{"id":43917,"date":"2021-11-20T08:08:33","date_gmt":"2021-11-20T11:08:33","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/11\/20\/america-latina-trata-negros-como-invisiveis-ou-extintos-afirmam-pesquisadores\/"},"modified":"2021-11-20T08:08:33","modified_gmt":"2021-11-20T11:08:33","slug":"america-latina-trata-negros-como-invisiveis-ou-extintos-afirmam-pesquisadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/11\/20\/america-latina-trata-negros-como-invisiveis-ou-extintos-afirmam-pesquisadores\/","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina trata negros como invis\u00edveis ou extintos, afirmam pesquisadores"},"content":{"rendered":"<p>(FOLHAPRESS) &#8211; Quando a mineira Denise Braz, 42, pisou pela primeira vez em solo argentino, em 2012, o estranhamento foi quase imediato. Negra, ela olhou ao redor e s\u00f3 viu pessoas brancas no aeroporto em Buenos Aires. Acompanhada da irm\u00e3 e de uma amiga, tamb\u00e9m negras, questionou-se: onde est\u00e3o os negros?<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Nas ruas da capital, viu os primeiros rostos como o seu, em sua maioria, entre vendedores ambulantes. Ao repetir para terceiros a pergunta que fizera a si mesma, a resposta crua foi o segundo choque. &#8220;As pessoas diziam: &#8216;Os negros morreram todos na guerra da independ\u00eancia [1810-1816], de febre amarela. Ou foram mesti\u00e7ando, desaparecendo, extintos&#8217;. Palavras que s\u00e3o usadas para falar de animais&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Viriam ainda o terceiro, o quarto e v\u00e1rios outros momentos de surpresa e indigna\u00e7\u00e3o. Em locais tur\u00edsticos, as tr\u00eas mulheres negras eram olhadas como seres de outro mundo. &#8220;Era terr\u00edvel, queriam tirar foto, tiravam sem permiss\u00e3o, passavam a m\u00e3o na pele, no cabelo, uma coisa horrorosa&#8221;.<\/p>\n<p>As cenas vividas por Braz refletem um processo a que est\u00e3o sujeitos os negros em quase toda a Am\u00e9rica Latina. Minoria num\u00e9rica em 18 dos 20 pa\u00edses que formam a regi\u00e3o, os afro-latinos enfrentam situa\u00e7\u00f5es de racismo cotidiano enquanto lutam para terem sua exist\u00eancia reconhecida por Estados que frequentemente os tratam como invis\u00edveis ou cidad\u00e3os de segunda classe.<\/p>\n<p>A maneira como esse apagamento hist\u00f3rico se deu varia entre os pa\u00edses, mas, em geral, pode ser caracterizada por uma s\u00e9rie de pr\u00e1ticas marcadas pela reprodu\u00e7\u00e3o de hierarquias raciais, explica Fl\u00e1vio Thales Ribeiro Francisco, professor da Universidade Federal do ABC.<\/p>\n<p>&#8220;O que aconteceu na Am\u00e9rica Latina, particularmente na Argentina, foi um processo, a tentativa de criar uma na\u00e7\u00e3o branca, baseada na ideia de que uma na\u00e7\u00e3o eurocentrada, cujo perfil racial \u00e9 branco ou embranquecido, \u00e9 ideal para o progresso&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Essas pol\u00edticas -aplicadas no Brasil por meio do incentivo estatal \u00e0 migra\u00e7\u00e3o de trabalhadores europeus- com o objetivo de tornar o pa\u00eds &#8220;menos negro&#8221; constitu\u00edram, segundo Francisco, um imagin\u00e1rio simb\u00f3lico de um Estado que vai apagando, ao longo da hist\u00f3ria, a presen\u00e7a de povos negros e ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses depois da primeira visita \u00e0 Argentina, Braz voltou ao pa\u00eds, dessa vez para cursar mestrado em antropologia na Universidade de Buenos Aires. Viveu, ent\u00e3o, epis\u00f3dios de racismo ainda mais escancarados.<\/p>\n<p>No \u00fanico elevador que levava ao andar onde assistia \u00e0s aulas, deparou-se com um cartaz que, entre outras inj\u00farias homof\u00f3bicas e antissemitas, dizia que &#8220;o mundo seria melhor sem a negra&#8221; -escrito no singular e no feminino, como um recado direto a ela, a \u00fanica aluna negra da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no campus.<\/p>\n<p>Esperando um \u00f4nibus nas ruas de Buenos Aires, recebeu uma cusparada de um homem desconhecido que a chamou de &#8220;negra de merda&#8221;. Braz viveu ainda um epis\u00f3dio de viol\u00eancia sexual, que atribui \u00e0 hiperssexualiza\u00e7\u00e3o da mulher negra, particularmente a do Brasil. O taxista que a assediou disse que nunca havia experimentado uma &#8220;negrita brasile\u00f1a&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do diploma do mestrado e do engajamento em causas feministas, a antrop\u00f3loga conta que leva da Argentina a percep\u00e7\u00e3o de que o pa\u00eds ainda carrega uma imagem muito primitiva e colonial dos indiv\u00edduos negros. &#8220;Para eles, somos s\u00f3 um corpo.&#8221;<\/p>\n<p>Parte dessa vis\u00e3o encontrou eco em declara\u00e7\u00e3o do presidente Alberto Fern\u00e1ndez, em junho. Em um evento com o premi\u00ea espanhol, ele disse que &#8220;os mexicanos vieram dos ind\u00edgenas, os brasileiros, da selva, e n\u00f3s [os argentinos], chegamos em barcos&#8221;, em refer\u00eancia \u00e0 sua ascend\u00eancia espanhola.<\/p>\n<p>Para Francisco, da UFABC, sociedades como a argentina, celebram sua &#8220;blanquidad&#8221; em detrimento das popula\u00e7\u00f5es afro-latinas e origin\u00e1rias, que estariam, segundo a l\u00f3gica racista, fadadas a desaparecer por serem uma heran\u00e7a arcaica.<\/p>\n<p>J\u00e1 em pa\u00edses como a Col\u00f4mbia e o Peru, a invisibiliza\u00e7\u00e3o dos sujeitos negros se d\u00e1 por meio do isolamento geogr\u00e1fico. H\u00e1 territ\u00f3rios onde os afro-latinos se concentram e celebram sua cultura e suas ra\u00edzes, mas isso n\u00e3o se reflete no imagin\u00e1rio nacional.<\/p>\n<p>&#8220;E existe o caso do Brasil, em que h\u00e1 uma disputa de narrativas. De um lado, quem diga que a capoeira ou o samba s\u00e3o elementos-chave da cultura nacional; de outro, ativistas negros que v\u00e3o dizer que s\u00e3o elementos de uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia negra.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo o especialista, as rela\u00e7\u00f5es raciais afro-latinas se diferem da ret\u00f3rica de pureza racial vista em lugares como Estados Unidos e \u00c1frica do Sul, mas isso n\u00e3o significa que tenham sido menos perigosas para indiv\u00edduos negros.<\/p>\n<p>Depois de deixar a Argentina, Braz iniciou o doutorado na Universidade do Texas, nos EUA. O estado fica na regi\u00e3o sul do pa\u00eds, historicamente marcada pelas cicatrizes da segrega\u00e7\u00e3o racial. L\u00e1, ela vive em Austin, cidade que vem mudando seu perfil demogr\u00e1fico a partir da chegada de imigrantes e est\u00e1 se tornando menos conservadora nesse sentido.<\/p>\n<p>Ainda assim, a antrop\u00f3loga viveu mais um epis\u00f3dio em que temeu por sua seguran\u00e7a devido \u00e0 cor da pele. Em 6 de janeiro, quando o ent\u00e3o presidente Donald Trump convocou apoiadores e os insuflou a atacar o Capit\u00f3lio, em Washington, seus seguidores no Texas fizeram manifesta\u00e7\u00f5es antidemocr\u00e1ticas na sede do Legislativo local.<\/p>\n<p>Braz foi avisada por amigos de que n\u00e3o era seguro sair de casa naquele dia, mas n\u00e3o recebeu os alertas a tempo. Ao voltar de um supermercado, foi surpreendida por trumpistas brancos armados. Uma mulher, que carregava uma bandeira confederada, s\u00edmbolo dos estados americanos que defenderam a manuten\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o durante a guerra civil, dirigiu \u00e0 brasileira uma s\u00e9rie de improp\u00e9rios. Ela n\u00e3o compreendeu o que era dito, mas o tom de voz e a express\u00e3o deixavam claro que uma imigrante negra n\u00e3o era bem-vinda para aquele grupo. A intimida\u00e7\u00e3o, na ocasi\u00e3o, parou por a\u00ed.<\/p>\n<p>&#8220;Os americanos racistas defendem sua branquitude como uma propriedade, um patrim\u00f4nio que eles defendem a qualquer custo, embora n\u00e3o esteja muito claro de qu\u00ea&#8221;, afirma. &#8220;Aqui voc\u00ea pode ter um vizinho racista e ele vai ter uma arma.&#8221;<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Mundo<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/mundo\/1862067\/america-latina-trata-negros-como-invisiveis-ou-extintos-afirmam-pesquisadores?utm_source=rss-mundo&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(FOLHAPRESS) &#8211; Quando a mineira Denise Braz, 42, pisou pela primeira vez em solo argentino,<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":43918,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-43917","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43917","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43917"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43917\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43918"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43917"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43917"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43917"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}