{"id":60827,"date":"2022-03-12T17:08:39","date_gmt":"2022-03-12T20:08:39","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/03\/12\/guerra-na-ucrania-coloca-era-putin-na-russia-em-encruzilhada\/"},"modified":"2022-03-12T17:08:39","modified_gmt":"2022-03-12T20:08:39","slug":"guerra-na-ucrania-coloca-era-putin-na-russia-em-encruzilhada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/03\/12\/guerra-na-ucrania-coloca-era-putin-na-russia-em-encruzilhada\/","title":{"rendered":"Guerra na Ucr\u00e2nia coloca era Putin na R\u00fassia em encruzilhada"},"content":{"rendered":"<p>IGOR GIELOW<br \/>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; A guerra de Vladimir Putin na Ucr\u00e2nia colocou o reinado do czar do s\u00e9culo 21 em uma encruzilhada de op\u00e7\u00f5es radicalmente divergentes, com poucos caminhos intermedi\u00e1rios que pare\u00e7am garantir a volta da R\u00fassia \u00e0 relativa normalidade de antes do in\u00edcio da invas\u00e3o, em 24 de fevereiro.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Putin, como coloca Sam Greene, diretor do Instituto da R\u00fassia do King&#8217;s College de Londres, luta n\u00e3o s\u00f3 uma, mas v\u00e1rias guerras. E o resultado daquela militar ser\u00e1 determinante para o das subjacentes, contra as elites russas, na opini\u00e3o p\u00fablica em geral e entre os poucos aliados que lhe restam.<\/p>\n<p>De forma mais ampla, a pr\u00f3pria natureza do regime que ele come\u00e7ou a montar em 9 de agosto de 1999, quando assumiu o cargo de primeiro-ministro, est\u00e1 na balan\u00e7a. Putin costuma ser pintado no Ocidente como um ditador. H\u00e1 nuances sobre isso, mas que est\u00e3o se perdendo com a dura repress\u00e3o \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o consentida e \u00e0 m\u00eddia nos dois \u00faltimos anos, que s\u00f3 fizeram exacerbar com a guerra.<\/p>\n<p>O s\u00edmbolo m\u00e1ximo do processo \u00e9 a pris\u00e3o de Alexei Navalni, blogueiro que organizou atos gigantes contra o Kremlin e acabou primeiro envenenado, depois detido. Hoje, aguarda julgamento que pode deix\u00e1-lo 15 anos preso, embora continue sendo visto como um &#8220;outsider&#8221; pelo russo m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Outros sinais abundam, como a transforma\u00e7\u00e3o de meios de comunica\u00e7\u00e3o ou ONGs cr\u00edticos em &#8220;agente estrangeiro&#8221;, pelo recebimento de apoio do exterior, sendo assim submetidos a um regime tribut\u00e1rio draconiano. O passo seguinte foi rotular os mesmos advers\u00e1rios como extremistas, fechando-os.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda assim, o pa\u00eds n\u00e3o era uma ditadura completa&#8221;, diz Mikhail, cientista pol\u00edtico moscovita que se exilou nesta semana em Riga, na Let\u00f4nia, e pede para n\u00e3o ter o sobrenome divulgado. &#8220;Havia a vida do povo, a da classe m\u00e9dia e a das elites, que mantinham uma fantasia de liberdade vigiada enquanto seu dinheiro e propriedades estavam seguros no Ocidente.&#8221;<\/p>\n<p>Isso dito, havia um resqu\u00edcio de imprensa livre, bem menor do que nos talvez 15 primeiros anos de poder de Putin. A anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia e a guerra civil na Ucr\u00e2nia, em 2014, colocaram em marcha a mudan\u00e7a que agora explode com a invas\u00e3o. &#8220;Pela primeira vez estou com medo de escrever o que penso aqui&#8221;, disse a professora de ingl\u00eas Irina, nome fict\u00edcio, de Khabarovsk, cidade no extremo oriente russo.<br \/>O &#8220;aqui&#8221; era o aplicativo de mensagens Telegram. &#8220;Todo mundo passou a se sentir vigiado&#8221;, conta ela, para ent\u00e3o falar dos boatos que correm acerca da sanidade mental e f\u00edsica de Putin na crise.<\/p>\n<p>Ela ent\u00e3o cita a lei que permite puni\u00e7\u00f5es como at\u00e9 15 anos de pris\u00e3o a quem falar mal da guerra ou mesmo cham\u00e1-la dessa forma. Ningu\u00e9m sabe o alcance da legisla\u00e7\u00e3o ou se ela n\u00e3o passar\u00e1 de um espantalho, mas o efeito tem sido razo\u00e1vel at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>Um rep\u00f3rter de um dos ve\u00edculos de imprensa ocidentais que suspenderam opera\u00e7\u00f5es na R\u00fassia devido \u00e0 lei contou que, no dia seguinte \u00e0 san\u00e7\u00e3o das regras, dois policiais apareceram \u00e0 sua porta e o acompanharam ao trabalho. Segundo ele, disseram que era &#8220;para sua seguran\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>Mas essa eros\u00e3o n\u00e3o parece ser definitiva para os planos de Putin, como a aus\u00eancia expressiva de povo na rua devido ao medo de pris\u00e3o prova. E tamb\u00e9m a efic\u00e1cia de sua propaganda: segundo tr\u00eas institutos de pesquisa, estatais, diga-se, cerca de 60% dos russos aprovam a invas\u00e3o. O caldo engrossa na guerra com a elite. Putin ascendeu de uma classe chamada &#8220;siloviki&#8221;, os &#8220;dur\u00f5es&#8221;, gente egressa da KGB e dos servi\u00e7os de seguran\u00e7a. O presidente foi chefe do principal deles, o FSB, antes de chegar ao poder no pa\u00eds.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de seu mandato, em 2000, Putin era ref\u00e9m do status quo da era Boris Ieltsin, o mercurial presidente do p\u00f3s-Guerra Fria, e da balb\u00fardia social do pa\u00eds. Oligarcas, nome dado a empres\u00e1rios monopolistas que antes ocupavam cargos na hierarquia comunista ou cresceram como empreendedores de um Estado mafioso, davam as cartas.<\/p>\n<p>Putin foi atr\u00e1s deles. O dono de TV Vladimir Gusinski perdeu seus canais e teve de fugir, Boris Berezovski acabou enforcado de forma suspeita no Reino Unido, Mikhail Khodorkovski perdeu sua petroleira, passou dez anos na cadeia e hoje mora em Londres. Nenhum era santo, o que facilitou o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>E uma nova classe de oligarcas emergiu, boa parte dela &#8220;siloviki&#8221; como Putin. Como os czares, ele distribuiu o comando de setores da economia, crescentemente controlada pelo Kremlin, quando n\u00e3o presid\u00eancias de estatais como a Rosneft (a Petrobras russa), chefiada pelo linha-dura Igor Setchin.<\/p>\n<p>S\u00e3o essas pessoas que agora enfrentam as san\u00e7\u00f5es aplicadas pelo Ocidente. Os russos comuns evidentemente as sentem, mas est\u00e3o tolhidos. Greene, Mikhail e outros analistas tendem a concordar que no momento as elites est\u00e3o amarradas a Putin, e o presidente busca subjug\u00e1-las.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, nesses 22 anos de poder, o presidente jogou um jogo em que a cess\u00e3o da economia a elas lhe garantia apoio pol\u00edtico, que curiosamente precisava sempre da p\u00e1tina de popularidade.<\/p>\n<p>Com a guerra, isso acabou. Alguns oligarcas se manifestaram contra o conflito, e o Kremlin opera para edulcorar o relato da trag\u00e9dia. Ainda assim, h\u00e1 espasmos intrigantes. Na edi\u00e7\u00e3o de quarta (9) do &#8220;Noite com Vladimir Soloviev&#8221;, um dos mais populares programas da TV estatal R\u00fassia 1, tudo parecia familiar. O anfitri\u00e3o enalteceu a guerra e instou os convidados, todos Kremlin de carteirinha, a se manifestarem.<\/p>\n<p>At\u00e9 que dois nomes usuais, o cineasta Karen Chakhnazarov e o acad\u00eamico Semion Bagdasarov, resolveram questionar a &#8220;opera\u00e7\u00e3o militar especial&#8221;, como Putin quer que a guerra seja chamada. O primeiro disse que n\u00e3o conseguia imaginar Kiev sendo conquistada militarmente; o segundo falou um palavr\u00e3o: &#8220;Isso \u00e9 pior que o Afeganist\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o de dez anos da na\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica (1979-89) terminou em trauma nacional e ajudou a encerrar a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em 1991. Soloviev, um apresentador t\u00e3o chapa-branca que teve sua &#8220;villa&#8221; na It\u00e1lia e outros bens congelados pelas san\u00e7\u00f5es contra a guerra, interveio e tocou a discuss\u00e3o \u00e0 frente.<\/p>\n<p>O programa era ao vivo, o que levou \u00e0 d\u00favida se aquilo era uma transgress\u00e3o real de propagandistas de Putin ou se foi algo combinado previamente, para manter algo que sempre existiu: a ilus\u00e3o de que o dissenso \u00e9 permitido com limites a quem circunda o poder.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, essa elite tinha uma interdepend\u00eancia com Putin e tirava sua for\u00e7a das liga\u00e7\u00f5es com o Ocidente, ora cortadas. Diz Greene que ela agora est\u00e1 \u00e0 beira de virar &#8220;assalariada e dispens\u00e1vel&#8221; pelo l\u00edder, que tender\u00e1 a crescer seu jugo autorit\u00e1rio na hip\u00f3tese de uma vit\u00f3ria militar aceit\u00e1vel na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Chakhnazarov questionou isso, dizendo que aliados como a China e a \u00cdndia n\u00e3o ir\u00e3o tolerar o banho de sangue. Isso para n\u00e3o falar em amigos mais fracos, membros da Uni\u00e3o Econ\u00f4mica Eurasiana (Belarus, Arm\u00eania, Cazaquist\u00e3o e Quirguist\u00e3o), que tiveram uma deprecia\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de 15% em suas moedas com a guerra. Entre eles, Putin aposta no trabalho de apoio condicional aos governos: todos enfrentaram convuls\u00f5es ou guerras desde 2020, um prato cheio para te\u00f3ricos da conspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como a resist\u00eancia ucraniana \u00e9 dura, mas parece insuficiente para derrotar a m\u00e1quina de Putin, o desenho ap\u00f3s uma eventual vit\u00f3ria \u00e9 que importar\u00e1: ocupa\u00e7\u00e3o total ou parcial, fatiamento da Ucr\u00e2nia ou uma acomoda\u00e7\u00e3o que permita a todos cantar vit\u00f3ria, mas ao Kremlin obter o objetivo de tirar Kiev do Ocidente.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o da derrota, por sua vez, n\u00e3o deve gerar nada menos do que a implos\u00e3o do acordo social da era Putin, custando assim sua cadeira ou coisa pior. Nomes para suced\u00ea-lo s\u00e3o murmurados, desde o tecnocr\u00e1tico premi\u00ea Mikhail Michustin ao poderoso ministro Serguei Choigu (Defesa), para n\u00e3o falar em Setchin. Entre algum caos e uma ditadura eventual caminham os russos, meros 30 anos ap\u00f3s deixarem a sombra da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Poder\u00e1 haver alternativas, mas elas parecem insond\u00e1veis agora.<\/p>\n<p>Indicadores de democracia na R\u00fassia<\/p>\n<p>Liberdade de imprensa<br \/>150\u00ba entre 180 pa\u00edses; Brasil \u00e9 o 111\u00ba<br \/>World Press Freedom, Rep\u00f3rteres Sem Fronteiras (2020)<\/p>\n<p>Democracia<br \/>124\u00ba entre 167 pa\u00edses; Brasil \u00e9 o 47\u00ba<br \/>Democracy Index, revista The Economist (2021)<\/p>\n<p>Percep\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o<br \/>136\u00ba entre 180 pa\u00edses; Brasil \u00e9 o 96\u00ba<br \/>Transpar\u00eancia Internacional (2021)<\/p>\n<p>Liberdade econ\u00f4mica<br \/>113\u00ba entre 177 pa\u00edses; Brasil \u00e9 o 133\u00ba<br \/>Economic Freedom, Heritage Foundation com The Wall Street Journal (2022)<\/p>\n<p>Liberdade<br \/>19 pontos de 100 poss\u00edveis, categoria &#8216;n\u00e3o livre&#8217;; Brasil marca 73<br \/>Global Freedom, Freedom House (2021)<\/p>\n<p>Liberdade na internet<br \/>30 pontos de 100 poss\u00edveis, categoria &#8216;n\u00e3o livre&#8217;; Brasil marca 64<br \/>Internet Freedom, Freedom House (2021)<\/p>\n<p>Democracia eleitoral<br \/>139\u00ba entre 179 pa\u00edses; Brasil \u00e9 o 59\u00ba<br \/>V-DEM Institute (2021)<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Mundo<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/mundo\/1892164\/guerra-na-ucrania-coloca-era-putin-na-russia-em-encruzilhada?utm_source=rss-mundo&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IGOR GIELOWS\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; A guerra de Vladimir Putin na Ucr\u00e2nia colocou o<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":60828,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-60827","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60827","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60827"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60827\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60827"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60827"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60827"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}