{"id":53918,"date":"2022-01-27T18:08:53","date_gmt":"2022-01-27T21:08:53","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/01\/27\/pessoas-trans-relatam-constrangimento-e-preconceito-durante-atendimentos-medicos\/"},"modified":"2022-01-27T18:08:53","modified_gmt":"2022-01-27T21:08:53","slug":"pessoas-trans-relatam-constrangimento-e-preconceito-durante-atendimentos-medicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2022\/01\/27\/pessoas-trans-relatam-constrangimento-e-preconceito-durante-atendimentos-medicos\/","title":{"rendered":"Pessoas trans relatam constrangimento e preconceito durante atendimentos m\u00e9dicos"},"content":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; O direito a uma sa\u00fade digna e igualit\u00e1ria ainda \u00e9 uma das demandas urgentes de pessoas trans, que celebram, no s\u00e1bado (29), um dia de visibilidade de suas lutas. Relatos de constrangimento durante consultas m\u00e9dicas e dificuldade para agendar uma cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o sexual pelo SUS n\u00e3o s\u00e3o incomuns, tanto para homens quanto para mulheres deste grupo social.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Quando precisa passar por atendimento, o bartender e t\u00e9cnico em turismo Cl\u00e1udio Raphael Gal\u00edcia Neto, 49, homem trans, conta que \u00e9 constrangedor entrar numa sala de espera do ginecologista s\u00f3 com mulheres, algumas delas gr\u00e1vidas. &#8220;Me olham tentando decifrar se eu sou o marido de alguma paciente. At\u00e9 que o m\u00e9dico me chama.&#8221;<\/p>\n<p>Morador de S\u00e3o Paulo, Gal\u00edcia afirma que, por v\u00e1rias vezes, sofreu preconceito de m\u00e9dicos durante o atendimento. &#8220;Acontece de o ginecologista ficar surpreso por eu ser homem, ficam constrangidos e te constrangem tamb\u00e9m. Fica complicado at\u00e9 se despir para o exame.&#8221;<\/p>\n<p>Ele conta que esperou cinco anos para fazer a mastectomia masculinizadora (retirada da gl\u00e2ndula mam\u00e1ria e o reposicionamento da ar\u00e9ola) pelo SUS em janeiro de 2017, algo que nem imaginava ser poss\u00edvel na d\u00e9cada de 1980, quando se descobriu trans.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o se tinha acesso a informa\u00e7\u00f5es e muito menos atendimento espec\u00edfico ao p\u00fablico trans. Ent\u00e3o eu apenas me conformava em ser uma l\u00e9sbica masculinizada.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo Gal\u00edcia, alguns profissionais insistem em cham\u00e1-lo pelo nome de registro, e n\u00e3o pelo social.<\/p>\n<p>&#8220;E n\u00f3s temos que engolir sapo, como sempre fazemos, porque precisamos do atendimento&#8221;, conta ele, que come\u00e7ou aos 24 anos o processo de hormoniza\u00e7\u00e3o por conta pr\u00f3pria, o que envolve perigo \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>Esse tipo de preconceito acaba por afastar pessoas trans do sistema de sa\u00fade, segundo a comunicadora e ativista Luiza Barros, 37. &#8220;Essa popula\u00e7\u00e3o deixa de ocupar esses espa\u00e7os p\u00fablicos por falta de informa\u00e7\u00e3o ou para evitar o preconceito que, j\u00e1 sabe, ir\u00e1 sofrer.&#8221;<\/p>\n<p>Luiza afirma que muitos transg\u00eaneros tomam altas doses de horm\u00f4nio por conta pr\u00f3pria, j\u00e1 que n\u00e3o conseguem orienta\u00e7\u00e3o profissional de um endocrinologista ou cl\u00ednico geral.<\/p>\n<p>&#8220;Isso mexe com nosso corpo e com nosso psicol\u00f3gico. Muitas mortes acontecem h\u00e1 d\u00e9cadas em consequ\u00eancia disso. Precisamos de um de um atendimento mais acolhedor. E que seja respeitada tamb\u00e9m a nossa identidade.&#8221;<\/p>\n<p>A sa\u00fade mental de pessoas trans \u00e9 uma das quest\u00f5es que mais preocupa, segundo Keila Simpson, presidenta da Antra (Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais).<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 necess\u00e1rio que o SUS ofere\u00e7a um sistema humanizado, pois a falta de aten\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade do corpo tamb\u00e9m afeta a sa\u00fade mental. \u00c9 um problema de exclus\u00e3o, e a pessoa sofre muito.&#8221;<\/p>\n<p>Ela lembra, que h\u00e1 uma fila de espera de anos para conseguir realizar um procedimento transexualizador pelo SUS, porque n\u00e3o h\u00e1 profissionais, hospitais e ambulat\u00f3rios suficientes para o p\u00fablico transg\u00eanero no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;Se o g\u00eanero foge do que o m\u00e9dico est\u00e1 habituado, homem e mulher, o SUS, em geral, n\u00e3o sabe como lidar&#8221;, diz Keila.<\/p>\n<p>Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu, da Unesp, divulgada em novembro de 2021, estima que a popula\u00e7\u00e3o adulta identificada como transg\u00eaneros ou n\u00e3o-bin\u00e1rios (n\u00e3o pertencem a um g\u00eanero exclusivamente) no Brasil \u00e9 de 2%. S\u00e3o 3 milh\u00f5es de indiv\u00edduos, considerando apenas os 80% que s\u00e3o adultos, em uma popula\u00e7\u00e3o estimada em 214 milh\u00f5es em 2021, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica).<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 quem fale que queremos privil\u00e9gios. N\u00e3o queremos. N\u00e3o pedimos que aceitem nossa forma\u00e7\u00e3o, mas sim queremos uma inclus\u00e3o respeitosa&#8221;, afirma a presidenta da Antra.<\/p>\n<p><span class=\"news_bold\">ACOLHIMENTO E COMPREENS\u00c3O<\/span><\/p>\n<p>Embora se acumulem queixas por uma aten\u00e7\u00e3o digna \u00e0 sa\u00fade de pessoas trans, h\u00e1 exemplos de cidades que t\u00eam programas e servi\u00e7os p\u00fablicos de atendimento voltados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+ e de valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade que t\u00eam colhido bons resultados, como em Goi\u00e2nia (GO), em Bel\u00e9m (PA) e em Recife (PE).<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, h\u00e1 o ambulat\u00f3rio do n\u00facleo TransUnifesp, da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo, e o Ambulat\u00f3rio de Transexualismo do Hospital das Cl\u00ednicas.<\/p>\n<p>Pensando num atendimento espec\u00edfico e acolhedor ao p\u00fablico trans, a Prefeitura de Santa Maria (RS) inaugurou, em outubro de 2020, o Ambulat\u00f3rio Transcender (LGBTQI+ Processo Transexualizador), que realiza atendimentos via SUS.<\/p>\n<p>Uma vez que a pessoa transg\u00eanero chega ao Transcender, passa por consultas com psic\u00f3logo e realiza exames cl\u00ednicos para analisar se n\u00e3o h\u00e1 impedimentos \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, segundo o psicologo C\u00e9sar Bridi Filho, coordenador do ambulat\u00f3rio. Tudo pelo sistema p\u00fablico de sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;Nossa expectativa neste ano \u00e9 atender mais de mil pessoas transg\u00eanero da regi\u00e3o&#8221;, explica Filho. &#8220;Nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9, ainda, ajudar na constru\u00e7\u00e3o da identidade da trans.&#8221;<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo afirma que o ambulat\u00f3rio tamb\u00e9m atende crian\u00e7as e adolescentes, mas sem o processo de hormoniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Damos suporte ao paciente e \u00e0 fam\u00edlia tamb\u00e9m. H\u00e1 risco de vulnerabilidade quando a pessoa entra na adolesc\u00eancia, quando acontece alto \u00edndice de rompimento familiar por quest\u00f5es como religi\u00e3o. Pretendemos minimizar os problemas que podem acontecer adiante&#8221;, relata o coordenador.<\/p>\n<p>A designer de moda Maria Eva Rizzatti, 37, declara ter sofrido muito com bullying tanto na escola quanto na faculdade, mas n\u00e3o desistiu dos estudos por causa do apoio da fam\u00edlia. &#8220;Eles s\u00e3o maravilhosos. \u00c9 por eles que resisto.&#8221;<\/p>\n<p>Maria Eva passou a frequentar o ambulat\u00f3rio transexualizador de Santa Maria no in\u00edcio de janeiro. Ela usava horm\u00f4nios de forma perigosa, consultando dicas que encontrava na internet. Eva conta que j\u00e1 gastou R$ 450 em uma consulta particular por acreditar que teria atendimento melhor que no SUS, mas afirma que o preconceito foi o mesmo.<\/p>\n<p>&#8220;A primeira coisa que os m\u00e9dicos j\u00e1 mandavam fazer era os exames de HIV e de s\u00edfilis. Eu estava com dor de garganta, ele mandava fazer o teste da Aids. Travesti \u00e9 associada \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o, \u00e0 promiscuidade e a doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis.&#8221;<\/p>\n<p>Keila concorda. &#8220;A trans tem dor de dente, pedem teste de HIV. Quebra o p\u00e9, a mesma coisa. Uma vez, numa palestra, uma menina trans perguntou ironicamente se quando ela tiver dor de garganta, precisaria amarrar uma camisinha na garganta para se curar.&#8221;<\/p>\n<p>Maria Eva afirma que na vida adulta nunca fez exames de sa\u00fade para identificar como os horm\u00f4nios estavam reagindo no seu corpo. &#8220;Nenhum m\u00e9dico me orientou.&#8221;<\/p>\n<p>Ela afirma que o ambulat\u00f3rio foi uma &#8220;b\u00ean\u00e7\u00e3o&#8221;. &#8220;Finalmente algu\u00e9m pensou em n\u00f3s e sabe como nos tratar. Com esse atendimento acolhedor, me senti muito bem, viva, humana, uma pessoa de verdade.&#8221;<\/p>\n<p>Procurado, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade afirma em nota que instituiu por meio de portaria a Pol\u00edtica Nacional de Sa\u00fade Integral LGBT e que ela &#8220;apresenta mecanismos para garantir o acesso \u00e0 rede do SUS&#8221;.<\/p>\n<p>O minist\u00e9rio diz, ainda, que a organiza\u00e7\u00e3o da rede p\u00fablica de sa\u00fade local, como agendamento de consultas, exames e organiza\u00e7\u00e3o de filas de espera, \u00e9 de responsabilidade de estados e munic\u00edpios e que est\u00e1 sob sua compet\u00eancia o monitoramento das pol\u00edticas de alta complexidade.<\/p>\n<p>O Conselho Federal de Medicina, por sua vez, cita o C\u00f3digo de \u00c9tica M\u00e9dica, onde diz que os profissionais devem respeitar os pacientes segundo suas caracter\u00edsticas e que \u00e9 vedado &#8220;tratar o ser humano sem civilidade, desrespeitar sua dignidade ou discrimin\u00e1-lo&#8221;. Em caso de queixa contra um m\u00e9dico, diz a nota, o interessado deve procurar o CRM do seu estado.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/1879627\/pessoas-trans-relatam-constrangimento-despreparo-e-preconceito-durante-atendimentos-medicos?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; O direito a uma sa\u00fade digna e igualit\u00e1ria ainda \u00e9<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":53919,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-53918","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53918","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53918"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53918\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53919"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53918"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53918"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53918"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}