{"id":3666,"date":"2021-04-04T15:08:35","date_gmt":"2021-04-04T18:08:35","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/04\/04\/livro-com-cartas-para-carolina-maria-de-jesus-abriga-empatia-e-revolta\/"},"modified":"2021-04-04T15:08:35","modified_gmt":"2021-04-04T18:08:35","slug":"livro-com-cartas-para-carolina-maria-de-jesus-abriga-empatia-e-revolta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/04\/04\/livro-com-cartas-para-carolina-maria-de-jesus-abriga-empatia-e-revolta\/","title":{"rendered":"Livro com cartas para Carolina Maria de Jesus abriga empatia e revolta"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 sob os efeitos do reconhecimento de um direito que \u00e9 proporcionado por uma &#8220;irm\u00e3&#8221; negra de outro pa\u00eds que &#8220;Cartas a uma Negra&#8221;, da escritora martinicana Fran\u00e7oise Ega, radicada na Fran\u00e7a e morta em 1976, se estrutura em um di\u00e1logo com uma escritora brasileira, a quem as cartas s\u00e3o dirigidas. &#8220;Pois \u00e9, Carolina, as mis\u00e9rias dos pobres do mundo inteiro se parecem como irm\u00e3s. Todos leem voc\u00ea por curiosidade, j\u00e1 eu jamais a lerei; tudo que voc\u00ea escreveu, eu conhe\u00e7o&#8221;.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Ega nunca teve tempo de ler a tradu\u00e7\u00e3o francesa de &#8220;Quarto de Despejo&#8221;, de Carolina Maria de Jesus, em fun\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o que o trabalho dom\u00e9stico e a maternidade ocupavam na sua vida como imigrante antilhana. Contudo, conhecer a trajet\u00f3ria de Carolina Maria em uma reportagem da revista Paris Match foi suficiente para que ela empreendesse uma escrita que, como defendia a escritora afro-americana Toni Morrison, n\u00e3o fosse capturada pelo olhar branco. Ou seja, que n\u00e3o estivesse preocupada em atender expectativas alheias \u00e0 pr\u00f3pria complexidade que a experi\u00eancia negra.<\/p>\n<p>Assim, ao estabelecer Carolina como destinat\u00e1ria de suas cartas, Ega desestabilizou a proje\u00e7\u00e3o de um leitor universal -e, portanto, branco-, contando seu dia a dia e suas reflex\u00f5es em meio a uma experimenta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua com a linguagem, para algu\u00e9m que compreendia os seus &#8220;gestos ancestrais&#8221;.<\/p>\n<p>Afinal, &#8220;n\u00f3s n\u00e3o falamos o mesmo idioma, \u00e9 verdade, mas o do nosso cora\u00e7\u00e3o \u00e9 o mesmo, e faz bem se encontrar em algum lugar, naquele lugar onde nossas almas se cruzam&#8221;, escreve ela. Nesse movimento, imagens tragicamente belas s\u00e3o criadas, em que a pobreza, por exemplo, \u00e9 descrita como &#8220;o mesmo sol&#8221; que &#8220;brilha sobre suas tristes vidas&#8221;.<\/p>\n<p>Num idioma afetivo e ancestral, Fran\u00e7oise Ega descortina para Carolina, sem precisar se explicar demasiadamente ou legitimar sua experi\u00eancia, os improvisos, estrat\u00e9gias, sonhos, desejos e subvers\u00f5es subterr\u00e2neas de mulheres negras que, embora confinadas a um trabalho prec\u00e1rio e bra\u00e7al, nunca perderam a percep\u00e7\u00e3o de si mesmas e a busca por uma autodefini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Ega faz das cartas um lugar de repara\u00e7\u00e3o, de vingan\u00e7a, de solidariedade e de afirma\u00e7\u00e3o da sua revolta. Como responde ao ser questionada por uma patroa. &#8220;Uma negra indignada, n\u00e3o d\u00e1 pra ver?&#8221;<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o livro tamb\u00e9m evidencia como h\u00e1 uma vida al\u00e9m do trabalho dom\u00e9stico, uma vida que \u00e9 celebrada e dan\u00e7ada, em que os corpos antes ajoelhados esfregando ch\u00e3os alheios, vibram, por exemplo, em um casamento. &#8220;Dan\u00e7amos, esquecemos as patroas, esquecemos os rancores. S\u00f3 pensamos na felicidade de C\u00e9cile&#8221;, ou num baile onde o dinheiro obtido em &#8220;longas horas de faxinas&#8221; \u00e9 usado para &#8220;comprar vestidos t\u00e3o bonitos&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, \u00e9 na literatura que Ega pode, ap\u00f3s mais um dia exaustivo de trabalho, se livrar do &#8220;cheiro da vida dos outros&#8221; -o aspecto que julga mais penoso de seu trabalho dom\u00e9stico- e sentir o cheiro da sua pr\u00f3pria vida, de sua fam\u00edlia e de seu povo. Mais do que isso, ela pode tamb\u00e9m responder todos os dias \u00e0 pergunta ir\u00f4nica que faz num trecho do livro. &#8220;Eu tinha mesmo direito de maltratar a l\u00edngua de Moli\u00e8re? Eu, uma pobre negra?&#8221;<\/p>\n<p>Sim, tinha. E, assim como Carolina interroga se &#8220;o negro n\u00e3o tem direito de pronunciar o cl\u00e1ssico?&#8221; enquanto continua pronunciando o cl\u00e1ssico em seu projeto liter\u00e1rio, Fran\u00e7oise Ega, ao &#8220;maltratar&#8221; a l\u00edngua francesa contando sua vida, reconstitui dores e belezas, ang\u00fastias e alegrias que revelam n\u00e3o uma &#8220;pobre negra&#8221; ou a &#8220;faxineira&#8221;, mas Mam\u00e9ga -apelido carinhoso baseado na contra\u00e7\u00e3o cr\u00e9ole de &#8220;madame&#8221; com &#8220;Ega&#8221;- por ela mesma.*Doutoranda em teoria liter\u00e1ria e literatura comparada na USPCARTAS A UMA NEGRA<br \/>Pre\u00e7o: R$ 59,90 (256 p\u00e1gs.); R$ 29,90 (ebook)<br \/>Autor: Fran\u00e7oise Ega<br \/>Editora: Todavia<br \/>Tradu\u00e7\u00e3o: Vin\u00edcius Carneiro e Mathilde Moaty<br \/>Avalia\u00e7\u00e3o: \u00f3timo<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Cultura<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1792248\/livro-com-cartas-para-carolina-maria-de-jesus-abriga-empatia-e-revolta?utm_source=rss-cultura&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 sob os efeitos do reconhecimento de um direito que \u00e9 proporcionado por uma &#8220;irm\u00e3&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":3667,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3666","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3666"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3666\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3667"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}