{"id":36163,"date":"2021-10-01T15:09:08","date_gmt":"2021-10-01T18:09:08","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/10\/01\/devolvo-a-portugal-aquilo-que-criamos-na-cultura-brasileira-diz-daniela-mercury\/"},"modified":"2021-10-01T15:09:08","modified_gmt":"2021-10-01T18:09:08","slug":"devolvo-a-portugal-aquilo-que-criamos-na-cultura-brasileira-diz-daniela-mercury","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/10\/01\/devolvo-a-portugal-aquilo-que-criamos-na-cultura-brasileira-diz-daniela-mercury\/","title":{"rendered":"&#8216;Devolvo a Portugal aquilo que criamos na cultura brasileira&#8217;, diz Daniela Mercury"},"content":{"rendered":"<p>GUARULHOS, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Em meados de 1997, Daniela Mercury, ent\u00e3o com 32 anos, estava apreensiva. Era a primeira vez que faria um show em Portugal, e ela temia que sua m\u00fasica afrobaiana n\u00e3o fosse bem recebida.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>&#8220;N\u00e3o entendia muito o que era Portugal -sendo que sou filha de portugu\u00eas&#8221;, conta a artista, 24 anos depois, em entrevista por videochamada ao jornal Folha de S.Paulo.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Abreu, 93, pai de Daniela, nasceu na cidade de Braga e veio para o Brasil com a fam\u00edlia quando tinha seis anos, ap\u00f3s seus tios-av\u00f3s terem desembarcado no pa\u00eds e obtido sucesso no com\u00e9rcio. Fora o que vivera dentro de casa, a cantora, nascida e criada em Salvador, pouco sabia da cultura lusitana.<\/p>\n<p>A apreens\u00e3o logo deu espa\u00e7o a um &#8220;encantamento \u00e0 primeira vista&#8221;. O primeiro de tr\u00eas shows que realizou naquela turn\u00ea foi no Coliseu de Lisboa, num s\u00e1bado de dezembro. Os ingressos esgotaram com um m\u00eas de anteced\u00eancia, e Daniela se surpreendeu com a abertura dos portugueses.<\/p>\n<p>&#8220;Lembro-me bem do roteiro. Come\u00e7ava com &#8216;Nobre Vagabundo&#8217;, uma m\u00fasica que eles amam muito, e todos ouviram sentados. Depois, a segunda m\u00fasica j\u00e1 era &#8216;Rapunzel&#8217;, ent\u00e3o eles se levantaram e dan\u00e7aram. A\u00ed a terceira m\u00fasica come\u00e7ava lenta, e no meio ficava r\u00e1pido.&#8221;<\/p>\n<p>Havia diversidade entre os presentes. Crian\u00e7as, jovens e idosos elogiaram a brasileira ao jornalista Luiz Ant\u00f4nio Riff, enviado especial da Folha que acompanhou a apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Sambei um bocadinho&#8221;, disse ao rep\u00f3rter a portuguesa Am\u00e9lia Ferreira, ent\u00e3o com 65 anos e m\u00e3e de 13 filhos. &#8220;Acho ela gira [legal]. Dan\u00e7a bem, mexe-se muito e tem a cara gira [bonita]&#8221;, comentou Sara Faria, \u00e0 \u00e9poca com 8.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse a receptividade, o show no Coliseu foi tamb\u00e9m o pontap\u00e9 para a conex\u00e3o de Daniela com Portugal. A av\u00f3 Josefina, ent\u00e3o com 95 anos, estava presente. Concertista de piano, ela havia deixado o pa\u00eds de origem havia cinco d\u00e9cadas. &#8220;Foi uma das maiores emo\u00e7\u00f5es da minha vida&#8221;, descreve a artista.<\/p>\n<p>A emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha apenas um pano de fundo pessoal. Mais de duas d\u00e9cadas depois, Daniela lembra do movimento de artistas que, diz ela, devolvia a Portugal, a ex-metr\u00f3pole, um cadinho do que \u00e9 o Brasil. &#8220;Era revolucion\u00e1rio. Teve um dia que participei de um pr\u00eamio e disse: &#8216;Pois \u00e9, os navios negreiros voltaram&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Quando levamos a cultura de volta, devolvemos o nosso olhar sobre tudo que aconteceu conosco. Era uma forma de Portugal entender o que \u00e9 o Brasil, e nada melhor do que a arte para fazer essa devolu\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a carreira se firmou no cen\u00e1rio portugu\u00eas, e a baiana se tornou uma das artistas estrangeiras que mais sucesso fez no pa\u00eds. Somente o disco &#8220;Feij\u00e3o com Arroz&#8221; vendeu mais de 250 mil c\u00f3pias.<\/p>\n<p>Quantos shows j\u00e1 fez em Portugal? Da \u00faltima vez que contou, eram mais de cem -n\u00famero que, para Malu Ver\u00e7osa, 45, \u00e9 subestimado. &#8220;Desde que estamos juntas, j\u00e1 foram mais de 40&#8221;, diz a jornalista e esposa de Daniela. Elas come\u00e7aram a namorar em 2013 e chegaram a casar na ilha do Faial, uma das que comp\u00f5em o arquip\u00e9lago dos A\u00e7ores. De viagem em viagem, a cantora foi compreendendo suas ra\u00edzes e vendo refletidas as experi\u00eancias que tinha dentro de casa com a av\u00f3 e o pai. &#8220;Fui entendendo quem eu era.&#8221;<\/p>\n<p>Algumas percep\u00e7\u00f5es vieram no cotidiano. Outras, no estudo. &#8220;Estudando voc\u00ea observa que o xote, o xaxado, o bai\u00e3o e v\u00e1rios desses ritmos s\u00e3o de Portugal e foram se transformando no nordeste brasileiro.&#8221;<\/p>\n<p>Foi f\u00e1cil, afirma a cantora, apaixonar-se pelas pessoas, pelos espa\u00e7os e pela culin\u00e1ria lusitana. Uma das coisas de que mais gosta \u00e9 a arquitetura portuguesa, cujos tra\u00e7os est\u00e3o presentes em Salvador .<\/p>\n<p>J\u00e1 as semelhan\u00e7as que n\u00e3o observou em Portugal a artista encontrou em outros pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa. Em Angola, deparou-se com pessoas que, no samba de roda, batem palmas &#8220;exatamente como a gente bate em Salvador&#8221;. Nem sequer em outras cidades brasileiras elas se repetem, diz a artista.<\/p>\n<p>Ao longo de mais de 20 anos de carreira em terras lusitanas, observou mudan\u00e7as sociais. A juventude, antes mais conservadora, foi &#8220;se abrindo&#8221;. Atribui ao mercado comum europeu -e ao consequente di\u00e1logo com cidad\u00e3os de outros pa\u00edses- o motivo. &#8220;As pessoas come\u00e7aram a pensar como Europa.&#8221;<\/p>\n<p>A alegria com que Daniela narra sua rela\u00e7\u00e3o com a lusofonia contrasta com a seriedade que adota quando questionada sobre o momento atual do Brasil. &#8220;Acho que a gente est\u00e1 passando por um depuramento, como uma revis\u00e3o de gin\u00e1sio. Olhando para a nossa hist\u00f3ria e pensando tudo o que deixamos de fazer, de afirmar com a contund\u00eancia necess\u00e1ria&#8221;, afirma, referindo-se aos recentes ataques \u00e0 democracia.<\/p>\n<p>Durante a pandemia, reclusa com a fam\u00edlia em uma de suas casas em Salvador, tem tentando acompanhar as not\u00edcias da pol\u00edtica nacional e as manifesta\u00e7\u00f5es sociais de um momento &#8220;completamente \u00fanico&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Apesar de fazer m\u00fasicas muito alegres, constru\u00ed toda a minha obra dentro do conceito de falar ritmicamente, alegremente e em tom menor sobre temas densos e profundos. Muita gente s\u00f3 veio perceber essas letras depois que come\u00e7amos a falar mais sobre temas como racismo nos \u00faltimos anos.&#8221;<\/p>\n<p>Logo em um de seus \u00e1lbuns de maior sucesso, &#8220;Canto da Cidade&#8221;, de 1992, comp\u00f4s &#8220;Gera\u00e7\u00e3o Perdida&#8221;, sobre a ditadura militar (1964-1985), com versos como &#8220;o leite derramado \u00e9 vermelho, como a cor dos nossos cabelos&#8221; e &#8220;gera\u00e7\u00e3o perdida; artistas, negros, m\u00e3e; nossos mortos sem vida; dor que ainda d\u00f3i&#8221;.<\/p>\n<p>Ela, que nasceu um ano ap\u00f3s o in\u00edcio da ditadura, conviveu com o medo de se manifestar publicamente. &#8220;\u00c9 muito desagrad\u00e1vel estarmos de novo passando por intimida\u00e7\u00f5es. Neste momento, n\u00e3o estamos podendo exercer nossa fala com tranquilidade. Nossa liberdade de express\u00e3o tem sido tolhida.&#8221;<\/p>\n<p>Os flertes com o autoritarismo de hoje t\u00eam ra\u00edzes numa esp\u00e9cie de relacionamento mal acabado, diz. &#8220;Algo que a gente n\u00e3o resolveu l\u00e1 atr\u00e1s, ao n\u00e3o deixar claro que o autoritarismo n\u00e3o nos interessa.&#8221;<\/p>\n<p>Diz que os resqu\u00edcios do passado foram agravados pela postura de Jair Bolsonaro (sem partido), &#8220;que sempre tenta fazer com que sua forma de pensar prevale\u00e7a, o que n\u00e3o cabe numa democracia -de maneira nenhuma&#8221;.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m afirma ver com bons olhos a leva crescente de artistas se posicionando sobre pol\u00edtica. Aos mais novos, diz, cabe aprender com os mais velhos, que &#8220;sabem que precisam falar sempre&#8221;. &#8220;A manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre bem-vinda quando a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 grave, e esse \u00e9 um momento em que a democracia \u00e9 amea\u00e7ada.&#8221;<\/p>\n<p>Em junho, por sugest\u00e3o de Daniela, o Conselho Nacional de Justi\u00e7a criou um grupo para identificar situa\u00e7\u00f5es em que a popula\u00e7\u00e3o LGBTQI+ fica mais sujeita a viol\u00eancias. Sete anos antes, em 2014, foi premiada pela C\u00e2mara de Lisboa por sua &#8220;luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o sexual e da identidade de g\u00eanero&#8221;. &#8220;Temos que voltar para a nossa voca\u00e7\u00e3o principal: a democracia, a liberdade e a busca da justi\u00e7a social. Equilibrar esse capitalismo para que ele possa dar oportunidade a mais pessoas.&#8221;<\/p>\n<p>Em dezembro, por ocasi\u00e3o do Dia Internacional dos Direitos Humanos, fez o roteiro de um v\u00eddeo manifesto com a m\u00fasica &#8220;Apesar de Voc\u00ea&#8221;, de Chico Buarque, que protagonizou ao lado de outros 20 artistas.<\/p>\n<p>E \u00e9 com outra can\u00e7\u00e3o que termina a entrevista. &#8220;Como diz Gonzaguinha, &#8216;a gente n\u00e3o tem cara de panaca, a gente n\u00e3o tem jeito de babaca (&#8230;) a gente quer valer o nosso amor&#8217;.&#8221; \u200b<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Cultura<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1847656\/devolvo-a-portugal-aquilo-que-criamos-na-cultura-brasileira-diz-daniela-mercury?utm_source=rss-cultura&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GUARULHOS, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Em meados de 1997, Daniela Mercury, ent\u00e3o com 32 anos, estava<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":36164,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-36163","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36163","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36163"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36163\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36164"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}