{"id":69212,"date":"2022-04-29T06:08:35","date_gmt":"2022-04-29T09:08:35","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/04\/29\/enfermeira-brasileira-coordena-33-hospitais-no-afeganistao-e-negocia-com-talibas\/"},"modified":"2022-04-29T06:08:35","modified_gmt":"2022-04-29T09:08:35","slug":"enfermeira-brasileira-coordena-33-hospitais-no-afeganistao-e-negocia-com-talibas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/04\/29\/enfermeira-brasileira-coordena-33-hospitais-no-afeganistao-e-negocia-com-talibas\/","title":{"rendered":"Enfermeira brasileira coordena 33 hospitais no Afeganist\u00e3o e negocia com talib\u00e3s"},"content":{"rendered":"<p>(FOLHAPRESS) &#8211; Da outra vez em que participou de uma miss\u00e3o humanit\u00e1ria no Afeganist\u00e3o, em 2013, a enfermeira brasileira Ana L\u00facia Bueno atendeu combatentes do Talib\u00e3 em penitenci\u00e1rias. Agora que o grupo fundamentalista saiu da ilegalidade e voltou ao governo, ela se senta com eles em mesas de negocia\u00e7\u00e3o para discutir os rumos do sistema de sa\u00fade afeg\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Coordenadora de opera\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas do Comit\u00ea Internacional da Cruz Vermelha (CICV) no pa\u00eds, Bueno, 41, tem sob sua responsabilidade 33 hospitais com 10 mil profissionais de sa\u00fade no total, al\u00e9m de 46 postos de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. Ela usa os conhecimentos que adquiriu durante 15 anos de trabalho em zonas de conflito em locais como I\u00eamen, Sud\u00e3o do Sul, Som\u00e1lia e Faixa de Gaza.<\/p>\n<p>O CICV assumiu os custos e a gest\u00e3o dos hospitais afeg\u00e3os ap\u00f3s a mudan\u00e7a de regime, quando fundos internacionais pararam de chegar e n\u00e3o havia mais recursos governamentais para banc\u00e1-los.<\/p>\n<p>&#8220;Nossa fun\u00e7\u00e3o \u00e9 manter o sistema funcionando. A popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel por quem est\u00e1 governando. A vida segue, mulheres continuam tendo filhos, crian\u00e7as continuam adoecendo e precisando de vacina&#8221;, diz Bueno, que chegou ao pa\u00eds em janeiro e deve ficar at\u00e9 junho de 2023.<\/p>\n<p>&#8220;Fazer a m\u00e1quina andar em contextos disfuncionais&#8221;, como ela define, exige negocia\u00e7\u00e3o -para ter acesso aos hospitais, convencer autoridades a colocar nos cargos de confian\u00e7a pessoas com perfil t\u00e9cnico, e n\u00e3o religiosos, para que mulheres n\u00e3o sejam exclu\u00eddas. &#8220;Demanda tempo, di\u00e1logo, diplomacia.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo Bueno, as afeg\u00e3s profissionais de sa\u00fade continuam trabalhando -o Talib\u00e3 tem tentado passar uma imagem mais moderada do que quando governou o pa\u00eds h\u00e1 20 anos, mantendo alguns direitos das mulheres, apesar de tolher v\u00e1rios outros.<\/p>\n<p>\u00a0&#8220;Em todo di\u00e1logo com eles [os talib\u00e3s] a gente refor\u00e7a que n\u00e3o deve haver discrimina\u00e7\u00e3o. Em algumas prov\u00edncias mais conservadoras, elas precisam da escolta de um familiar homem para chegar ao trabalho, mas n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o comum. Em Cabul a gente quase n\u00e3o v\u00ea isso mais&#8221;, diz. &#8220;O que elas relatam \u00e9 que se sentem desconfort\u00e1veis com olhares de reprova\u00e7\u00e3o. Existe toda uma gera\u00e7\u00e3o que ganhou certa liberdade nesses 20 anos e agora est\u00e1 tendo que ir com cuidado, testando os limites.&#8221;<\/p>\n<p>Mulheres s\u00e3o 32% da for\u00e7a de trabalho nos hospitais geridos pelo CICV no Afeganist\u00e3o. A maioria trabalha com enfermagem, ginecologia e obstetr\u00edcia ou cl\u00ednica geral. Os locais t\u00eam alas separadas para pacientes mulheres, e elas precisam levar um familiar para se consultar com um especialista do sexo masculino -mas isso j\u00e1 era assim antes do Talib\u00e3.<\/p>\n<p>Bueno, que no pa\u00eds usa v\u00e9u, cal\u00e7a e camisa longa cobrindo os bra\u00e7os, n\u00e3o raro \u00e9 a \u00fanica mulher nos encontros oficiais com autoridades de sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 agora venho sendo respeitada como profissional. Eles sabem que o di\u00e1logo tem que ser comigo, que sou quem toma as decis\u00f5es&#8221;, diz, para em seguida contar um epis\u00f3dio que viveu no dia anterior, em Kandahar (capital espiritual do Talib\u00e3). &#8220;Um colega que \u00e9 gerente de um hospital me abordou e disse: &#8216;Posso fazer uma pergunta? Por que na Cruz Vermelha a maioria das chefes \u00e9 mulher?&#8217; Respondi que deve ser porque somos competentes. Ele abriu um sorriso.&#8221;<\/p>\n<p>Se por um lado houve uma redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica no n\u00famero de feridos ap\u00f3s a tomada total do poder pelo grupo e o fim dos combates diretos, hoje as alas pedi\u00e1tricas est\u00e3o lotadas com casos de desnutri\u00e7\u00e3o. Segundo Bueno, uma das explica\u00e7\u00f5es \u00e9 a crise econ\u00f4mica que veio com a sa\u00edda da maioria das organiza\u00e7\u00f5es internacionais do pa\u00eds, deixando sem emprego muita gente que tinha a fonte de renda direta ou indiretamente ligada a esse sistema.<\/p>\n<p>&#8220;O sistema banc\u00e1rio colapsou e at\u00e9 agora n\u00e3o retornou. A popula\u00e7\u00e3o pobre tem mais mecanismos para lidar com uma situa\u00e7\u00e3o assim, mas nos \u00faltimos anos surgiu uma nova classe m\u00e9dia que n\u00e3o tem as mesmas habilidades.&#8221;<\/p>\n<p>Bueno observa ainda outro fen\u00f4meno: a popula\u00e7\u00e3o de vilas que antes ficavam isoladas por estarem em territ\u00f3rio talib\u00e3 hoje consegue acessar o sistema de sa\u00fade. Com isso, o aumento do registro de algumas doen\u00e7as pode ter a ver com o fato de que s\u00f3 agora esses pacientes entraram no radar.<\/p>\n<p>&#8220;A gente est\u00e1 passando por uma epidemia de sarampo, por exemplo, e n\u00e3o sabemos se \u00e9 por causa desse fen\u00f4meno ou um reflexo da falta de vacina\u00e7\u00e3o. Ainda estamos tentando ver o tamanho do dano e o que isso vai significar nos pr\u00f3ximos anos.&#8221;<\/p>\n<p>Especialista em sa\u00fade p\u00fablica e pneumologia, Bueno \u00e9 ga\u00facha e come\u00e7ou a carreira humanit\u00e1ria em 2007, parte da primeira equipe dos M\u00e9dicos sem Fronteiras no Brasil. Tinha 26 anos e fazia aulas particulares de ingl\u00eas ap\u00f3s o trabalho e aos fins de semana para aprender o idioma em quatro meses, a tempo da sele\u00e7\u00e3o. Sua primeira miss\u00e3o foi na Som\u00e1lia, onde trabalhou em um programa de tuberculose.<\/p>\n<p>Quatro meses antes da viagem, ela se casou. O marido, que \u00e9 piloto de avi\u00e3o, mora em S\u00e3o Paulo e nunca conseguiu ir com ela nas miss\u00f5es: das 21 em que j\u00e1 esteve, 20 eram em zonas de guerra, onde n\u00e3o era poss\u00edvel levar acompanhantes. Mesmo na exce\u00e7\u00e3o, no M\u00e9xico, onde Bueno passou um ano trabalhando com migra\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia urbana em cinco pa\u00edses da regi\u00e3o, ele estava trabalhando e n\u00e3o p\u00f4de ir.<\/p>\n<p>A cada dois meses e meio, em m\u00e9dia, ela tem duas semanas livres para ver a fam\u00edlia no Brasil. &#8220;\u00c9 uma carreira que no primeiro ano ou voc\u00ea gosta e fica para sempre ou j\u00e1 sabe que n\u00e3o vai querer continuar. Muita gente entra com a ilus\u00e3o de que vai ser uma aventura, mas n\u00e3o d\u00e1 para romantizar. \u00c9 um compromisso de vida&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>No Afeganist\u00e3o, ela conta que trabalha ao menos 12 horas por dia, inclusive aos fins de semana, e que precisa ficar sempre ligada no celular. Quando falou \u00e0 Folha de S.Paulo, no \u00faltimo dia 20, tinha tido uma semana particularmente estressante porque um dos hospitais apoiados pelo CICV havia atendido os feridos de um ataque a uma escola de meninos em Cabul.<\/p>\n<p>Bueno j\u00e1 foi, ela pr\u00f3pria, v\u00edtima de um atentado no pa\u00eds, em 2013, quando um escrit\u00f3rio da Cruz Vermelha foi invadido em Jalalabad, em um ataque que durou duas horas. Um guarda morreu e houve feridos.<\/p>\n<p>&#8220;O risco existe e sou prova viva disso. Foi traumatizante, nem falo muito sobre isso. Precisei de um tempo para me recuperar&#8221;, diz. &#8220;Temos um esquema de avalia\u00e7\u00e3o de riscos que tem que ser levado muito a s\u00e9rio. No momento em que a pessoa relaxa em pequenas coisas, a seguran\u00e7a pode ficar comprometida.&#8221;<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m se policia para n\u00e3o perder a empatia diante das viol\u00eancias que presencia. &#8220;No momento em que a gente come\u00e7a a normalizar os absurdos que a guerra cria, para de atender \u00e0s demandas da popula\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea tem que se manter forte na hora da crise, mas voc\u00ea n\u00e3o pode perder a humanidade. Isso \u00e9 um exerc\u00edcio que toma anos.&#8221;<\/p>\n<p>Para Bueno, um dos aspectos mais interessantes de sua atua\u00e7\u00e3o \u00e9 conhecer cada pa\u00eds onde trabalha a fundo. &#8220;A gente n\u00e3o \u00e9 um visitante, vira parte do sistema. Isso permite conhecer o pa\u00eds com suas nuances regionais e culturais, de uma forma que um turista jamais consegue. \u00c9 fascinante.&#8221;<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Mundo<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/mundo\/1905235\/enfermeira-brasileira-coordena-33-hospitais-no-afeganistao-e-negocia-com-talibas?utm_source=rss-mundo&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(FOLHAPRESS) &#8211; Da outra vez em que participou de uma miss\u00e3o humanit\u00e1ria no Afeganist\u00e3o, em<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":69213,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-69212","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69212","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69212"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69212\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69213"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69212"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69212"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69212"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}