{"id":5801,"date":"2021-04-14T12:09:09","date_gmt":"2021-04-14T15:09:09","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/04\/14\/poemas-de-charles-simic-dissecam-temores-dos-companheiros-da-solidao\/"},"modified":"2021-04-14T12:09:09","modified_gmt":"2021-04-14T15:09:09","slug":"poemas-de-charles-simic-dissecam-temores-dos-companheiros-da-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/04\/14\/poemas-de-charles-simic-dissecam-temores-dos-companheiros-da-solidao\/","title":{"rendered":"Poemas de Charles Simic dissecam temores dos companheiros da solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>FOLHAPRESS &#8211; A poesia de Charles Simic \u00e9 marcada por ru\u00eddos. Daqueles inc\u00f4modos inconscientes que perturbam a mente conforme a madrugada cai, o imagin\u00e1rio descortina uma legi\u00e3o de monstros e dem\u00f4nios que podem, a qualquer momento, assolar e matar o insone -n\u00e3o h\u00e1 cobertor que salve.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>A partir desse desconforto, constru\u00eddo com figuras de linguagem desconcertantes, podemos classificar alguns dos poemas do escritor Charles Simic na antologia &#8220;O Meu Anjo da Guarda Tem Medo do Escuro&#8221;.<\/p>\n<p>Simic nasceu atormentado, perseguido. Em 1938, com a Iugosl\u00e1via na linha b\u00e9lica do Leste Europeu, o pequeno Charles n\u00e3o via luz no fim do t\u00fanel. Bombardeios nazistas, trucul\u00eancia policial, sua fam\u00edlia foi amea\u00e7ada pela ascend\u00eancia judaica. Seu pai foi pego pela Gestapo e levado aos tribunais. Ele se refugiou nos Estados Unidos, para onde Simic e a m\u00e3e foram tamb\u00e9m mais tarde, com uma r\u00e1pida escala na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Segundo Simic, Hitler e St\u00e1lin foram seus agentes de viagem.<\/p>\n<p>Tendo vivido sob bombardeio constante, a ruidosa atmosfera da guerra deixa ecos para sempre na literatura do escritor. Ele lembra especialmente a inf\u00e2ncia e \u00e9 ela o tema que marca sua poesia, mas uma inf\u00e2ncia em que os brinquedos n\u00e3o eram carrinhos ou bonecas, sim espetos de pau como rifles.<\/p>\n<p>Sempre \u00e0 espreita, o medo, a &#8220;amea\u00e7a iminente&#8221; que o persegue, como aponta o tradutor, \u00e9 tamb\u00e9m um medo folcl\u00f3rico. Talvez esse seja o ponto de converg\u00eancia mais forte entre Simic e os surrealistas \u2013com destaque para as paisagens soturnas de Giorgio De Chirico.<\/p>\n<p>Simic publicou aos 21 seus primeiros poemas na Chicago Review. Hoje, o escritor \u00e9 contribuinte regular de publica\u00e7\u00f5es de prest\u00edgio nos Estados Unidos, como a revista The New Yorker e n\u00e3o s\u00f3 sobre literatura ele escreve.<\/p>\n<p>Laureado com um Pulitzer em 2007, a voz de Simic \u00e9 tamb\u00e9m a voz de um mordaz cr\u00edtico da sociedade ocidental. Tema explorado na poesia de Simic, os sonhos (e pesadelos) guiam o leitor na antologia &#8220;O Meu Anjo da Guarda Tem Medo do Escuro&#8221;, rec\u00e9m-lan\u00e7ado pela editora Todavia. No livro, Simic trafega pelas artimanhas da mem\u00f3ria, e nesse emaranhado de reminisc\u00eancias se destaca o que h\u00e1 de mais ordin\u00e1rio, em mat\u00e9ria de mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Em &#8220;F\u00e1brica&#8221; ele evoca uma comuna de roedores que ficam b\u00edpedes, ao redor de uma gaiola na penumbra. Nesse retrato escurecido, vemos esse ordin\u00e1rio sobressair. &#8220;S\u00f3 uma cadeira de encosto se destacava como um trono.&#8221;<\/p>\n<p>Eles cortejam a armadilha, os ratos, como se confrontassem a pr\u00f3pria possibilidade de viver \u2013e os homens da guerra, com os rifles, tal qual n\u00e3o estariam para essa constru\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Sem barroquismos e elucubra\u00e7\u00f5es, Simic \u00e9 seco e misterioso. Ele constr\u00f3i uma esp\u00e9cie de \u00e1lbum de mem\u00f3rias obscurecido, s\u00e3o essas as reminisc\u00eancias da juventude que o assombram por uma vida. Dem\u00f4nios n\u00e3o domados da viol\u00eancia que atingiu a S\u00e9rvia na inf\u00e2ncia ele n\u00e3o os expurga, mas os p\u00f5e no centro de sua poesia. Tudo \u00e9 turvo, seco, claustrof\u00f3bico, noir.<\/p>\n<p>Dos poemas do livro, &#8220;Meu Pai Conferia Imortalidade aos Gar\u00e7ons&#8221; \u00e9 chamariz para a colet\u00e2nea. Nele, Simic contrap\u00f5e a imagem terrena do gar\u00e7om, esse homem transit\u00f3rio que passa (ou passava, antes da pandemia) diariamente como mais um espectro em nossas vidas. O gar\u00e7om, na poesia de Simic, incorpora o oposto disso, ganha uma aureola que reluz nas vestes limpas e alinhadas, t\u00edpica destes trabalhadores.<\/p>\n<p>&#8220;Com seus palet\u00f3s brancos id\u00eanticos e sorrisos fixos&#8221;, ele descreve o gar\u00e7om. Mas poderia ser o anjo da guarda. Simic, no mesmo poema, fala em palidez, em colarinhos em riste. No imagin\u00e1rio popular, o arqu\u00e9tipo do gar\u00e7om, como do anjo da guarda, segue uma postura protocolar, alva, atenciosa, ass\u00e9ptica.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, em &#8220;Os Dem\u00f4nios&#8221;, ele critica o pedantismo, retrata casais tediosos, rec\u00e9m-chegados num apartamento, em contraponto \u00e0 figura da aranha que faz teia. H\u00e1 o novo, o vi\u00e7o, a expectativa versus o velho, o degradado, a sujeira. Claro, a figura da aranha \u00e9 algo simb\u00f3lico, tanto para a mitologia dos sonhos, quanto para figurar como anfitri\u00e3 de pombinhos em lua de mel. \u00c9 sinistra. Para Simic, o diabo mora nos detalhes. E ele o procura constantemente.<\/p>\n<p>&#8220;Fim de Setembro&#8221;, um dos poemas que abrem o livro, \u00e9 tamb\u00e9m um dos mais complexos, no sentido de desvendar sua constru\u00e7\u00e3o. Repleto de ar, o poema se mostra como um tufo de poeira do tempo jogado pelo vento, como uma bolorenta bola de sebo no velho oeste.<\/p>\n<p>A melancolia atinge o cume nestes versos, t\u00e3o bem representada em &#8220;o caminh\u00e3o do correio desce a costa\/ levando uma \u00fanica carta&#8221;. \u00c9 uma imagem que evoca profunda solid\u00e3o e expectativa, para, na sequencia, dizer &#8220;na noite passada voc\u00ea julgou ter ouvido\/ a televis\u00e3o na casa da vizinha&#8221;. &#8220;Estava seguro que relatavam\/ Algum novo horror e ent\u00e3o\/ Saiu descal\u00e7o para averiguar\/ Usando apenas um short\/ Era s\u00f3 o mar soando exausto\/ Ap\u00f3s muitas vidas\/ Fingindo apressar-se rumo a algum lugar\/ Sem jamais chegar a algum lugar.&#8221;<\/p>\n<p>A mesma solid\u00e3o fica evidente em &#8220;Preocupados An\u00f4nimos&#8221;, poema j\u00e1 no final da seleta, que constr\u00f3i uma imagem definitiva da ang\u00fastia entonada por Simic em toda sua produ\u00e7\u00e3o. &#8220;O modo como o casal de velhinhos enla\u00e7a as m\u00e3os -talvez rec\u00e9m-sa\u00eddos de um elevador\/ Onde ficam presos por horas,\/ Gratos pelo al\u00edvio, antes que uma nova preocupa\u00e7\u00e3o\/ Se aproxime para enfurecer seu dia&#8221;, dizem os versos.<\/p>\n<p>Parte da fortuna cr\u00edtica considera o autor como cria influenciada pelo surrealismo ou simplesmente surrealista. Em seu posf\u00e1cio, Ricardo Rizzo comenta o estilo \u00fanico de Simic. O qu\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil classificar um poeta t\u00e3o singular. Nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960, o surrealismo, com Andr\u00e9 Breton, com o dada\u00edsmo, influenciou uma gera\u00e7\u00e3o de jovens poetas, os beatniks.<\/p>\n<p>Simic passa longe de qualquer enquadramento est\u00e9tico. Ainda est\u00e1 vivo e na ativa. Para vias de compara\u00e7\u00e3o, c\u00e1 no hemisf\u00e9rio sul, o tenebroso verso de Charles Simic pode ser uma vers\u00e3o menos musical do &#8220;Poema das Sete Faces&#8221; de Drummond. &#8220;Quando nasci, um anjo torto\/ Desses que vivem na sombra\/ Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.&#8221;<\/p>\n<p>A poesia de Simic carrega um frisson, tanto pelo desconforto elegido em imagens desbotadas, quanto pelo espectro m\u00edtico que cerca suas figuras, ora diab\u00f3licas, ora acossadas, sempre infantes. Em sua escrita, a penumbra ganha do holofote, a figura feminina, tanto explorada pelo vi\u00e9s da sacralidade nas artes, \u00e9 pag\u00e3. O ca\u00e7ador \u00e9 a ca\u00e7a, e essa l\u00f3gica se inverte num estalar de dedos.<\/p>\n<p>O anjo da guarda n\u00e3o \u00e9 um exemplo de valentia, \u00e9 um anjo torto, escreve Simic. &#8220;Me manda ir na frente, diz que me alcan\u00e7a num instante.&#8221;<\/p>\n<p>MEU ANJO DA GUARDA TEM MEDO DO ESCURO<br \/>Onde R$ 59,90 (112 p\u00e1gs.)<br \/>Autor Charles Simic<br \/>Editora Todavia<br \/>Tradu\u00e7\u00e3o Ricardo Rizzo<br \/>Avalia\u00e7\u00e3o Muito bom<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Cultura<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1794864\/poemas-de-charles-simic-dissecam-temores-dos-companheiros-da-solidao?utm_source=rss-cultura&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FOLHAPRESS &#8211; A poesia de Charles Simic \u00e9 marcada por ru\u00eddos. 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