{"id":48869,"date":"2021-12-25T14:09:28","date_gmt":"2021-12-25T17:09:28","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/12\/25\/jogadora-de-futebol-entra-em-campo-contra-abuso-sexual\/"},"modified":"2021-12-25T14:09:28","modified_gmt":"2021-12-25T17:09:28","slug":"jogadora-de-futebol-entra-em-campo-contra-abuso-sexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/12\/25\/jogadora-de-futebol-entra-em-campo-contra-abuso-sexual\/","title":{"rendered":"Jogadora de futebol entra em campo contra abuso sexual"},"content":{"rendered":"<p>ELIANE TRINDADE<br \/>VIT\u00d3RIA DA CONQUISTA, BA (FOLHAPRESS) &#8211; Jogadora do time de futebol feminino do Vit\u00f3ria da Conquista, Tatiane dos Santos da Silva, 21, entra em campo tamb\u00e9m contra o abuso e a explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Em 2017, ela fugiu do povoado de Inhobim, distrito de Vit\u00f3ria da Conquista (BA), onde morava com o pai e tr\u00eas irm\u00e3os menores. Al\u00e9m dos afazeres dom\u00e9sticos e com os pequenos, ela relata que passou a ser &#8220;procurada na cama&#8221; pelo pai, depois de a m\u00e3e ter fugido para escapar de viol\u00eancia dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Tatiane bateu \u00e0s portas do Conselho Tutelar Rural que lida com uma cultura feudal pela qual os homens podem fazer o que quiser com suas mulheres e filhas.<\/p>\n<p>&#8220;Ela chegou com v\u00e1rias les\u00f5es no corpo e provas de que vivia como mulher do pai desde os 7 anos&#8221;, relata Joyce Fonseca, conselheira que acompanhou a adolescente nos servi\u00e7os de acolhimento do munic\u00edpio, onde esse tipo de abuso \u00e9 epid\u00eamico.<\/p>\n<p>Preso um ano e meio depois da den\u00fancia, o pai foi condenado a 26 anos de pris\u00e3o.<br \/>Passados quase cinco anos, Tatiane come\u00e7a literalmente a viver com as pr\u00f3prias pernas. Virou atacante do time feminino da cidade, trabalha como vendedora e ap\u00f3s concluir o ensino m\u00e9dio sonha em ganhar fama<br \/>&#8220;Antes de chegar ao abrigo, eu era uma Tatiane sem ch\u00e3o, isolada do mundo. N\u00e3o sabia o que era viver, sentir amor de pai e m\u00e3e. Passei por muito sofrimento e achava que tinha nascido para viver aquilo.<\/p>\n<p>Na casa de acolhimento, eu tinha muitos pesadelos com meu pai. Comecei a sofrer abuso sexual desde os 7 anos. Morava na zona rural com ele e tr\u00eas irm\u00e3os menores.<\/p>\n<p>Na 5\u00aa s\u00e9rie, teve uma palestra no col\u00e9gio. O que a professora falava me chamou aten\u00e7\u00e3o. Fiquei com a cabe\u00e7a meio perturbada. Eram coisas parecidas com o que estava acontecendo comigo.<\/p>\n<p>Quando fiz 14 anos, meu pai disse que a partir daquele momento eu seria a esposa dele. Ele teve mais de 30 mulheres. Todas iam embora com dois, tr\u00eas dias. Mesmo com mulher em casa, ele vinha me procurar na cama de madrugada.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e foi embora quando \u00e9ramos muito novos. Ele contava que ela abandonou a gente. A verdade \u00e9 que foi para S\u00e3o Paulo porque ele batia muito nela. Ela queria ter levado os filhos, mas foi amea\u00e7ada de morte.<br \/>Eu apanhava por n\u00e3o querer ceder pra ele na cama. Acordava machucada, com sangramento. Acabei me acostumando com aquela rotina.<\/p>\n<p>Como a gente cuidava do bar, eu e meus irm\u00e3os aprendemos a beber. Percebemos que era um jeito de n\u00e3o sentir dor. Est\u00e1vamos virando adolescentes alco\u00f3latras.<\/p>\n<p>Desconfiava que ele abusava da minha irm\u00e3 menor. Ameacei ele, dizendo que ia fazer uma den\u00fancia. Nesse dia, ele tirou minha roupa e me bateu na frente dos meus irm\u00e3os. Disse que me mataria.<\/p>\n<p>Minha irm\u00e3 ficou com muito medo e negou. Depois que denunciei para o Conselho Tutelar, foi constatado que ele tamb\u00e9m abusava dela.<br \/>Com 16 anos, fiquei com um menino na escola. Como meu pai colocava meus irm\u00e3os pra ficar de olho em mim, eles contaram que eu estava namorando. Quando voltei da escola, sabia que ia apanhar. Ele me pegou nua no quarto e me jogou na sala na frente dos meus irm\u00e3os. Me bateu muito. Na cabe\u00e7a, na coluna.<\/p>\n<p>Depois, ele pegou um peda\u00e7o de carne na geladeira e mandou eu preparar. Tinha uma garrafa de pinga em cima da mesa. Eu tomei todinha para parar de sentir dor. Enquanto ele gritava que ia me matar, segurando uma faca, uma coisa falou no meu cora\u00e7\u00e3o: voc\u00ea vai ter de sair de casa.<br \/>Decidi que ia fugir naquela noite. Com muito medo, troquei de roupa, vesti uma blusa de frio e peguei uma sacola, onde coloquei um t\u00eanis, uma lanterna e uma B\u00edblia, que me acompanha at\u00e9 hoje. N\u00e3o conseguia mais viver ali, n\u00e3o queria morrer. Queria viver, ter liberdade.<\/p>\n<p>Sa\u00ed de casa sem saber para onde ir, mas tinha uma certeza de que minha salva\u00e7\u00e3o era Deus e a Justi\u00e7a. Ele ia pagar por tudo que fez. Sa\u00ed com o cora\u00e7\u00e3o apertado de deixar meus irm\u00e3os, mas nasci para fazer a diferen\u00e7a na minha fam\u00edlia. Precisava quebrar aquele ciclo.<\/p>\n<p>Fugi a p\u00e9 em dire\u00e7\u00e3o ao povoado onde morava um irm\u00e3o mais velho. Sabia que meu pai ia atr\u00e1s de mim. Eu meti a cara no meio do mato, no escuro. Vi o carro dele atravessando a pista. Ele passou bem devagarzinho gritando meu nome. Depois vi um carro de pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Quando cheguei perto da comunidade, peguei o caminho mais longo. Pensei em bater na casa do meu irm\u00e3o, mas desisti. Lembrei da casa de uma tia. Naquele momento, me senti empoderada. \u00c9 nela que ia confiar.<br \/>Minha tia me acolheu. Quando ela visitava a gente, sentia que tinha alguma coisa errada. Ela ligou para o Conselho Tutelar. No outro dia, tia Joyce foi me buscar e me levou para Vit\u00f3ria da Conquista. Falei tudo que se passava dentro de casa, me levaram ao m\u00e9dico. Mandaram meu pai comparecer para ser interrogado, trazendo os meus irm\u00e3os. Tomaram a guarda dele e entraram com pedido de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Meu desejo era que pagasse por todos os erros. N\u00e3o foi f\u00e1cil denunciar meu pai. Ele foi preso um ano e meio depois. Eu me senti arrasada [chora].<br \/>Minha fam\u00edlia toda me acusava por ele estar sendo preso. Todo mundo me julgou. Menos minha irm\u00e3 menor, porque ela sabia que eu estava falando a verdade. Ela tamb\u00e9m passou por isso. Teve outra den\u00fancia contra meu pai. Em 2005, ele foi acusado de abuso sexual pela filha do patr\u00e3o. A menina tinha 7 para 8 anos e era uma crian\u00e7a especial.<\/p>\n<p>Eu queria ser um super-her\u00f3i para acabar com tudo isso. Como n\u00e3o sou, quero dar for\u00e7as para outras crian\u00e7as e adolescentes, para que elas tenham um ponto de refer\u00eancia.<\/p>\n<p>Usei o esporte para fugir daquele mundo, distrair as emo\u00e7\u00f5es e esquecer. Jogava no col\u00e9gio, sempre fui aluna exemplar, apesar das dificuldades em casa. Sofria preconceito. Diziam que era coisa de macho, que mulher n\u00e3o pode jogar.<\/p>\n<p>Cada chute que eu dava, menor era a dor que eu sentia. Chuto muito forte at\u00e9 hoje. Era como se eu pegasse meus problemas, fizesse uma bola de neve e chutasse em dire\u00e7\u00e3o ao gol. Foi um jeito de lidar com essa m\u00e1goa, esse sentimento ruim. Cada vez que chutava a bola era ainda como se estivesse chutando minha vida pra frente. Tenho v\u00e1rias medalhas e trof\u00e9us.<\/p>\n<p>Minha hist\u00f3ria \u00e9 meio parecida com a da Marta [jogadora da sele\u00e7\u00e3o]. Estava sempre jogando com os meninos, at\u00e9 que uma menina que jogava no time de futsal me convidou para treinar. Foi l\u00e1 que um olheiro me viu.<br \/>Comecei a ficar conhecida na cidade, joguei em v\u00e1rios times. Quando disputei a primeira copa de futsal, o coordenador de futebol do Vit\u00f3ria da Conquista me convidou para fazer um teste. Estavam precisando de uma atacante. Falei que nunca tinha jogado futebol de campo. Fiz o teste como lateral na equipe reserva. Ganhamos de 7 a 0 do time titular e eu marquei quatro gols.<\/p>\n<p>Nunca tinha jogado em um time profissional antes. Comecei a disputar o Campeonato Baiano, viajamos para v\u00e1rios lugares. Achei maravilhoso. Era um mundo novo. O jogo virou e o meu passado come\u00e7ou a ficar pra tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Minha meta \u00e9 jogar no exterior. Infelizmente, o futebol feminino n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o valorizado. S\u00e3o portas dif\u00edceis de serem abertas.<\/p>\n<p>Ano passado, fui chamada pelo Juventude, que \u00e9 o segundo time profissional da cidade, para disputar o Campeonato Brasileiro da S\u00e9rie A2. Mas veio a pandemia e suspenderam os campeonatos.<\/p>\n<p>Pretendo fazer duas faculdades: direito, porque faz parte da minha hist\u00f3ria, e educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, outra \u00e2ncora. Espero que essa minha hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o toque no cora\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 angustiado, com dor e sem for\u00e7a. Eu me tornei uma vencedora.&#8221;<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Esporte<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/esporte\/1871389\/jogadora-de-futebol-entra-em-campo-contra-abuso-sexual?utm_source=rss-esporte&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELIANE TRINDADEVIT\u00d3RIA DA CONQUISTA, BA (FOLHAPRESS) &#8211; Jogadora do time de futebol feminino do Vit\u00f3ria<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":48870,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-48869","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-esportes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48869","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48869"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48869\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48870"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48869"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48869"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}