{"id":36251,"date":"2021-10-02T12:08:46","date_gmt":"2021-10-02T15:08:46","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/10\/02\/performance-e-o-meio-de-sobrevivencia-millennial\/"},"modified":"2021-10-02T12:08:46","modified_gmt":"2021-10-02T15:08:46","slug":"performance-e-o-meio-de-sobrevivencia-millennial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/10\/02\/performance-e-o-meio-de-sobrevivencia-millennial\/","title":{"rendered":"Performance \u00e9 o meio de sobreviv\u00eancia millennial"},"content":{"rendered":"<p>FERNANDA PERRIN<br \/>FOLHAPRESS &#8211; Jia Tolentino \u00e9 apenas tr\u00eas anos mais velha do que eu. Quando adolescentes, vivemos a era de ouro dos blogs. Criamos um perfil no Facebook mais ou menos na mesma \u00e9poca, h\u00e1 mais de dez anos, e vimos, desde ent\u00e3o, uma multiplica\u00e7\u00e3o das nossas identidades virtuais a cada nova rede social que surgia.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Compartilhamos todo um repert\u00f3rio cultural alimentado pela internet, n\u00e3o obstante a enorme dist\u00e2ncia que nos separa: ela, uma canadense, filha de filipinos criada no Texas, e eu, uma brasileira branca que morou em S\u00e3o Paulo quase a vida toda.<\/p>\n<p>Hoje, ambas vivemos, de certa forma, como produtoras de conte\u00fado distribu\u00eddo online (Tolentino trabalha como jornalista na revista The New Yorker). \u00c9 pela internet que nos sustentamos, consumimos, nos relacionamos, educamos. Nela, somos.<\/p>\n<p>O que nos une, fundamentalmente, \u00e9 termos crescido junto com esse novo universo, nos descobrindo enquanto a internet tamb\u00e9m se descobria -aquele mundo de salas de bate papo e geocities parece t\u00e3o ing\u00eanuo quanto eu era aos 12 anos, quando comparado \u00e0 intrincada rede de del\u00edrio e egocentrismo atual.<\/p>\n<p>Essa experi\u00eancia geracional sem precedentes \u00e9 o denominador comum dos millennials, como s\u00e3o chamados os (j\u00e1 nem t\u00e3o) jovens nascidos entre o final dos anos 1980 e o come\u00e7o dos 1990.<br \/>Em &#8220;Falso Espelho&#8221;, o que Jia faz \u00e9 investigar a imagem refletida nessas telas. Nesse processo de olhar para si -n\u00e3o fica mais millennial que isso-, desmistifica e problematiza tra\u00e7os comuns a toda essa gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o nove ensaios que tocam temas diversos, de literatura a golpes e viol\u00eancia sexual, passando at\u00e9 pela experi\u00eancia da autora como participante de um reality show juvenil.<\/p>\n<p>Subjacente a esse card\u00e1pio variado est\u00e1 a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que avassalou nossas identidades, desejos e meios de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Tudo recebe um verniz perform\u00e1tico, a apar\u00eancia sobrepondo-se ao ato, o discurso, \u00e0 pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Claro que a performance n\u00e3o foi inventada pelos millennials, mas se antes os momentos de representa\u00e7\u00e3o tinham come\u00e7o e fim -durante uma entrevista de trabalho, em um jantar com amigos-, agora, com a internet, h\u00e1 um p\u00fablico em tempo integral. O show nunca acaba.<\/p>\n<p>&#8220;A loucura cotidiana perpetuada pela internet \u00e9 a loucura dessa arquitetura que instala a identidade pessoal no centro do universo. \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos em um posto de observa\u00e7\u00e3o olhando para o mundo inteiro com um bin\u00f3culo que faz tudo se parecer com nosso pr\u00f3prio reflexo&#8221;, escreve Jia.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista inofensivas, as grandes empresas tecnol\u00f3gicas instalaram-se em nosso organismo como parasitas das tend\u00eancias narc\u00edsicas que nos s\u00e3o naturais, sugando personalidades e desejos em dados para venda.<\/p>\n<p>As implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dessas transforma\u00e7\u00f5es s\u00e3o bem trabalhadas pela autora, que escreveu os ensaios durante a campanha que culminou na elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump nos EUA, mas n\u00e3o s\u00e3o an\u00e1lises l\u00e1 muito inovadoras.<\/p>\n<p>Mais interessantes (e \u00e1cidos) s\u00e3o os coment\u00e1rios sobre a engrenagem econ\u00f4mica que move a vida millennial.<\/p>\n<p>A dissemina\u00e7\u00e3o do trabalho freelance e as mudan\u00e7as frequentes de emprego que marcam nossa gera\u00e7\u00e3o, longe de ser consequ\u00eancias da &#8220;flexibilidade&#8221; e &#8220;busca por prop\u00f3sito&#8221; dos jovens, como repetem em mantra os RHs, s\u00e3o a face de um mercado de trabalho cada vez mais inst\u00e1vel e cruel.<\/p>\n<p>Nesse ambiente de incertezas, os millennials adotaram a \u00fanica estrat\u00e9gia que conhecem para sobreviver em busca de alguma estabilidade: a performance, travestida de &#8220;marca pessoal&#8221;.<br \/>&#8220;Nosso potencial social se une \u00e0 nossa capacidade de chamar a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, o que, por sua vez, se torna indissoci\u00e1vel da sobreviv\u00eancia econ\u00f4mica&#8221;, escreve Jia.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica tem efeitos especialmente perversos sobre as mulheres. A &#8220;habilidade de empacotar e transmitir uma imagem&#8221;, como coloca a autora, assim como a autovigil\u00e2ncia, s\u00e3o frequentes entre n\u00f3s, dado que o valor social do feminino historicamente girou em torno da apar\u00eancia.<\/p>\n<p>Nesse sentido, as redes sociais aprofundam e, ao mesmo tempo, d\u00e3o uma escala in\u00e9dita a esse ativo.<\/p>\n<p>A mulher millennial ideal \u00e9 aquela que est\u00e1 em processo constante de &#8220;otimiza\u00e7\u00e3o&#8221;, como se fosse para si mesma um projeto em aperfei\u00e7oamento. Entre rituais de &#8220;skin care&#8221; e &#8220;treinos&#8221; (para qu\u00ea?) na academia, circulamos nessa zona algo rid\u00edcula -mas muito rent\u00e1vel- onde autoconhecimento, autocuidado, autoajuda e baboseiras m\u00edsticas se encontram.<\/p>\n<p>Estamos, enfim, presas no ger\u00fandio de nos tornarmos as mulheres que queremos ser (e consumindo muito para isso). Um pesadelo beauvoiriano.<\/p>\n<p>Na outra ponta, n\u00e3o vemos a mesma &#8220;otimiza\u00e7\u00e3o&#8221; dos nossos sal\u00e1rios, direitos reprodutivos e representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, pontua a autora.<\/p>\n<p>A vertente liberal do feminismo contempor\u00e2neo -insepar\u00e1vel do mundo das redes sociais- refor\u00e7a esse empoderamento vazio. Ao confundir sucesso individual com avan\u00e7o coletivo, esse tipo de feminismo deixa intacta as estruturas de poder que reproduzem a desigualdade de g\u00eanero.<\/p>\n<p>&#8220;Uma pol\u00edtica constru\u00edda em torno de ganhar e gastar dinheiro \u00e9 mais sexy do que uma pol\u00edtica constru\u00edda em torno de pol\u00edtica&#8221;, diz Jia.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 n\u00f3s, como indiv\u00edduos, estamos performando -empresas tamb\u00e9m. Enquanto Ubers e Amazons prometem descomplica\u00e7\u00e3o e &#8220;disrup\u00e7\u00e3o&#8221;, o que vemos \u00e9 um modelo de neg\u00f3cio que &#8220;contorna as regulamenta\u00e7\u00f5es, corta os direitos, evita as responsabilidades e escoa o m\u00e1ximo de dinheiro poss\u00edvel das pessoas que realizam o trabalho f\u00edsico&#8221;, escreve a autora.<\/p>\n<p>O maior trunfo de &#8220;Falso Espelho&#8221; \u00e9 o deslocamento que Jia promove do individual perform\u00e1tico para o coletivo pol\u00edtico. Na forma de ensaios na primeira pessoa, muito calcados nas experi\u00eancias pessoais da autora, a obra n\u00e3o foge completamente \u00e0 est\u00e9tica millennial, mas \u00e9 bem-sucedida em subverter esse mecanismo para apontar as distor\u00e7\u00f5es que ele provoca. Agora, s\u00f3 nos falta uma sa\u00edda.<\/p>\n<p>FALSO ESPELHO<br \/>Avalia\u00e7\u00e3o Muito bom<br \/>Pre\u00e7o 82,90<br \/>Autor Jia Tolentino<br \/>Editora Todavia<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/economia\/1847930\/performance-e-o-meio-de-sobrevivencia-millennial?utm_source=rss-economia&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><br \/>\nNot\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Economia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FERNANDA PERRINFOLHAPRESS &#8211; Jia Tolentino \u00e9 apenas tr\u00eas anos mais velha do que eu. 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