{"id":67998,"date":"2022-04-21T10:08:37","date_gmt":"2022-04-21T13:08:37","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/04\/21\/terra-de-sebastiao-salgado-faz-25-anos-e-personagens-de-livro-ainda-esperam-lote\/"},"modified":"2022-04-21T10:08:37","modified_gmt":"2022-04-21T13:08:37","slug":"terra-de-sebastiao-salgado-faz-25-anos-e-personagens-de-livro-ainda-esperam-lote","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/04\/21\/terra-de-sebastiao-salgado-faz-25-anos-e-personagens-de-livro-ainda-esperam-lote\/","title":{"rendered":"&#8216;Terra&#8217; de Sebasti\u00e3o Salgado faz 25 anos, e personagens de livro ainda esperam lote"},"content":{"rendered":"<p>(FOLHAPRESS) &#8211; \u200bEm 17 de abril de 1996, milhares de trabalhadores sob a bandeira do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) entraram na fazenda Giacomet-Marodin, no interior do Paran\u00e1, com 83 mil hectares, uma das maiores ocupa\u00e7\u00f5es na hist\u00f3ria do movimento, com o fot\u00f3grafo Sebasti\u00e3o Salgado como testemunha.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>A cerca de 2.700 km dali, no mesmo dia, em uma curva de Eldorado do Caraj\u00e1s, no Par\u00e1, outros sem-terra, que seguiam at\u00e9 Bel\u00e9m, foram atacados pela Pol\u00edcia Militar em uma a\u00e7\u00e3o para desbloquear a rodovia PA-150. A a\u00e7\u00e3o deixou 19 sem-terra mortos.<\/p>\n<p>Salgado recebeu a not\u00edcia ainda no Paran\u00e1 e viajou em um avi\u00e3o alugado para o sudeste do Par\u00e1 no dia seguinte. Em meio ao sepultamento coletivo das v\u00edtimas, ele fotografou Luiza Alves sentada em uma cadeira, rodeada por pessoas, chorando a morte do filho Oziel, 17, a v\u00edtima mais jovem.<\/p>\n<p>Meses antes do massacre, ela, o marido e os outros filhos tinham embarcado para Confresa (MT) porque Luiza queria ficar perto da m\u00e3e. Deixaram no Par\u00e1 dois filhos: Oziel, que sonhava com um peda\u00e7o de terra que desse sossego aos pais, e Ant\u00f4nio, mais velho que o irm\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Tem muita coisa que n\u00e3o lembro mais, n\u00e3o. Da hora que eu vi ele, eu n\u00e3o dei conta de nada mais, fiquei por conta dos outros, sabe? N\u00e3o posso olhar para [a foto], que \u00e9 uma lembran\u00e7a muito triste. Olho e fico mal&#8221;, diz Luiza hoje, aos 71, emocionada.<\/p>\n<p>&#8220;Eu reconheci ele um pouco pela testinha, o cabelo. O rosto estava diferente. S\u00f3 reconheci da testa para tr\u00e1s. Era ele mesmo.&#8221;<\/p>\n<p>Os momentos daquele abril, \u00e9poca de mobiliza\u00e7\u00e3o forte do MST pelo pa\u00eds, s\u00e3o alguns dos registros feitos durante cerca de dois anos em que Salgado acompanhou o movimento, reunidos no livro &#8220;Terra&#8221; (Companhia das Letras), h\u00e1 25 anos.<\/p>\n<p>A ideia surgiu quando o fot\u00f3grafo acompanhava o deslocamento de popula\u00e7\u00f5es pelo mundo e entrou em contato com o MST para entender o abandono do campo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s cidades no Brasil, que mudava o desenho do pa\u00eds.<\/p>\n<p>As imagens de &#8220;Terra&#8221;, desde a vida comum nos acampamentos \u00e0 dor da viol\u00eancia, viajaram o mundo com 2.000 kits de exposi\u00e7\u00e3o impressos, lan\u00e7amento em cidades como S\u00e3o Paulo, Rio e Lisboa, ajudaram na compra da sede do movimento na capital paulista e com o terreno da Escola Florestan Fernandes, em Guararema (SP).<\/p>\n<p>O projeto, com pref\u00e1cio do portugu\u00eas Jos\u00e9 Saramago e m\u00fasicas de Chico Buarque, teve ainda uma quarta autoria, lembra Salgado, sua esposa L\u00e9lia Wanick Salgado.<\/p>\n<p>&#8220;O livro \u00e9 um manifesto pol\u00edtico feito por quatro autores. A gente s\u00f3 fala das minhas fotografias, do Saramago e do Chico, mas a L\u00e9lia que concebeu o livro, imaginou pela primeira vez na hist\u00f3ria da fotografia uma exposi\u00e7\u00e3o tirada em 2.000 exemplares&#8221;, diz ele.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Pedro Stedile, 68, da dire\u00e7\u00e3o nacional do MST, participou do lan\u00e7amento da obra e diz que chegou a acompanhar Salgado em alguns momentos, mas que o movimento n\u00e3o tinha dimens\u00e3o do que seria o trabalho.<\/p>\n<p>O contexto, diz, era um Brasil em crise econ\u00f4mica e social, com grande contingente de sem-terra pelo pa\u00eds, e ao mesmo tempo, com repress\u00e3o aos movimentos.<\/p>\n<p>&#8220;O livro, as fotos em cartazes, os eventos, contribui\u0301ram para a difusa\u0303o da luta do MST e tambe\u0301m lhe deram uma certa protec\u0327a\u0303o de apoio da opinia\u0303o pu\u0301blica. A ni\u0301vel nacional, a opinia\u0303o pu\u0301blica brasileira, e em especial a grande imprensa, se deu conta de que o MST era um movimento justo e necessa\u0301rio para combater o atraso das forc\u0327as produtivas no campo, gerar emprego e futuro para milho\u0303es de brasileiros olvidados&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Entre as fotografias mais conhecidas est\u00e3o dois retratos de meninas sem-terra, que viviam em acampamentos com as fam\u00edlias, em busca de terra.<\/p>\n<p>Uma delas, Joceli, ent\u00e3o aos cinco anos, com olhos claros que encaram a c\u00e2mera, Salgado encontrou no Paran\u00e1. Hoje, ela vive em um pr\u00e9-assentamento na mesma regi\u00e3o, ainda \u00e0 espera do pr\u00f3prio lote e prefere n\u00e3o dar entrevistas.<\/p>\n<p>O local onde vive \u00e9 uma das 70 comunidades do MST no estado, que lutam pela regulariza\u00e7\u00e3o e formaliza\u00e7\u00e3o das terras, segundo o movimento. H\u00e1 acampamentos no Paran\u00e1 onde as fam\u00edlias esperam h\u00e1 mais de 20 anos por um peda\u00e7o de terra.<\/p>\n<p>A outra menina, Nete Alves Silva, tamb\u00e9m de olhar marcante, t\u00edmida pela falta de costume com a c\u00e2mera, posou para ele em uma escola em Barra da On\u00e7a, Po\u00e7o Redondo, no sert\u00e3o de Sergipe.<\/p>\n<p>Hoje, aos 34, Nete est\u00e1 assentada na regi\u00e3o com o marido e o filho David Walter, de nove meses.<\/p>\n<p>A foto, que ela tem em um quadro em casa, foi usada ainda na Campanha da Fraternidade, da CNBB (Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil), em 1998.<\/p>\n<p>&#8220;Eu lembro que a situa\u00e7\u00e3o era dif\u00edcil, a gente comia a merenda da escola, porque n\u00e3o tinha comida em casa&#8221;, lembra.<\/p>\n<p>&#8220;Daquela \u00e9poca para hoje, l\u00e1 tinha muita fome, hoje o governo d\u00e1 uma ajuda de R$ 400, estou sobrevivendo com esse dinheiro, porque a gente n\u00e3o tem trabalho. Depois dessa pandemia parece que piorou foi tudo.&#8221;<\/p>\n<p>Um quarto de s\u00e9culo depois, passados tr\u00eas governos do PT, Salgado avalia que o MST deveria ter sido compreendido como pol\u00edtica nacional de reten\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o no campo e que o grande erro hist\u00f3rico petista foi n\u00e3o ter realizado a reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>&#8220;O projeto da agricultura brasileira acabou sendo o agroneg\u00f3cio, que \u00e9 a expuls\u00e3o de m\u00e3o de obra, agricultura em grande escala mecanizada, envenenada. Todo mundo hoje se vangloria de ter um pa\u00eds que tem uma grande agricultura, mas isso teve um custo social brutal, de expuls\u00e3o de uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira, que poderia ter ficado no campo, vivido de outra forma, e hoje \u00e9 marginalizada nas cidades&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 imoral o que passou, o que se passa no campo brasileiro hoje. Tudo isso, toda essa pol\u00edtica reacion\u00e1ria do campo, acabou gerando essa monstruosidade que est\u00e1 no poder hoje no Brasil, o Bolsonaro \u00e9 o fruto de tudo isso.&#8221;<\/p>\n<p>O MST \u00e9 frequentemente citado pelo presidente em discursos. Stedile responde dizendo que Jair Bolsonaro (PL) defende ideias fascistas e irrespons\u00e1veis, que incitam uso de armas e viol\u00eancia, sem resolver quest\u00f5es como produ\u00e7\u00e3o de alimentos e emprego.<\/p>\n<p>&#8220;Infelizmente muitas fam\u00edlias est\u00e3o acampadas h\u00e1 muitos anos, sobretudo porque, desde a eclos\u00e3o da crise capitalista em 2014, e depois com o golpe contra a Dilma, o estado brasileiro e os governos existentes abandonaram a reforma agr\u00e1ria e as pol\u00edticas p\u00fablicas de apoio ao modelo da agricultura familiar&#8221;, avalia.<\/p>\n<p>Passados 26 anos desde o massacre de Caraj\u00e1s, Ant\u00f4nio, irm\u00e3o de Oziel, que ficou com ele no Par\u00e1, foi assentado, e diz que d\u00f3i pensar na forma como o irm\u00e3o morreu.<\/p>\n<p>Para Eric Nepomuceno, autor de &#8220;O Massacre: Eldorado dos Caraj\u00e1s: Uma hist\u00f3ria de impunidade&#8221; (Record), o epis\u00f3dio mostra como a Justi\u00e7a brasileira \u00e9 falha, quando se trata de pessoas poderosas.<\/p>\n<p>&#8220;Eu definiria o massacre de Eldorado do Caraj\u00e1s como especialmente simb\u00f3lico. N\u00e3o apenas pelo n\u00famero de v\u00edtimas: \u00e9 que ele foi documentado. Houve testemunhas de fora, n\u00e3o apenas entre os sobreviventes. Ficou o registro da barbaridade n\u00e3o s\u00f3 das for\u00e7as de seguran\u00e7a, mas tamb\u00e9m dos mandantes e da omiss\u00e3o criminosa de um governo estadual. O mais preocupante \u00e9 que a viol\u00eancia contra lideran\u00e7as populares dos sem-terra continua matando gente&#8221;, diz.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda cerca de 28 pessoas que se denominam mutilados de Caraj\u00e1s, feridos que vivem com sequelas e nunca tiveram repara\u00e7\u00e3o, conta Lindomar de Jesus Cunha, o Mazinho, que estava com Oziel no dia do massacre.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos trabalhando para mover uma a\u00e7\u00e3o contra o Estado. \u00c9 uma batalha dif\u00edcil, porque se passaram 26 anos, prova some, papel se acaba e hoje as pessoas precisam provar que estavam no massacre. \u00c0s vezes, a pessoa est\u00e1 na fita, mas como est\u00e1 diferente hoje, a per\u00edcia n\u00e3o quer reconhecer&#8221;, conta ele.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tinha 22 anos, hoje tenho 45. Tenho um peda\u00e7o de bala na perna ainda&#8221;.<\/p>\n<p>No Brasil, desde a divis\u00e3o de terras nas capitanias heredit\u00e1rias, com a chegada dos portugueses, se perpetuou a ideia da terra como t\u00edtulo de nobreza, quando deveria ser usada para trabalho e produ\u00e7\u00e3o, diz Salgado.<\/p>\n<p>&#8220;[Caraj\u00e1s \u00e9] uma lembran\u00e7a marcante, mas vi coisas fabulosas em rela\u00e7\u00e3o ao MST, vi assentamentos em Santa Catarina produzindo erva-mate, assentamentos fant\u00e1sticos, vi pessoas no interior do Paran\u00e1 vivendo felizes, vi escolas r\u00fasticas, escolas prim\u00e1rias para crian\u00e7as, vi funcionar os assentamentos e isso para mim foi uma coisa colossal&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Cultura<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/politica\/1903172\/terra-de-sebastiao-salgado-faz-25-anos-e-personagens-de-livro-ainda-esperam-lote?utm_source=rss-cultura&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(FOLHAPRESS) &#8211; \u200bEm 17 de abril de 1996, milhares de trabalhadores sob a bandeira do<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":67999,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-67998","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67998","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=67998"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67998\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/67999"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=67998"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=67998"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=67998"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}