{"id":49091,"date":"2021-12-27T15:08:39","date_gmt":"2021-12-27T18:08:39","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/12\/27\/menos-de-8-das-maternidades-sao-acessiveis-a-gestantes-com-deficiencias\/"},"modified":"2021-12-27T15:08:39","modified_gmt":"2021-12-27T18:08:39","slug":"menos-de-8-das-maternidades-sao-acessiveis-a-gestantes-com-deficiencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/12\/27\/menos-de-8-das-maternidades-sao-acessiveis-a-gestantes-com-deficiencias\/","title":{"rendered":"Menos de 8% das maternidades s\u00e3o acess\u00edveis a gestantes com defici\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Na primeira vez que Nayara engravidou, aos 20 anos, o m\u00e9dico que realizou o seu pr\u00e9-natal em Bras\u00edlia s\u00f3 falava com a av\u00f3, que resumia a conversa para neta. Surda desde o nascimento, ela conta que n\u00e3o tinha ideia de com o seriam a gesta\u00e7\u00e3o e o parto.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>&#8220;A bolsa estourou na 36\u00aa semana. N\u00e3o entendia o que estava acontecendo. Minha av\u00f3 disse que eu precisava fazer uma cirurgia urgente. O obstetra n\u00e3o sabia Libras [L\u00edngua Brasileira de Sinais], n\u00e3o me disse nada. Apenas tirou o beb\u00ea da minha barriga&#8221;, conta ela, em entrevista por escrito.<\/p>\n<p>Na segunda gravidez, j\u00e1 casada e morando em S\u00e3o Paulo, ela contratou uma int\u00e9rprete de Libras para acompanh\u00e1-la nas consultas porque, de novo, n\u00e3o havia ningu\u00e9m no consult\u00f3rio que se comunicasse com ela.<\/p>\n<p>&#8220;A int\u00e9rprete foi maravilhosa, eu n\u00e3o parava de perguntar, tinha muitas d\u00favidas, por exemplo, pra que servia o sulfato ferroso [suplemento que previne a anemia]. A m\u00e9dica ficou surpresa porque eu j\u00e1 tinha um filho. Mas eu disse que n\u00e3o sabia de nada, ningu\u00e9m havia me explicado antes.&#8221;<\/p>\n<p>No Natal de 2016, a bolsa estourou e Nayara foi levada \u00e0s pressas pela fam\u00edlia do marido a um hospital particular. O que ela mais temia aconteceu novamente.<\/p>\n<p>&#8220;Ningu\u00e9m falava comigo. Fui levada para a sala de cirurgia e vi uma enfermeira rindo de mim porque eu estava com muito pelo [pubiano]. O ar-condicionado estava muito forte no meu rosto, tentei falar com elas para reduzir, mas ningu\u00e9m me entendia. Tentei gritar, amarraram as minhas m\u00e3os.&#8221;<\/p>\n<p>No quarto, ela conta que o drama continuou. &#8220;Eu chorava muito, me sentia num circo. As enfermeiras e outras m\u00e3es ficavam olhando pela porta. Tipo: &#8216;olha uma m\u00e3e surda que acabou de partir um filho'&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>Aos 31 anos e m\u00e3e de Miguel, 11, e Noah, 5, ela diz que n\u00e3o quer engravidar novamente por medo de enfrentar o que hoje define como viol\u00eancia obst\u00e9trica. &#8220;Eu queria ter tido um parto humanizado, em um hospital que oferecesse um int\u00e9rprete em Libras ou um m\u00e9dico que sabe Libras ou mesmo algum outro tipo de comunica\u00e7\u00e3o. Isso quase n\u00e3o existe.&#8221;<\/p>\n<p>Nayara tem raz\u00e3o. Menos de 8% das maternidades p\u00fablicas brasileiras est\u00e3o adaptadas para atender gestantes e pu\u00e9rperas com defici\u00eancias motoras e auditivas. Para as que t\u00eam defici\u00eancia visual, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais dram\u00e1tica: nenhuma est\u00e1 totalmente preparada.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico da falta de acessibilidade vem de um levantamento in\u00e9dito feito em 606 maternidades p\u00fablicas brasileiras pela Fiocruz (Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz) e pela Universidade Federal do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Apenas 4,3% (26) das institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o acess\u00edveis a pessoas com defici\u00eancia motora e t\u00eam, por exemplo, corrim\u00f5es, banheiros com barras e portas com dimens\u00f5es para cadeiras de rodas.<\/p>\n<p>S\u00f3 3,3% possuem sinaliza\u00e7\u00e3o auditiva com textos, figuras, placas, cartazes ou s\u00edmbolos para mulheres com defici\u00eancia auditiva. Como o estudo s\u00f3 avaliou a estrutura f\u00edsica, n\u00e3o h\u00e1 dados, por exemplo, sobre o percentual de funcion\u00e1rios treinados em braile.<\/p>\n<p>E nenhuma tem sinaliza\u00e7\u00e3o t\u00e1til. S\u00f3 foram consideradas adequadas aquelas que tivessem indicadores essenciais de acessibilidade na recep\u00e7\u00e3o, sala de admiss\u00e3o e unidade obst\u00e9trica.<\/p>\n<p>O estudo faz parte de um levantamento maior que avaliou a qualidade da assist\u00eancia obst\u00e9trica no pa\u00eds em maternidades p\u00fablicas das cindo regi\u00f5es ligadas \u00e0 Rede Cegonha, estrat\u00e9gia do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade criada em 2011 com o intuito de melhorar a assist\u00eancia \u00e0s mulheres na gesta\u00e7\u00e3o, no parto e no puerp\u00e9rio. O trabalho foi publicado no peri\u00f3dico Ci\u00eancia &amp; Sa\u00fade Coletiva.<\/p>\n<p>Em uma live de apresenta\u00e7\u00e3o do trabalho, Ant\u00f4nio Rodrigues Braga Neto, diretor do departamento de a\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas estrat\u00e9gicas do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, reconheceu que h\u00e1 muitos desafios na aten\u00e7\u00e3o ao pr\u00e9-natal e ao parto e que a pasta investiu mais de R$ 1 bilh\u00e3o, em nove meses, na sa\u00fade materno-infantil, com recursos, inclusive, para reaparelhar os espa\u00e7os das maternidades.<\/p>\n<p>&#8220;Os nossos resultados s\u00e3o assustadores. As maternidades est\u00e3o totalmente despreparadas para receber essas mulheres&#8221;, diz a epidemiologista Erika Thomaz, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, autora principal do estudo.<\/p>\n<p>As maternidades do Norte e do Nordeste foram as com piores \u00edndices de acessibilidade para as defici\u00eancias motoras, com 2,3% e 2,6%, respectivamente. As regi\u00f5es Sul (3,7%) Sudeste (5,4%) e Centro-Oeste (9,8%) tiveram, em geral, melhores resultados, mas n\u00e3o atingiram propor\u00e7\u00f5es m\u00ednimas em v\u00e1rios dos crit\u00e9rios estruturais estudados.<\/p>\n<p>Segundo Thomaz, \u00e9 grande o desafio porque muitas das adapta\u00e7\u00f5es requerem reformas estruturais dos pr\u00e9dios e n\u00e3o h\u00e1 recursos. &#8220;Muitas maternidades funcionam em pr\u00e9dios antigos, em unidades que j\u00e1 existiam antes das atuais pol\u00edticas de acessibilidade. E, infelizmente, as nossas autoridades n\u00e3o t\u00eam dado aten\u00e7\u00e3o para isso&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Problemas semelhantes j\u00e1 foram relatados em unidades b\u00e1sicas de sa\u00fade. Uma an\u00e1lise de 240 UBS em 41 munic\u00edpios brasileiros verificou que cerca de 60% das unidades eram inadequadas.<\/p>\n<p>No Brasil, h\u00e1 17,3 milh\u00f5es de pessoas com algum tipo de defici\u00eancia, segundo dados do IBGE. Dessas, 10,5 milh\u00f5es s\u00e3o mulheres.<\/p>\n<p>Thomaz diz que outros direitos dessas mulheres, garantidos por lei, como a comunica\u00e7\u00e3o com a equipe m\u00e9dica, tamb\u00e9m est\u00e3o sendo violados.<\/p>\n<p>&#8220;Os m\u00e9dicos n\u00e3o t\u00eam forma\u00e7\u00e3o para isso, raramente t\u00eam alguma informa\u00e7\u00e3o na l\u00edngua de sinais. A comunica\u00e7\u00e3o acaba acontecendo com o acompanhante.&#8221; Mas, \u00e0s vezes, tamb\u00e9m esse direito n\u00e3o \u00e9 respeitado.<\/p>\n<p>Em junho deste ano, o soldado Walker Sousa, do Corpo de Bombeiros de Ribeir\u00e3o Preto (SP), serviu de int\u00e9rprete, em pleno trabalho de parto, para que a equipe m\u00e9dica pudesse se comunicar uma gestante surda por meio de uma videochamada. &#8220;N\u00e3o tinha ningu\u00e9m no hospital que tinha conhecimento em Libras&#8221;, contou.<\/p>\n<p>A gestante estava muito nervosa, mas logo se acalmou quando conseguiu se comunicar com o bombeiro.<\/p>\n<p>Mulheres com necessidade especiais t\u00eam maior risco de apresentar problemas relacionados \u00e0 gesta\u00e7\u00e3o, parto e p\u00f3s-parto em compara\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o geral, como taxas mais altas de depress\u00e3o, diabetes e infec\u00e7\u00f5es urin\u00e1rias e de parto prematuro<\/p>\n<p>&#8220;Muitas vezes, a defici\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico problema de sa\u00fade, ela tem sequelas de outras comorbidades, um ac\u00famulo de riscos para elas e para o beb\u00ea, que pode nascer com baixo peso, por exemplo&#8221;, diz Thomaz.<\/p>\n<p>&#8220;A \u00e1rea da sa\u00fade n\u00e3o \u00e9 preparada para atender pessoas. Que dir\u00e1 pessoas com defici\u00eancias&#8221;, diz a consultora de inclus\u00e3o de profissionais com defici\u00eancia Tabata Contri, que perdeu os movimentos da perna ap\u00f3s um grave acidente de tr\u00e2nsito no R\u00e9veillon de 2000 para 2001.<\/p>\n<p>M\u00e3e de Francisco, 5, ela afirma que h\u00e1 barreiras de acesso em todos os n\u00edveis para as mulheres deficientes. &#8220;Se eu vou ao ginecologista, n\u00e3o encontro banheiro acess\u00edvel caso queira fazer xixi antes da consulta, se vou fazer papanicolau, tenho que esvaziar a bexiga antes em casa porque uso sonda.&#8221;<\/p>\n<p>Quando vai fazer exames, nem sempre h\u00e1 vagas para deficientes no estacionamento e os guich\u00eas s\u00e3o altos.<\/p>\n<p>&#8220;No primeiro ultrassom na gravidez que fui fazer, para escutar o cora\u00e7\u00e3ozinho do meu filho, naquele dia o \u00fanico elevador estava quebrado. Meu marido me carregou para o andar de cima. Se eu estivesse sozinha, teria que ter ido embora.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo Contri, muitas mulheres deixam de fazer seus exames preventivos porque se depararam com a falta de acessibilidade ou de sensibilidade na \u00e1rea da sa\u00fade.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/1871710\/menos-de-8-das-maternidades-sao-acessiveis-a-gestantes-com-deficiencias?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Na primeira vez que Nayara engravidou, aos 20 anos, o<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":49092,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-49091","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49091","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49091"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49091\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49092"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49091"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49091"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49091"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}