{"id":4354,"date":"2021-04-07T11:09:30","date_gmt":"2021-04-07T14:09:30","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/04\/07\/ruy-guerra-aos-90-anos-diz-se-sentir-estrangeiro-como-nos-tempos-do-cinema-novo\/"},"modified":"2021-04-07T11:09:30","modified_gmt":"2021-04-07T14:09:30","slug":"ruy-guerra-aos-90-anos-diz-se-sentir-estrangeiro-como-nos-tempos-do-cinema-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/04\/07\/ruy-guerra-aos-90-anos-diz-se-sentir-estrangeiro-como-nos-tempos-do-cinema-novo\/","title":{"rendered":"Ruy Guerra, aos 90 anos, diz se sentir estrangeiro como nos tempos do cinema novo"},"content":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;Costumo pensar que sou 10% portugu\u00eas, 20% mo\u00e7ambicano e 30% brasileiro&#8221;, diz Ruy Guerra, que chega aos 90 anos em agosto e \u00e9 homenageado este ano pelo festival \u00c9 Tudo Verdade. Mas e os outros 40%? S\u00e3o a ang\u00fastia do imigrante, de estar sempre em solo estrangeiro.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>&#8220;Nasci em Mo\u00e7ambique, ent\u00e3o j\u00e1 era um portugu\u00eas de segunda classe. Quando fui para Portugal, era a ditadura salazarista, eu odiei o pa\u00eds. Fui para a Fran\u00e7a assim que pude e peguei a Guerra da Arg\u00e9lia. Ent\u00e3o vim para o Brasil, que na \u00e9poca era um lugar feliz, o presidente era Juscelino, tinha acabado de ganhar a Copa do Mundo [a primeira, de 1958]. Aqui eu fiquei, s\u00f3 que em 1964 veio a ditadura.&#8221;<\/p>\n<p>Antes que isso acontecesse, Ruy Guerra -que agora ganha uma mostra- p\u00f4de fazer dois belos cl\u00e1ssicos do cinema brasileiro, &#8220;Os Cafajestes&#8221;, de 1962, e &#8220;Os Fuzis&#8221;, de 1964. Ainda assim, no grupo do cinema novo ele se sentia estrangeiro. &#8220;Qualquer coisa era &#8216;\u00f3, Portuga et cetera&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Vieram os documentos brasileiros, os casamentos brasileiros -com Nara Le\u00e3o, Leila Diniz, Claudia Ohana-, mas o sentimento continuou o mesmo, a ponto de ainda hoje evocar Fernando Pessoa. &#8220;Minha p\u00e1tria \u00e9 a minha l\u00edngua.&#8221;<\/p>\n<p>A essa l\u00edngua ele dedica todo o cuidado. Tanto que at\u00e9 hoje lembra com afeto o amigo Miguel Torres, que morreu aos 36 anos, no final de 1962. Foi Torres o parceiro que trouxe o linguajar carioca para &#8220;Os Cafajestes&#8221; e depois foi seu guia no Nordeste de &#8220;Os Fuzis&#8221;.<\/p>\n<p>Com o golpe de 1964, os bons tempos haviam terminado. O Urso de Prata em Berlim pela dire\u00e7\u00e3o de &#8220;Os Fuzis&#8221; ao menos o projetou o bastante para prosseguir a carreira no exterior, onde filmou, com produ\u00e7\u00e3o francesa, &#8220;Ternos Ca\u00e7adores&#8221;, em 1969.<\/p>\n<p>Voltou ao Brasil no auge da censura para filmar, com or\u00e7amento apertado, &#8220;Os Deuses e os Mortos&#8221;, de 1970, sobre os quais parece ter sentimentos mistos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, parece com quase todos os filmes do cinema novo da \u00e9poca, cuja fun\u00e7\u00e3o primeira era escapar da censura -o que trazia junto a obriga\u00e7\u00e3o da obscuridade e da alegoria. Mas \u00e9 tamb\u00e9m onde Guerra melhor p\u00f4de exercitar seu gosto pelos planos longos e complexos. E, com efeito, bel\u00edssimos. A forma salva, \u00e0s vezes.<\/p>\n<p>Os tempos muito duros no Brasil foram compensados pela independ\u00eancia de Mo\u00e7ambique, de onde trouxe 20% de si. &#8220;Cheguei a Maputo no dia da Independ\u00eancia&#8221;, diz. Foi 25 de junho de 1975. O pa\u00eds de cujo movimento pela liberta\u00e7\u00e3o participara quase adolescente o acolheu de bra\u00e7os mais que abertos, mesmo porque Guerra tinha amigos que agora estavam em cargos de governo.<\/p>\n<p>Ruy Guerra organizou o cinema mo\u00e7ambicano, ajudou que desse os primeiros passos e, ent\u00e3o, voltou ao Brasil. &#8220;Quando voc\u00ea emigra e volta depois de muito tempo, volta a um outro pa\u00eds.&#8221;<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o ficou fora do Brasil o bastante para que o pa\u00eds mudasse tanto assim -continuava autorit\u00e1rio. E disso &#8220;A Queda&#8221;, de 1978, \u00e9 testemunha, ao acompanhar o drama de um pe\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o civil. Mas Mario, o personagem de Nelson Xavier em &#8220;A Queda&#8221;, segue o mesmo trajeto de M\u00e1rio (tamb\u00e9m Xavier), um dos soldados de &#8220;Os Fuzis&#8221;. Como ele, M\u00e1rio de certa forma muda.<\/p>\n<p>Parece uma constante (ou ao menos algo frequente) nos personagens de Guerra. Os personagens est\u00e3o em busca de si mesmos, ora giram em falso, ora se transformam. \u00c9 poss\u00edvel escolher se o pa\u00eds \u00e9 pano de fundo da sua ambiguidade ou, ao contr\u00e1rio, se os personagens \u00e9 que s\u00e3o levados pelos acontecimentos que definem o Brasil.<\/p>\n<p>Assim ser\u00e1 tamb\u00e9m em &#8220;Kuarup&#8221;, de 1989. Ali encontramos o padre Nando em 1954, mas em 1961 ele virou um funcion\u00e1rio do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios, e tr\u00eas anos depois, o que ent\u00e3o se chamava um subversivo -e devidamente torturado.<\/p>\n<p>No meio do caminho, tr\u00eas crises -1954 (morte de Get\u00falio), 1961 (ren\u00fancia de J\u00e2nio), 1964 (golpe e deposi\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart). E depois disso Nando est\u00e1 pronto para partir ao ex\u00edlio para casar com a mo\u00e7a a quem sempre amou.<\/p>\n<p>Autor de filmes quase sempre masculinos, em &#8220;Kuarup&#8221;, Guerra se embrenha na Amaz\u00f4nia na companhia de um grupo de atrizes heterog\u00eaneo -Fernanda Torres, Cl\u00e1udia Raia, Cl\u00e1udia Ohana, Luc\u00e9lia Santos, Mait\u00ea Proen\u00e7a- e parece disposto a buscar o m\u00e1ximo de beleza de cada uma, algo que parece vir de dentro e chegar \u00e0 pele, uma beleza que partilham com a natureza amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Ah, sim, nesse trajeto cheio de idas e vindas, imposs\u00edvel passar sobre Cuba e Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez. De Garc\u00eda Marquez -por anos diretor da escola de cinema de Cuba- foi parceiro em &#8220;Er\u00eandira&#8221;, de 1983, &#8220;A Bela Palomera&#8221;, de 1988, e &#8220;O Veneno da Madrugada&#8221;, de 2005. E em Cuba dirigiu a miniss\u00e9rie &#8220;Me Alquilo para So\u00f1ar&#8221;, de 1992, que escreveram em conjunto.<\/p>\n<p>Nada dessa parceria, no entanto, iguala a surpresa que foi &#8220;\u00d3pera do Malandro&#8221;, de 1986. Como em outras vezes, a produ\u00e7\u00e3o era francesa (de Marin Karmitz) -para algo o ex\u00edlio h\u00e1 de servir-, mas t\u00e9cnicos e atores totalmente brasileiros, num pa\u00eds sem outra tradi\u00e7\u00e3o nos musicais que n\u00e3o a chanchada.<\/p>\n<p>&#8220;\u00d3pera&#8221; parece um desses filmes do puro prazer de filmar, de estar l\u00e1, de criar o que parecia imposs\u00edvel, um musical que brilha como se fosse Hollywood, mas tem a cara perfeita de um filme brasileiro.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o \u00faltimo de seus filmes lan\u00e7ados no Brasil, &#8220;Quase Mem\u00f3ria&#8221;, de 2015, est\u00e1 no lado oposto, no que diz respeito a encanto. Ainda assim, parece muito melhor do que viver sob o jugo de &#8220;um paranoico&#8221; (ou seja, Bolsonaro). E, como se n\u00e3o bastasse, enfrentando uma pandemia que imobiliza o cineasta.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o, em todo caso, o poeta. Sua obra \u00e9 celebrada bem quando, trancado, \u00e9 for\u00e7ado a abdicar da linguagem das imagens. O que o salva \u00e9 a palavra, a poesia a que se dedica todos os dias. Enfim, \u00e0 l\u00edngua, a que adotou por p\u00e1tria, como Pessoa. E onde busca uma defini\u00e7\u00e3o (parcial) de si mesmo, como neste poema dos anos 1970.<\/p>\n<p>&#8220;Vivo sobre um corpo de mulher\/ que faz de mim gato e sapato\/ que me foge e me desfolha\/ e brinca de gato e rato\/ Vivo sobre tr\u00eas continentes\/ e isso n\u00e3o me cont\u00e9m\/ a raiva que trago nos dentes\/ n\u00e3o sei se me faz mal ou bem\/ Vivo \u00e0 sombra de um t\u00fanel\/ do outro lado do sol\/ e nesta clave dif\u00edcil\/ me sustento num bemol.&#8221;<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Cultura<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1793087\/ruy-guerra-aos-90-anos-diz-se-sentir-estrangeiro-como-nos-tempos-do-cinema-novo?utm_source=rss-cultura&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;Costumo pensar que sou 10% portugu\u00eas, 20% mo\u00e7ambicano e 30%<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":4355,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4354","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4354","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4354"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4354\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4355"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4354"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4354"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4354"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}