{"id":5988,"date":"2021-04-15T08:09:41","date_gmt":"2021-04-15T11:09:41","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/04\/15\/de-fleabag-a-euphoria-heroinas-de-series-de-sucesso-se-odeiam-mais-do-que-nunca\/"},"modified":"2021-04-15T08:09:41","modified_gmt":"2021-04-15T11:09:41","slug":"de-fleabag-a-euphoria-heroinas-de-series-de-sucesso-se-odeiam-mais-do-que-nunca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/04\/15\/de-fleabag-a-euphoria-heroinas-de-series-de-sucesso-se-odeiam-mais-do-que-nunca\/","title":{"rendered":"De &#8216;Fleabag&#8217; a &#8216;Euphoria&#8217;, hero\u00ednas de s\u00e9ries de sucesso se odeiam mais do que nunca"},"content":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Pode parecer um del\u00edrio, ou ao menos uma insensatez, se envolver amorosamente com um padre, passar um ano desacordada \u00e0 base de rem\u00e9dios prescritos por uma psic\u00f3loga de conduta bastante duvidosa ou manter um namoro de faculdade com um cara que s\u00f3 maltrata voc\u00ea.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Uma nova gera\u00e7\u00e3o de protagonistas que aparecem nas telas e em romances de 2016 para c\u00e1, no entanto, vivem trajet\u00f3rias em que essas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o centrais -e que o autodesprezo e a autodestrui\u00e7\u00e3o s\u00e3o frequentes.<\/p>\n<p>A lista de s\u00e9ries e livros dos \u00faltimos cinco anos com essas quase anti-hero\u00ednas \u00e9 extensa e leva tamb\u00e9m nomes de produ\u00e7\u00f5es que s\u00e3o das mais aclamadas de nosso tempo.<\/p>\n<p>Enquanto em &#8220;Fleabag&#8221; e em &#8220;Meu Ano de Descanso e Relaxamento&#8221; as personagens adentram um humor autodepreciativo ou n\u00e3o t\u00eam l\u00e1 muito motivo para seguir num trajeto que n\u00e3o seja a autodestrui\u00e7\u00e3o, as estrelas de &#8220;Euphoria&#8221; e de &#8220;O Gambito da Rainha&#8221; boicotam suas vidas, cada uma \u00e0 sua maneira, a partir da depend\u00eancia de drogas, \u00e1lcool e rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>J\u00e1 em &#8220;I May Destroy You&#8221;, Arabella convive com o trauma de um estupro num drama bem distante do humor da tamb\u00e9m brit\u00e2nica &#8220;Fleabag&#8221;, e Marianne passa a juventude atravessada pela rela\u00e7\u00e3o conturbada com a fam\u00edlia, principalmente com o seu irm\u00e3o, em &#8220;Normal People&#8221;.<\/p>\n<p>A escritora americana Lucinda Rosenfeld defende, numa coluna no New York Times, que o \u00f3dio \u00e0 pr\u00f3pria vida \u00e9 t\u00e3o intenso nessas personagens de romances como o de Sally Rooney e de Ottessa Moshfegh que as hist\u00f3ricas Anna Karenina e Emma Bovary ganharam fortes competidoras.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m sustenta que, enquanto as cria\u00e7\u00f5es de Flaubert e Tolst\u00f3i parecem prisioneiras numa sociedade patriarcal, est\u00e1 muito menos claro o porqu\u00ea desse descontentamento com o corpo e a vida numa gera\u00e7\u00e3o com mais liberdade social e sexual. Mas ser\u00e1 que \u00e9 s\u00f3 de autodestrui\u00e7\u00e3o que se trata essa leva recente de personagens?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o que pensa a psiquiatra e escritora Natalia Timerman sobre a patricinha que dorme durante um ano para superar a depress\u00e3o -vale lembrar que a atriz Margot Robbie \u00e9 cotada para dar vida \u00e0 personagem no cinema.<\/p>\n<p>&#8220;Ela aparentemente \u00e9 algu\u00e9m que se destr\u00f3i, que quer dormir e n\u00e3o tem plano algum, nenhuma profundidade&#8221;, diz Timerman. &#8220;Mas se a gente olha com mais aten\u00e7\u00e3o, essa mulher bonita, com tudo, que tem uma vida em que n\u00e3o falta nada, tem uma quest\u00e3o do nosso tempo que \u00e9 a falta de falta. A sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o falta nada \u00e9, em si, uma falta.&#8221;<\/p>\n<p>A psiquiatra v\u00ea na trajet\u00f3ria dessa \u00f3rf\u00e3 de pais ricos uma s\u00e9rie de paradoxos e uma discuss\u00e3o profunda sobre a apar\u00eancia. Ela se destr\u00f3i, por exemplo, com rem\u00e9dios, tidos como algo que s\u00e3o, na verdade, para o cuidado. Depois da s\u00e9rie de p\u00edlulas para evitar qualquer sentimento, de irrita\u00e7\u00e3o \u00e0 solid\u00e3o, ela tamb\u00e9m v\u00ea filmes para tentar sentir tristeza.<\/p>\n<p>Sobre essa nova onda de hero\u00ednas autodestrutivas, a professora de cinema na Funda\u00e7\u00e3o Armando \u00c1lvares Penteado, a Faap, Luciana Rodrigues relembra um dado b\u00e1sico -n\u00e3o existe personagem equilibrada na dramaturgia.<\/p>\n<p>&#8220;Se ele est\u00e1 em equil\u00edbrio, n\u00e3o serve como personagem&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O que essas personagens podem trazer para as telas, na verdade, \u00e9 uma trisimensionalidade e uma reivindica\u00e7\u00e3o de se fazer o que bem entender com as dores existenciais, sejam elas decorrentes de traumas ou de futilidades, algo que j\u00e1 aparece nos anti-her\u00f3is masculinos.<\/p>\n<p>&#8220;O que estamos vendo \u00e9 que todo grupo minimizado \u00e9 visto como representa\u00e7\u00e3o desse grupo. S\u00f3 o homem branco e cisg\u00eanero \u00e9 representa\u00e7\u00e3o dele pr\u00f3prio e n\u00e3o tem compromisso com nada. Historicamente, vemos homens ferrados, machistas, ego\u00edstas e exploradores que geram empatia.&#8221;<\/p>\n<p>Antes dessas produ\u00e7\u00f5es mais recentes, Rodrigues lembra um t\u00edtulo que marcou os anos 2000, &#8220;Sex and the City&#8221;, que ter\u00e1 novos epis\u00f3dios ainda neste ano. Samantha, por exemplo, era um grande s\u00edmbolo de sexualidade. Mas, mesmo que tamb\u00e9m estivessem buscando seu lugar no mundo e apoiassem umas \u00e0s outras, namorar e casar s\u00e3o quase v\u00edcios para esse quarteto -que assume uma s\u00e9rie de comportamentos abusivos, inclusive.<\/p>\n<p>Clarice Greco, doutora em comunica\u00e7\u00e3o pela Universidade de S\u00e3o Paulo e pesquisadora de s\u00e9ries, atribui essa explos\u00e3o de protagonistas femininas ao pr\u00f3prio crescimento da produ\u00e7\u00e3o de seriados -um levantamento da FX mostra que, em 2019, 532 s\u00e9ries foram ao ar nos Estados Unidos, um n\u00famero 52% maior do que em 2013, por exemplo.<\/p>\n<p>No final do \u00faltimo s\u00e9culo, ela avalia que as mulheres aparecem com mais frequ\u00eancia em com\u00e9dias mais familiares, ainda sem muita profundidade. \u00c9 nos anos 2000 que surgem as obras com protagonistas mais complexas, como em &#8220;Grey&#8217;s Anatomy&#8221;, &#8220;Gilmore Girls&#8221; e &#8220;Sex and the City&#8221;.<\/p>\n<p>Essa virada para uma carga mais forte psicol\u00f3gica, segundo a pesquisadora, acontece s\u00f3 no fim da \u00faltima d\u00e9cada -e pode estar relacionada \u00e0 for\u00e7a que a discuss\u00e3o sobre sa\u00fade mental ganhou.<\/p>\n<p>No paralelo que a escritora americana Lucinda Rosenfeld faz dos romances contempor\u00e2neos com Anna Karenina e Emma Bovary n\u00e3o aparecem duas diferen\u00e7as. A primeira \u00e9 que, no s\u00e9culo 21, ningu\u00e9m morre no final, pelo menos n\u00e3o at\u00e9 agora. A segunda s\u00e3o os pr\u00f3prios est\u00edmulos para criar os romances.<\/p>\n<p>&#8220;Quando Tolst\u00f3i come\u00e7ou a escrever, sua ideia era escrever um romance sobre a trai\u00e7\u00e3o e sobre como a trai\u00e7\u00e3o destr\u00f3i a fam\u00edlia. Para ele, foi importante escrever um romance familiar&#8221;, diz Elena V\u00e1ssina, especialista em literatura russa e professora da USP. &#8220;Flaubert foi uma hist\u00f3ria do adult\u00e9rio, da Emma, que fica envolta contra esse casamento ser amor, contra a vida entediante. Tolst\u00f3i queria o contr\u00e1rio -defender os valores familiares.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1, no entanto, um aspecto ressaltado pela pesquisadora que aproxima todas essas personagens. Ela v\u00ea nesse processo autodestrutivo de Anna Karenina uma puls\u00e3o intensa de vida. &#8220;Ela mostra, para n\u00f3s, como a vida \u00e9 multifacetada&#8221;, diz V\u00e1ssina.<\/p>\n<p>\u00c9 essa ambival\u00eancia que Natalia Timerman enxerga em &#8220;Fleabag&#8221;, por exemplo -dados autobiogr\u00e1ficos, assim como na hist\u00f3ria de Phoebe Waller-Bridge, est\u00e3o num recente romance ficcional da psiquiatra, &#8220;Copo Vazio&#8221;, em que a protagonista sofre com ghosting.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 quase como se fosse a jun\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de vida e de morte. \u00c9 um descompasso entre o desejo e o poss\u00edvel, entre o que ela quer e o que a sociedade quer dela. Acho que ecoa a quest\u00e3o de como legitimar o pr\u00f3prio desejo. O pr\u00f3prio desejo \u00e9 autodestrutivo mesmo ou \u00e9 a sociedade que o enxerga como autodestrutivo?&#8221;<\/p>\n<p>Luciana Rodrigues, a professora da Faap, lembra que &#8220;I May Destroy You&#8221; tamb\u00e9m t\u00eam tra\u00e7os da pr\u00f3pria biografia da brit\u00e2nica Michaela Coel e que essas s\u00e9ries est\u00e3o na esteira de uma diversidade de roteiristas e diretores no cinema.<\/p>\n<p>&#8220;Em maior ou menor grau, todo autor fala de si. A forma que uma mulher v\u00ea \u00e9 diferente de um homem. A forma que uma mulher negra v\u00ea \u00e9 diferente de uma branca, ou de uma mulher trans&#8221;, ela afirma. &#8220;Quanto mais vis\u00f5es de mundo se tem, maior a riqueza de personagens e maior vai ser a representa\u00e7\u00e3o que se gera.&#8221;<br \/>*<br \/>ANTI-HERO\u00cdNAS DO AUTODESPREZO<\/p>\n<p>Meu Ano de Descanso e Relaxamento<br \/>Uma patricinha, \u00f3rf\u00e3 de pais ricos, decide passar um ano dormindo sob efeito de medicamentos para lidar com uma depress\u00e3o nesse romance de Ottessa Moshfegh<\/p>\n<p>Normal People<br \/>O romance de Sally Rooney, que virou uma s\u00e9rie no ano passado, mostra um caso amoroso entre Marianne Sheridan e Connell Waldron<\/p>\n<p>Fleabag<br \/>Com um humor autodepreciativo, Phoebe Waller-Bridge vive uma protagonista que tenta manter um caf\u00e9 em Londres<\/p>\n<p>O Gambito da Rainha<br \/>Fen\u00f4meno do ano pand\u00eamico, s\u00e9rie da Netflix mostra a hist\u00f3ria de Elizabeth Harmon, uma enxadrista \u00f3rf\u00e3 que \u00e9 tamb\u00e9m viciada em calmantes<\/p>\n<p>Euphoria<br \/>Rue, personagem de Zendaya, \u00e9 uma adolescente dedicada que logo lida com uma depend\u00eancia qu\u00edmicaI May Destroy You<br \/>A escritora e atriz brit\u00e2nica Michaela Coel partiu de uma experi\u00eancia pessoal para criar essa s\u00e9rie cuja protagonista, Arabella, \u00e9 violentada sexualmente<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Cultura<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1795345\/de-fleabag-a-euphoria-heroinas-de-series-de-sucesso-se-odeiam-mais-do-que-nunca?utm_source=rss-cultura&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Pode parecer um del\u00edrio, ou ao menos uma insensatez, se<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":5989,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-5988","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5988","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5988"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5988\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5989"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5988"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5988"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5988"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}