e incompet\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um perfil completamente oposto ao de um l\u00edder de refer\u00eancia, apontado pelos entrevistados como algu\u00e9m \u00edntegro, com vis\u00e3o estrat\u00e9gica, compet\u00eancia t\u00e9cnica, que tem escuta aberta, boa comunica\u00e7\u00e3o e empatia&#8221;, afirmou Betania. A pesquisa identificou que 82% j\u00e1 trabalharam ou trabalham com um l\u00edder assim.<\/p>\n<p>26% ACREDITAM QUE V\u00c3O ADOECER POR CONTA DO TRABALHO<br \/>A maior parte dos executivos ouvidos na pesquisa da BTA diz sofrer hoje algum n\u00edvel de ass\u00e9dio moral no trabalho. Os casos mais graves indicaram altos n\u00edveis de ang\u00fastia para 42% dos entrevistados, de ansiedade para 60% e de estresse para 62%. Mais de um quarto dos executivos (26%) afirmaram que podem adoecer com o trabalho.<\/p>\n<p>&#8220;Durante a pandemia, as empresas acabaram negligenciando, de alguma maneira, o treinamento dos l\u00edderes. Houve muito investimento em tecnologia, mas lideran\u00e7a ficou em segundo plano&#8221;, afirma Betania. No final de 2020, outra pesquisa da BTA apontou que 84% das companhias tinham inten\u00e7\u00e3o de reduzir ou, no m\u00e1ximo, manter os investimentos em desenvolvimento dos seus executivos.<\/p>\n<p>&#8220;Agora h\u00e1 uma predomin\u00e2ncia de l\u00edderes com compet\u00eancias medianas em um ambiente altamente demandante&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o trabalho remoto permitiu um n\u00edvel de ass\u00e9dio maior em termos de cobran\u00e7a, porque n\u00e3o existem espectadores, diz Tatiana Iwai, professora de comportamento e lideran\u00e7a do Insper.<br \/>&#8220;O executivo n\u00e3o est\u00e1 diante de uma equipe, a n\u00e3o ser em reuni\u00f5es online, e os di\u00e1logos s\u00e3o privados&#8221;, afirma Tatiana. &#8220;Neste tipo de ambiente, a press\u00e3o pode ser muito mais intensa.&#8221;<\/p>\n<p>As empresas reconhecem e mant\u00eam este tipo de lideran\u00e7a t\u00f3xica porque, na maioria das vezes, ela entrega resultados, diz a s\u00f3cia da BTA, V\u00e2nia Caf\u00e9.<\/p>\n<p>&#8220;Justamente pela assertividade e certa agressividade destes l\u00edderes na condu\u00e7\u00e3o da equipe, eles conseguem cumprir metas. Isso leva a empresa a relevar o comportamento t\u00f3xico&#8221;, afirma a especialista.<br \/>Tatiana Iwai destaca, no entanto, que grandes esc\u00e2ndalos corporativos -como o que ocorreu com a Caixa Econ\u00f4mica Federal recentemente- n\u00e3o acontecem da noite para o dia.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o comportamentos t\u00f3xicos que v\u00e3o se tornando regulares e acabam moldando a cultura daquela empresa&#8221;, diz ela. &#8220;No entanto, em algum momento, tudo isso vem \u00e0 tona e compromete a imagem da companhia com todos os seus p\u00fablicos de interesse: funcion\u00e1rios, fornecedores, consumidores, comunidade e investidores.&#8221;<\/p>\n<p>EMPRESAS T\u00d3XICAS T\u00caM MAIOR ROTATIVIDADE<br \/>A contrapartida do comportamento de ass\u00e9dio moral \u00e9 a dificuldade de atra\u00e7\u00e3o e a perda de talentos, diz V\u00e2nia Caf\u00e9. &#8220;As empresas criam reputa\u00e7\u00e3o no mercado, com base na sua cultura de lideran\u00e7a. Uma empresa -ou equipe- de alta rotatividade pode ser um indicativo de ass\u00e9dio moral&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio (nome fict\u00edcio), 45, est\u00e1 h\u00e1 d\u00e9cadas na \u00e1rea de vendas e se orgulha de saber trabalhar sob press\u00e3o. \u00c9 executivo de contas de uma multinacional de tecnologia e atende clientes do governo federal, em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Ele afirma que as empresas costumam estipular metas superestimadas porque, caso algum setor falhe, outro pode compensar. Fl\u00e1vio tamb\u00e9m diz que os chefes fazem press\u00e3o para que os vendedores se tornem amigos dos clientes, sem entender que a constru\u00e7\u00e3o desse tipo de rela\u00e7\u00e3o \u00e9 demorada.<br \/>O problema \u00e9 que, quando chega o fim do ano e o executivo precisa atingir sua meta, come\u00e7a a assumir riscos.<\/p>\n<p>Ele conta que, em seu trabalho anterior, fez uma encomenda de equipamentos para alguns clientes que, posteriormente, desistiram da compra. Quando isso ocorreu, ele relata ter sido alvo de muita press\u00e3o -segundo Fl\u00e1vio, seu chefe gritava: &#8220;Tem milh\u00f5es de reais em equipamentos parados. Voc\u00ea prometeu que sairia dia 15 de agosto e agora \u00e9 30 de setembro e est\u00e1 tudo parado. A divis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e a divis\u00e3o Am\u00e9ricas contavam com isso. Como voc\u00ea falha assim? \u00c9 o segundo m\u00eas que voc\u00ea falha&#8221;.<\/p>\n<p>Como resultado, diz ter desenvolvido um quadro de ansiedade. Ele conta que passou a ter dificuldade para se concentrar, que n\u00e3o podia mais beber, porque o \u00e1lcool o desequilibrava emocionalmente, desencadeando choros, e que teve problemas de libido.<br \/>A sa\u00edda que encontrou foi terapia e a religi\u00e3o esp\u00edrita, diz. Um tempo depois, deixou o trabalho.<\/p>\n<p>Hoje Fl\u00e1vio reclama da carga de trabalho, que aumentou muito na pandemia. Segundo ele, s\u00e3o in\u00fameras reuni\u00f5es todos os dias, e cada uma define uma nova tarefa a ser realizada por ele. O vendedor diz ainda que n\u00e3o consegue mais impor limites ao seu hor\u00e1rio de trabalho, usando o tempo antes e depois do expediente para ter um momento privado para pensar e definir estrat\u00e9gias.<\/p>\n<p>Agora, ele diz que j\u00e1 estuda um plano B: dar adeus \u00e0 vida executiva e se concentrar na vida no campo.<br \/>WHATSAPP NO LEITO DA UTI<br \/>J\u00e1 Renato, em Belo Horizonte, deixou depois de seis meses a empresa de telecom e passou a trabalhar em uma companhia de tecnologia. Ainda hoje faz terapia, mas j\u00e1 superou as crises de p\u00e2nico.<br \/>A gota d&#8217;\u00e1gua para ele no antigo emprego foi a falta de empatia do chefe com a sua doen\u00e7a: Renato pegou Covid no in\u00edcio de 2021 e ficou 20 dias internado, 10 deles na UTI. Ele diz que sua imunidade estava baixa porque vinha dormindo mal e comendo muito em raz\u00e3o da ansiedade, e que pertencia a um grupo de risco, por ser obeso. Renato diz ter ficado com 70% do pulm\u00e3o comprometido.<\/p>\n<p>Levou o laptop para o hospital e continuou trabalhando. Alguns dias depois, por\u00e9m, avisou o chefe que seria encaminhado \u00e0 UTI, por conta do agravamento do quadro, e levaria apenas o seu celular pessoal, para se comunicar com a mulher.<\/p>\n<p>Cinco dias depois, em um dos momentos mais cr\u00edticos da terapia, quando estava sendo submetido ao ventilador mec\u00e2nico para suprir a car\u00eancia de oxig\u00eanio, sem conseguir falar, recebeu uma mensagem por WhatsApp: &#8220;Oi, quando puder, me liga&#8221;. Era o chefe, querendo que Renato providenciasse um atestado m\u00e9dico.QUAL \u00c9 O PERFIL DO L\u00cdDER T\u00d3XICO?<br \/>Desonesto &#8211; 23%<br \/>Agressivo e desrespeitoso &#8211; 22%<br \/>Narcisista &#8211; 20%<br \/>Incompetente &#8211; 13%<br \/>Centralizador e autorit\u00e1rio &#8211; 11%<br \/>Exerce press\u00e3o excessiva &#8211; 6%<br \/>Inseguro &#8211; 5%<br \/>Fonte: BTA AssociadosQUAL O PERFIL DO L\u00cdDER DE REFER\u00caNCIA?<br \/>\u00cdntegro &#8211; 28%<br \/>Est\u00e1 aberto a ouvir e desenvolve boa comunica\u00e7\u00e3o &#8211; 24%<br \/>Tem vis\u00e3o estrat\u00e9gica &#8211; 17%<br \/>Tem compet\u00eancia t\u00e9cnica &#8211; 13%<br \/>Tem empatia &#8211; 11%<br \/>Descentralizador &#8211; 11%<br \/>Desenvolve pessoas e a equipe &#8211; 11%<br \/>Motiva pessoas e a equipe &#8211; 10%<br \/>Fonte: BTA Associados<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/economia\/1927544\/chefes-toxicos-atingem-8-em-cada-10-executivos?utm_source=rss-economia&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><br \/>\nNot\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Economia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DANIELE MADUREIRAS\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;Preciso de &#8216;mais g\u00e1s&#8217; em voc\u00ea&#8221;. 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