{"id":37424,"date":"2021-10-09T12:08:20","date_gmt":"2021-10-09T15:08:20","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/10\/09\/muita-gente-morreu-por-falta-de-atendimento-adequado-diz-ludhmila-hajjar\/"},"modified":"2021-10-09T12:08:20","modified_gmt":"2021-10-09T15:08:20","slug":"muita-gente-morreu-por-falta-de-atendimento-adequado-diz-ludhmila-hajjar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/10\/09\/muita-gente-morreu-por-falta-de-atendimento-adequado-diz-ludhmila-hajjar\/","title":{"rendered":"Muita gente morreu por falta de atendimento adequado, diz Ludhmila Hajjar"},"content":{"rendered":"<p>ANA BOTTALLO E GIULIANA DE TOLEDO<br \/>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; O avan\u00e7o da vacina\u00e7\u00e3o e a expectativa criada por resultados positivos de medicamentos contra o coronav\u00edrus -como a p\u00edlula da MSD- n\u00e3o devem tirar o foco de que o principal para o paciente ainda \u00e9 o atendimento adequado.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>A opini\u00e3o \u00e9 da cardiologista Ludhmila Hajjar, intensivista da Rede D&#8217;Or S\u00e3o Luiz, professora da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora de UTI de Covid no Hospital das Cl\u00ednicas de S\u00e3o Paulo. Em mar\u00e7o, ela recusou convite para ser ministra da Sa\u00fade no governo Bolsonaro, ap\u00f3s a sa\u00edda de Eduardo Pazuello.<\/p>\n<p>Acostumada a tratar de pol\u00edticos e celebridades, ela afirma que falta ao pa\u00eds uma padroniza\u00e7\u00e3o do atendimento para enfrentar a Covid nas redes p\u00fablica e privada. Desde o in\u00edcio da pandemia, o Brasil registra 600 mil mortes pela doen\u00e7a.<br \/>&#8220;N\u00f3s j\u00e1 aprendemos que o principal para essa doen\u00e7a s\u00e3o boas condi\u00e7\u00f5es de atendimento, suporte estrutural, equipe m\u00e9dica, n\u00e3o morrer de infec\u00e7\u00e3o bacteriana. Mas n\u00f3s n\u00e3o descobrimos uma medica\u00e7\u00e3o milagrosa&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 sua rotina corrida, n\u00e3o raro com mais de 18 horas de trabalho, a m\u00e9dica falou \u00e0 Folha de S.Paulo o que funciona na hora de cuidar de pacientes com Covid e contou ainda resultados da pesquisa que liderou com tocilizumabe, anticorpo monoclonal que n\u00e3o demonstrou benef\u00edcio contra a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>PERGUNTA &#8211; Atualmente, a senhora \u00e9 a pesquisadora principal de 15 estudos cl\u00ednicos, o mais recente a ser conclu\u00eddo foi com tocilizumabe. Qual foi o resultado?<\/p>\n<p>LUDHMILA HAJJAR &#8211; O tocilizumabe \u00e9 uma medica\u00e7\u00e3o j\u00e1 aprovada h\u00e1 anos para o tratamento da artrite reumatoide. N\u00f3s descobrimos que, nas formas graves de Covid, com comprometimento respirat\u00f3rio, tamb\u00e9m h\u00e1 uma libera\u00e7\u00e3o aumentada de fatores inflamat\u00f3rios. Foi da\u00ed a ideia de fazer um estudo para avaliar o tocilizumabe, ainda em abril de 2020, mas meu projeto n\u00e3o foi aprovado no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade por falta de recursos.<br \/>Na mesma \u00e9poca, a OMS [Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade] iniciou um grande estudo com essa droga, o Recovery. S\u00f3 bem tardiamente meu projeto foi aprovado em um edital do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico], e o ensaio cl\u00ednico come\u00e7ou apenas em janeiro deste ano.<br \/>Mesmo assim, \u00e9 um estudo bastante importante. Finalizamos agora, com 308 pacientes, em estado grave, no HC [da USP]. Nosso resultado foi que o tocilizumabe n\u00e3o adicionou nenhum benef\u00edcio em termos de chance de o paciente ser intubado ou de reduzir a mortalidade.<br \/>Al\u00e9m do nosso, h\u00e1 oito estudos menores j\u00e1 publicados e o grande estudo da OMS, que foi o \u00fanico com resultado positivo. Mas eles tiveram 4.000 pacientes em cada bra\u00e7o, e um benef\u00edcio pequeno nesse caso j\u00e1 tem poder estat\u00edstico. Foi isso que deixou todo mundo interessado e subiu com o pre\u00e7o do rem\u00e9dio. Uma corrida desnecess\u00e1ria e n\u00e3o baseada em evid\u00eancias cient\u00edficas.<\/p>\n<p>P. &#8211; O que sabemos hoje que funciona para a evitar a mortalidade?<br \/>LH &#8211; N\u00f3s j\u00e1 aprendemos que o principal para essa doen\u00e7a s\u00e3o boas condi\u00e7\u00f5es de atendimento: n\u00e3o morrer de infec\u00e7\u00e3o bacteriana, ter ventila\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica n\u00e3o invasiva, intubar adequadamente e no momento certo. N\u00e3o descobrimos uma medica\u00e7\u00e3o milagrosa, algo que v\u00e1 modificar a sobrevida do paciente. N\u00e3o adianta focar no remdesivir [antiviral aprovado pela Anvisa], no tocilizumabe&#8230; O nosso foco, \u00f3bvio, tem que ser em preven\u00e7\u00e3o, mas, quando temos o paciente infectado, temos que focar na estrutura, no treinamento das equipes e no atendimento. Isso \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p>P. &#8211; Como deve ser o trabalho das equipes? E qual \u00e9 a estrutura necess\u00e1ria?<br \/>LH &#8211; O que eu vi cuidando de gente em todo o Brasil: muitos doentes morreram porque demoraram para intubar, porque n\u00e3o sabiam intubar ou porque ap\u00f3s a intuba\u00e7\u00e3o a press\u00e3o despencou, e n\u00e3o conseguiram ressuscitar. Muita morte tamb\u00e9m por infec\u00e7\u00e3o bacteriana, pelas condi\u00e7\u00f5es estruturais. N\u00e3o adianta s\u00f3 comprar o respirador. As pessoas est\u00e3o treinadas para us\u00e1-lo? Tem tomografia no hospital? Tem radiografia? Tem fisioterapeuta?<br \/>Nessa doen\u00e7a, e nas doen\u00e7as virais em geral, como a dengue, n\u00e3o temos um tratamento espec\u00edfico que v\u00e1 mudar [o curso da doen\u00e7a], mas sim o suporte.<\/p>\n<p>P. &#8211; Nenhum dos anticorpos monoclonais, inclusive os que foram aprovados pela Anvisa, d\u00e1 bom custo-benef\u00edcio?<br \/>LH &#8211; D\u00e3o, mas os anticorpos monoclonais s\u00e3o para uma outra fase da doen\u00e7a, o in\u00edcio. Os estudos s\u00e3o positivos para pacientes que tiveram diagn\u00f3stico e t\u00eam alto risco para complicar, recebem o anticorpo monoclonal e reduzem significativamente a sua chance de hospitaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>P. &#8211; Esse \u00e9 o modelo adotado nos EUA, certo?<br \/>LH &#8211; Exatamente. Voc\u00ea &#8220;captura&#8221; o doente que \u00e9 idoso, obeso, diab\u00e9tico, cardiopata ou j\u00e1 tem carga viral alta, com perfil inflamat\u00f3rio, e trata com o coquetel no hospital.<\/p>\n<p>P. &#8211; Do ponto de vista medicamentoso, o que faz diferen\u00e7a ent\u00e3o?<br \/>LH &#8211; Para o paciente n\u00e3o ser hospitalizado, anticorpos monoclonais. E, para o doente hospitalizado, a medica\u00e7\u00e3o que foi invariavelmente positiva [nos estudos] foi a dexametasona [corticoster\u00f3ide], que \u00e9 barata e tem na rede p\u00fablica. Tamb\u00e9m foi adotado o anticoagulante que, aparentemente, na dose preventiva \u00e9 melhor -e heparina tamb\u00e9m \u00e9 barata e tem em todo lugar-, para evitar co\u00e1gulos.<br \/>J\u00e1 o remdesivir \u00e9 uma medica\u00e7\u00e3o que, caso tivesse em ampla escala, seria usada, mas o benef\u00edcio \u00e9 marginal. O maior estudo da droga mostrou que numa popula\u00e7\u00e3o de 1.092 pacientes ele diminuiu o tempo de doen\u00e7a, mas n\u00e3o reduziu a mortalidade ou a chance de intuba\u00e7\u00e3o.<br \/>A dose completa de remdesivir custa R$ 25 mil. A ANS [Ag\u00eancia Nacional de Sa\u00fade Suplementar] fez com que os planos de sa\u00fade pagassem, mas o SUS [Sistema \u00danico de Sa\u00fade] n\u00e3o introduziu isso na pr\u00e1tica cl\u00ednica. N\u00e3o critico. Se h\u00e1 um investimento, que ele seja priorizado no que realmente muda a l\u00f3gica de tratamento dos pacientes. E, no caso desta doen\u00e7a, \u00e9 o tratamento de suporte. Isso est\u00e1 claro.<\/p>\n<p>P. &#8211; Por atuar tanto na rede p\u00fablica quanto privada, acha que h\u00e1 ainda muita diferen\u00e7a no atendimento para Covid entre elas?<br \/>LH &#8211; Existe, como sempre existiu, em tudo: na estrutura hospitalar, no fato de que eu tenho remdesivir na rede privada e n\u00e3o tenho na p\u00fablica. Tanto \u00e9 que os dados s\u00e3o indiscut\u00edveis, \u00e9 melhor a sobrevida de um paciente no privado do que no p\u00fablico. Infelizmente.<br \/>Essa disparidade ficou mais evidente nesta doen\u00e7a, mas \u00e9 claro que a rede p\u00fablica fez o seu papel. Em um pa\u00eds do tamanho do Brasil, se n\u00e3o houvesse acesso universal, ter\u00edamos muito mais mortos. Mas, do ponto de vista de quem est\u00e1 na linha de frente e vive as duas realidades, \u00e9 muito diferente. E n\u00e3o deveria ser.<br \/>Sei que \u00e9 imposs\u00edvel ter a estrutura de um hospital n\u00edvel A para 210 milh\u00f5es de habitantes, mas o m\u00ednimo de qualidade de atendimento e de estrutura \u00e9 um direito do cidad\u00e3o. A gente paga por isso.<\/p>\n<p>P. &#8211; Quanta gente morreu sem transporte, ou porque parou no posto de sa\u00fade e n\u00e3o teve atendimento complexo?<br \/>LH &#8211; Porque n\u00e3o tinha um intensivista ou fisioterapeuta? Ou vaga de UTI? A gente j\u00e1 vivia um d\u00e9ficit de leitos, aumentamos em milhares de leitos e treinamos pessoal, mas isso aconteceu tarde.<br \/>Em rela\u00e7\u00e3o aos procedimentos nos hospitais, caso tivesse aceitado o convite para ser ministra, o que teria feito?<br \/>Primeiro, teria equilibrado o tratamento do ponto de vista de treinamento. Isso daria para ser feito a curto prazo. Colocaria as universidades para ter um p apel mais ativo, faria boas parcerias p\u00fablico-privadas. N\u00f3s temos tantas faculdades particulares sem hospital e tantos hospitais p\u00fablicos com falta de recursos, n\u00e3o seria t\u00e3o dif\u00edcil. Em segundo lugar, faria uma desburocratiza\u00e7\u00e3o, no sentido de incorporar novas tecnologias e medicamentos, encurtando o tempo para avali\u00e1-los.<\/p>\n<p>P. &#8211; O principal desafio do atual ministro, Marcelo Queiroga, \u00e9 a campanha de vacina\u00e7\u00e3o. Como avalia essa fase? Poderia ter ido melhor?<br \/>LH &#8211; Sem d\u00favida, mas a gente teve um ganho nos \u00faltimos meses. [A vacina\u00e7\u00e3o] demorou para come\u00e7ar, mas felizmente os n\u00fameros est\u00e3o aumentando e isso resulta na redu\u00e7\u00e3o significativa de mortes. H\u00e1 ainda muita politiza\u00e7\u00e3o, coisas que acabam atrapalhando a velocidade, mas avan\u00e7amos e agora temos leitos dispon\u00edveis para tratar outros doentes.<\/p>\n<p>P. &#8211; Passado esse tempo, fica aliviada de ter recusado o minist\u00e9rio?<br \/>LH &#8211; Sem d\u00favida \u00e9 um al\u00edvio. Tenho certeza que n\u00e3o conseguiria fazer o que eu pretendia. N\u00e3o foi uma indica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas, sim, porque eu estava me destacando no combate \u00e0 Covid. Eu n\u00e3o seria feliz estando ali. Se tivesse uma op\u00e7\u00e3o de ter um cargo estritamente t\u00e9cnico no combate \u00e0 pandemia, seria outra hist\u00f3ria, mas n\u00e3o como pol\u00edtica.<\/p>\n<p>P. &#8211; Como a sua rotina, que j\u00e1 era agitada, foi afetada pela pandemia?<br \/>LH &#8211; Agitou mais cem vezes (risos). Eu n\u00e3o tinha noite, n\u00e3o tinha dia, n\u00e3o tinha final de semana. Foi mais de um ano de dedica\u00e7\u00e3o total. Dormia &#8220;picado&#8221;, por algumas horas.<br \/>A vida do profissional da sa\u00fade mudou, mas n\u00f3s aprendemos, tivemos muitas vit\u00f3rias, al\u00e9m de, claro, termos sofrido tamb\u00e9m junto com as pessoas. Na \u00e9poca [da crise] de Manaus, eu fiquei muito chateada. Muitos pacientes foram transferidos para c\u00e1 [S\u00e3o Paulo] e acho que fui a m\u00e9dica daqui que mais cuidou dos amazonenses. Foi realmente uma experi\u00eancia de vida. A gente viveu nos limites da morte e da vida. Essa doen\u00e7a \u00e9 esquisita demais.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/1849722\/muita-gente-morreu-por-falta-de-atendimento-adequado-diz-ludhmila-hajjar?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANA BOTTALLO E GIULIANA DE TOLEDOS\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; O avan\u00e7o da vacina\u00e7\u00e3o e<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":37425,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-37424","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37424","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37424"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37424\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37425"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37424"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37424"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37424"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}