{"id":36481,"date":"2021-10-04T09:08:51","date_gmt":"2021-10-04T12:08:51","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/10\/04\/estudo-sobre-desonestidade-e-invalidado-por-suspeita-de-fraude-2\/"},"modified":"2021-10-04T09:08:51","modified_gmt":"2021-10-04T12:08:51","slug":"estudo-sobre-desonestidade-e-invalidado-por-suspeita-de-fraude-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/10\/04\/estudo-sobre-desonestidade-e-invalidado-por-suspeita-de-fraude-2\/","title":{"rendered":"Estudo sobre desonestidade \u00e9 invalidado por suspeita de fraude"},"content":{"rendered":"<p>S\u00c3O CARLOS, SP (FOLHAPRESS) &#8211; A ironia do caso tem atra\u00eddo a aten\u00e7\u00e3o de muita gente: uma pesquisa sobre os mecanismos psicol\u00f3gicos da desonestidade que acabou sendo retratada (grosso modo, &#8220;despublicada&#8221;) por causa de&#8230; dados aparentemente fraudados.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Parte do burburinho em torno da situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem a ver com a relativa celebridade do pesquisador respons\u00e1vel pela presen\u00e7a de informa\u00e7\u00f5es enganosas no estudo. Trata-se do economista comportamental israelense-americano Dan Ariely, professor da Universidade Duke (sul dos EUA).<\/p>\n<p>Autor de tr\u00eas best-sellers, palestrante de sucesso na internet e colunista do jornal The Wall Street Journal, Ariely tamb\u00e9m \u00e9 autor de &#8220;A (Honesta) Verdade Sobre a Desonestidade: Como Mentimos Para Todo Mundo, Especialmente para N\u00f3s Mesmos&#8221;.<\/p>\n<p>O estudo que tem colocado o especialista na berlinda foi publicado em agosto de 2012 no peri\u00f3dico especializado PNAS, da Academia Nacional de Ci\u00eancias dos EUA. No trabalho, Ariely e mais quatro coautores de diferentes institui\u00e7\u00f5es afirmam ter identificado uma medida simples para aumentar a honestidade das pessoas em diferentes contextos.<\/p>\n<p>Segundo o estudo, bastaria que as pessoas assinassem um formul\u00e1rio afirmando &#8220;Sim, vou transmitir informa\u00e7\u00f5es fidedignas&#8221; antes de participar de diferentes atividades para que elas se comportassem de forma substancialmente mais honesta. Colocar a assinatura nessa afirma\u00e7\u00e3o depois da atividade n\u00e3o teria o mesmo efeito, sugere o estudo.<\/p>\n<p>O grupo testou essa hip\u00f3tese por meio de diferentes experimentos, mas a controv\u00e9rsia surgiu por causa dos n\u00fameros suspeitos do experimento 3, no qual foram analisadas informa\u00e7\u00f5es supostamente obtidas com a ajuda de uma companhia de seguros de carros que Ariely havia contatado.<\/p>\n<p>De acordo com os autores da pesquisa, os dados da quilometragem de cerca de 20 mil carros cadastrados na seguradora indicavam que, quando a pessoa primeiro assinava a declara\u00e7\u00e3o de honestidade e depois preenchia as outras informa\u00e7\u00f5es, a quilometragem relatada era mais alta, em m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Isso seria um sinal de que a presen\u00e7a da assinatura no topo do formul\u00e1rio de fato levava a um preenchimento mais fidedigno, j\u00e1 que a quilometragem mais alta tende a aumentar as taxas cobradas pela seguradora. Os resultados acabaram se tornando mais um exemplo de como pequenas altera\u00e7\u00f5es situacionais s\u00e3o capazes de afetar positivamente o comportamento humano.<br \/>No entanto, membros da mesma equipe tentaram reproduzir esses resultados em estudos posteriores, sem sucesso, o que acendeu um sinal amarelo sobre as conclus\u00f5es da pesquisa e sobre o especialista da Universidade Duke. &#8220;<\/p>\n<p>&#8220;Basicamente, o \u00fanico que tinha acesso \u00e0 coleta dos dados de campo era o pr\u00f3prio Ariely. Os outros autores ajudaram na an\u00e1lise e discuss\u00e3o dos resultados&#8221;, explica Altay de Souza, pesquisador do Departamento de Psicologia da Unifesp (Universidade Federal de S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que entrou em cena o trio de pesquisadores formado por Uri Simonsohn, Leif Nelson e Joe Simmons, respons\u00e1veis pelo blog DataColada, em que analisam quest\u00f5es controversas sobre dados de estudos comportamentais. A equipe do blog (junto com outros pesquisadores que os ajudaram de forma an\u00f4nima) ficou co\u00e7ando a cabe\u00e7a diante de algumas estranhezas nas informa\u00e7\u00f5es da pesquisa original.<\/p>\n<p>Com base em informa\u00e7\u00f5es de outras companhias de seguro, eles chegaram ao que seria a propor\u00e7\u00e3o esperada de quil\u00f4metros rodados pelos segurados. &#8220;Como seria de se esperar, vemos que algumas pessoas dirigem muito, outras dirigem pouco e a maioria fica na m\u00e9dia&#8221;, escrevem eles.<\/p>\n<p>Acontece, por\u00e9m, que os dados supostamente obtidos por Ariely fogem totalmente desse padr\u00e3o intuitivo. Grupos exatamente iguais de motoristas dirigiram 0, 10 mil, 20 mil, 30 mil, 40 mil e 50 mil milhas (unidade de medida empregada normalmente nos EUA). E absolutamente ningu\u00e9m ultrapassou as 50 mil milhas no per\u00edodo estudado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, depois que os donos dos carros assinaram os formul\u00e1rios, as quilometragens (ou milhagens) relatadas n\u00e3o incluem nenhum arredondamento. Ou seja, todos os participantes supostamente olhavam o hod\u00f4metro e anotavam com exatid\u00e3o os n\u00fameros -25,673 mil quil\u00f4metros rodados, digamos. Outros estudos, por\u00e9m, mostram que \u00e9 muito comum as pessoas arredondarem esse tipo de n\u00famero em formul\u00e1rios.<br \/>Ambos os fatores indicavam que os dados poderiam ter sido gerados automaticamente usando n\u00fameros aleat\u00f3rios. Segundo a equipe do DataColada, embora n\u00e3o seja poss\u00edvel ter certeza sobre quem manipulou as informa\u00e7\u00f5es e por qual motivo, &#8220;n\u00e3o precisamos saber a resposta a essas perguntas para saber que os dados foram fabricados, sem sombra de d\u00favida&#8221;.<\/p>\n<p>Alguns dos autores da pesquisa original j\u00e1 tinham se declarado favor\u00e1veis a retratar o artigo, ou seja, torn\u00e1-lo inv\u00e1lido, quando n\u00e3o conseguiram replicar os resultados em estudos subsequentes. Quando a an\u00e1lise do DataColada saiu, a coautora Lisa Shu tuitou: &#8220;Foi um deleite ver esse trabalho brilhante de jornalismo investigativo de dados&#8221;. O artigo, por fim, acabou sendo invalidado pela revista PNAS.<\/p>\n<p>Em mensagem ao blog, Ariely disse que o processo de coleta e tabula\u00e7\u00e3o dos dados foi feito inteiramente pela seguradora e reafirmou que s\u00f3 ele tinha tido contato com a empresa.<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o suspeitava que houvesse algum problema com os dados e n\u00e3o fiz testes para verificar se eles continham irregularidades, coisa que, depois dessa li\u00e7\u00e3o dolorosa, come\u00e7arei a fazer regularmente&#8221;, afirmou ele.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o pode ser vista como um problema mais amplo desse tipo de estudo comportamental com seres humanos: a \u00e1rea tem sofrido s\u00e9rias dificuldades no que diz respeito \u00e0 replica\u00e7\u00e3o de estudos antes considerados cl\u00e1ssicos. Essa chamada crise de replicabilidade afeta at\u00e9 ganhadores do Nobel de economia, como o israelense Daniel Kahneman (ali\u00e1s, editor original do artigo despublicado).<\/p>\n<p>&#8220;O Kahneman tem sido bem honesto sobre isso, chegou a mandar uma carta aberta para a revista cient\u00edfica Nature chamando a aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de reproduzir estudos cl\u00e1ssicos&#8221;, diz Altay de Souza. &#8220;Ele desceu o sarrafo no pessoal das \u00e1reas de economia comportamental e marketing que n\u00e3o usam a teoria dele como teoria, mas como argumento de autoridade.&#8221;<\/p>\n<p>Para o pesquisador da Unifesp, o caso envolvendo Ariely \u00e9 mais um alerta sobre a necessidade de transpar\u00eancia na \u00e1rea, com a postagem imediata dos dados brutos de cada estudo junto com a publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Mundo<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/1848195\/estudo-sobre-desonestidade-e-invalidado-por-suspeita-de-fraude?utm_source=rss-mundo&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O CARLOS, SP (FOLHAPRESS) &#8211; A ironia do caso tem atra\u00eddo a aten\u00e7\u00e3o de muita<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":36482,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-36481","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36481","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36481"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36481\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36482"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36481"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36481"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36481"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}