{"id":59682,"date":"2022-03-06T12:11:41","date_gmt":"2022-03-06T15:11:41","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/03\/06\/racismo-relatado-por-refugiados-e-visto-no-futebol-da-ucrania-ha-anos\/"},"modified":"2022-03-06T12:11:41","modified_gmt":"2022-03-06T15:11:41","slug":"racismo-relatado-por-refugiados-e-visto-no-futebol-da-ucrania-ha-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/03\/06\/racismo-relatado-por-refugiados-e-visto-no-futebol-da-ucrania-ha-anos\/","title":{"rendered":"Racismo relatado por refugiados \u00e9 visto no futebol da Ucr\u00e2nia h\u00e1 anos"},"content":{"rendered":"<p>BRUNO RODRIGUES<br \/>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; A tentativa de fugir da guerra entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia tem produzido relatos como o do estudante nigeriano Alexander Somto Orah, que diz haver racismo contra os negros que buscam deixar o territ\u00f3rio ucraniano.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>&#8220;Nas esta\u00e7\u00f5es de trem de Kiev, crian\u00e7as primeiro, mulheres em segundo lugar, homens brancos em terceiro, depois o restante das vagas \u00e9 ocupado por africanos&#8221;, publicou Alexander em sua conta no Twitter.<\/p>\n<p>Os governos da Nig\u00e9ria e da Jamaica afirmaram ter recebido depoimentos semelhantes de imigrantes que enfrentam dificuldades para conseguir o acesso a trens e cruzar as fronteiras do pa\u00eds. Segundo as v\u00edtimas, elas acabam barradas por for\u00e7as de seguran\u00e7a ou at\u00e9 mesmo por civis ucranianos.<\/p>\n<p>O futebol da Ucr\u00e2nia, que assistiu nos \u00faltimos anos a um crescimento na presen\u00e7a de integrantes da extrema-direita em torcidas organizadas, ajuda a explicar o que tem ocorrido com os cidad\u00e3os negros durante o conflito. N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno novo, mas \u00e9 algo que se intensificou consideravelmente.<\/p>\n<p>Franklin Foer, em seu livro &#8220;Como o Futebol Explica o Mundo&#8221; (Zahar, 2004), j\u00e1 relatava um cen\u00e1rio hostil aos imigrantes africanos a partir da hist\u00f3ria de Edward Anyamkyegh, um nigeriano que chegou ao pa\u00eds em 2001 para jogar pelo Karpaty Lviv. Um ano ap\u00f3s sua chegada, o clube contratou outro nigeriano, Samson Godwin.<\/p>\n<p>Fazia uma d\u00e9cada que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica havia se desintegrado. A Ucr\u00e2nia, na esteira da globaliza\u00e7\u00e3o acelerada, come\u00e7ava a abrir o seu mercado para os estrangeiros, incluindo os africanos, cujos principais nomes figuravam nas principais ligas europeias.<\/p>\n<p>Existia dentro do Karpaty, por\u00e9m, uma resist\u00eancia \u00e0 dupla de nigerianos. Yuri Benyo, ucraniano e capit\u00e3o da equipe, disse em entrevista a Foer que considerava os dois arrogantes e indiferentes. &#8220;Pelo pre\u00e7o de Edward, poder\u00edamos ter criado dez jogadores ucranianos.&#8221;<\/p>\n<p>Cosmopolita no passado, Lviv, onde nasceu Yuri, orgulhava-se de suas universidades e de seu pluralismo. Era forte a presen\u00e7a de russos, alem\u00e3es e poloneses -muitos deles judeus- nos caf\u00e9s e casas de \u00f3pera da cidade. Entretanto, com a proximidade da Segunda Guerra e o eco dos discursos nacionalistas ressoando por toda a Europa, Lviv passou por uma transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Muitos ucranianos achavam estranho que seu povo tivesse ganhado t\u00e3o pouco no per\u00edodo \u00e1ureo da cidade. Come\u00e7aram a nutrir profundos ressentimentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a de tantos intrusos. Durante a Segunda Guerra, aproveitaram a oportunidade para reverter esse quadro. Muitos ucranianos da cidade atuaram com os alem\u00e3es na elimina\u00e7\u00e3o dos judeus -que um dia representaram 30% da popula\u00e7\u00e3o local&#8221;, escreveu o autor norte-americano.<\/p>\n<p>Foer relata em sua obra uma tentativa de di\u00e1logo com dois jornalistas esportivos da cidade. Seu objetivo era tentar entender o porqu\u00ea da resist\u00eancia aos atletas africanos do Karpaty.<\/p>\n<p>Enquanto conversava com eles na esquina do hotel onde estava hospedado, Edward Anyamkyegh passou de t\u00e1xi e, ap\u00f3s baixar o vidro do carro, estendeu a m\u00e3o e cumprimentou Foer. Os dois ucranianos acenaram para o jogador. Quando o carro saiu do campo de vis\u00e3o, um deles riu.<\/p>\n<p>&#8220;Macaco&#8221;, disse o jornalista em ingl\u00eas, acompanhado pelo colega, que replicou com &#8220;bananas&#8221;.<br \/>Ainda assim, Foer defendeu que n\u00e3o havia racismo em Lviv ou no futebol ucraniano.<\/p>\n<p>&#8220;Numa atmosfera de nacionalismo e ressentimento, contudo, n\u00e3o existe racismo de fato. Excetuando-se espor\u00e1dicas e grosseiras explos\u00f5es de \u00f3dio, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 nem perto de ser como na Europa Ocidental. Nos jogos, os torcedores n\u00e3o imitam macacos quando Edward entra em campo ou toca na bola.&#8221;<\/p>\n<p>Se para o autor de &#8220;Como o Futebol Explica o Mundo&#8221; faltavam manifesta\u00e7\u00f5es racistas em est\u00e1dios para que fosse configurado o racismo de fato, j\u00e1 n\u00e3o faltam mais.<\/p>\n<p>Em outubro de 2015, durante um confronto entre D\u00ednamo de Kiev e Chelsea, pela Champions League, na capital ucraniana, um grupo de torcedores do D\u00ednamo irrompeu no setor vizinho e agrediu quatro pessoas negras, que tamb\u00e9m torciam pelo clube da casa.<\/p>\n<p>A Uefa puniu o clube em 100 mil euros. Determinou ainda a realiza\u00e7\u00e3o de dois jogos de port\u00f5es fechados e a obrigatoriedade de estampar no uniforme, at\u00e9 o fim da temporada, a mensagem &#8220;Say no to racism&#8221;.<\/p>\n<p>Novembro de 2019. Em um cl\u00e1ssico entre D\u00ednamo de Kiev e Shakhtar Donetsk, os brasileiros Taison e Dentinho foram v\u00edtimas de racismo em um jogo da liga nacional. Irritado, Taison chutou a bola para a arquibancada e mostrou o dedo do meio para os torcedores. Por isso, acabou expulso.<\/p>\n<p>Casos como esses t\u00eam sido comuns no futebol da Ucr\u00e2nia nos \u00faltimos anos. Em 2017, integrantes da torcida do D\u00ednamo foram a um jogo da equipe com roupas que aludiam \u00e0 Ku Klux Klan e m\u00e1scaras com su\u00e1sticas.<\/p>\n<p>Reportagem publicada pela Folha em 2019 ouviu de Pavel Klymenko, membro da Fare Network, ONG europeia que trabalha no combate ao racismo no futebol do continente, que o aumento de manifesta\u00e7\u00f5es racistas em jogos do D\u00ednamo estava relacionado ao crescimento do movimento de extrema-direita no pa\u00eds, especialmente ap\u00f3s os conflitos com a R\u00fassia em 2014 pelo controle do territ\u00f3rio da Crimeia, anexado pelos russos.<\/p>\n<p>Em 2016, foi fundado na Ucr\u00e2nia o National Corps, partido pol\u00edtico que emergiu de um grupo paramilitar, o Azov, com atua\u00e7\u00e3o no leste ucraniano. L\u00edderes do partido, segundo Klymenko, s\u00e3o tamb\u00e9m lideran\u00e7as dos grupos neonazistas de torcedores do D\u00ednamo.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o podemos fingir que o crescimento da extrema-direita n\u00e3o tem tido reflexo nos est\u00e1dios. Todos os que se somam a esses grupos [de torcedores] se somam tamb\u00e9m aos ideais de extrema-direita. E as coisas podem piorar&#8221;, advertiu o integrante da Fare, dois anos antes da tentativa desesperada de imigrantes negros de deixarem o pa\u00eds para fugir da guerra.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Esporte<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/esporte\/1890135\/racismo-relatado-por-refugiados-e-visto-no-futebol-da-ucrania-ha-anos?utm_source=rss-esporte&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BRUNO RODRIGUESS\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; A tentativa de fugir da guerra entre R\u00fassia e<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":59683,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-59682","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-esportes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59682"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59682\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59683"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}