{"id":32728,"date":"2021-09-11T17:08:58","date_gmt":"2021-09-11T20:08:58","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/09\/11\/danca-geopolitica-leva-o-mundo-do-11-de-setembro-para-a-guerra-fria-2-0\/"},"modified":"2021-09-11T17:08:58","modified_gmt":"2021-09-11T20:08:58","slug":"danca-geopolitica-leva-o-mundo-do-11-de-setembro-para-a-guerra-fria-2-0","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/09\/11\/danca-geopolitica-leva-o-mundo-do-11-de-setembro-para-a-guerra-fria-2-0\/","title":{"rendered":"Dan\u00e7a geopol\u00edtica leva o mundo do 11 de Setembro para a Guerra Fria 2.0"},"content":{"rendered":"<p>IGOR GIELOW<br \/>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Na quinta-feira (9), o presidente americano, Joe Biden, passou uma hora e meia ao telefone com o mais poderoso l\u00edder chin\u00eas em tr\u00eas d\u00e9cadas, Xi Jinping.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>No card\u00e1pio da conversa, segundo a Casa Branca, estavam temas espinhosos que alimentam a Guerra Fria 2.0 entre eles, mas principalmente &#8220;responsabilidade de ambas as na\u00e7\u00f5es de garantir que a competi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se transforme em conflito&#8221;.<\/p>\n<p>Tal contato ter ocorrido \u00e0s v\u00e9speras do anivers\u00e1rio de 20 anos dos ataques terroristas que definiram o come\u00e7o do s\u00e9culo 21, o 11 de Setembro, ultrapassa o campo das coincid\u00eancias. Biden preside o fim de um ciclo ap\u00f3s a retirada do Afeganist\u00e3o, primeiro pa\u00eds alvejado nas guerras que nasceram em 2001.<\/p>\n<p>Para entender isso, \u00e9 preciso voltar ao momento em que George W. Bush recebe, com seu ar aparvalhado, a not\u00edcia dos ataques enquanto visitava uma escola.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos vinham de uma orgia de poder decorrente da vit\u00f3ria na primeira Guerra Fria, encerrada definitivamente em 1991 com a morte da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. O mundo havia girado por 40 anos em torno de uma disputa por hegemonia baseada em for\u00e7a bruta do fogo nuclear e conflitos por procura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, como incorretamente proclamara o historiador americano Francis Fukuyama, vivia-se o &#8220;fim da hist\u00f3ria&#8221;. O Leste Europeu tornou-se capitalista, a R\u00fassia embarcou numa festa ultraliberal que a destruiu, os valores americanos haviam vencido.<\/p>\n<p>Com valores, v\u00eam neg\u00f3cios, como a expans\u00e3o do ide\u00e1rio econ\u00f4mico hegem\u00f4nico (o tal Consenso de Washington) por franjas laterais do Ocidente, como o Brasil, provou. A globaliza\u00e7\u00e3o ganhou tra\u00e7\u00e3o, a Europa adotou regimes com roupagem social-democrata festiva.<\/p>\n<p>O processo, como seria natural, deixou muitos para tr\u00e1s. O fundamentalismo isl\u00e2mico, fen\u00f4meno pol\u00edtico que vinha da d\u00e9cada de 1920, ganhou corpo fora das disputas do mundo mu\u00e7ulmano e lan\u00e7ou uma vers\u00e3o modernizada da jihad, a guerra santa.<\/p>\n<p>A Al Qaeda de Osama bin Laden encarnava a hidra, escalando ataques at\u00e9 chegar ao 11 de Setembro.<\/p>\n<p>O golpe que levou ao ch\u00e3o as Torres G\u00eameas, parte do Pent\u00e1gono e um avi\u00e3o que n\u00e3o atingiu seu alvo abalou a convic\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica americana. Mas abriu portas para uma oportunidade, elaborada pelos ditos falc\u00f5es que faziam a cabe\u00e7a de Bush.<\/p>\n<p>Derrubar o Talib\u00e3, que tornara a partir de 1996 a maior parte do Afeganist\u00e3o numa masmorra medieval, era a \u00fanica resposta proporcional cab\u00edvel: o grupo afinal de contas protegera Bin Laden e seus homens.<\/p>\n<p>Mas a empatia universal \u00e0 causa transformou uma expedi\u00e7\u00e3o punitiva em um instrumento de amplia\u00e7\u00e3o da desafiada hegemonia dos EUA, aprofundando um conceito que remontava \u00e0 vit\u00f3ria na Segunda Guerra.<\/p>\n<p>Naquele conflito, o mal (nazistas, fascistas, imperialistas japoneses) era o inimigo, mesmo com a relut\u00e2ncia extrema dos americanos de ir \u00e0 luta e o imperativo geopol\u00edtico: a derrota da Europa e da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica amea\u00e7ava os EUA.<\/p>\n<p>Criou-se ent\u00e3o a mitologia da guerra justa, que sofreu golpes de credibilidade com o empate na Coreia em 1953 e com a derrota no Vietn\u00e3, em 1975.<\/p>\n<p>Mas ela nunca morreu -ganhou tons pol\u00edticos nos anos 1990 com a elabora\u00e7\u00e3o narrativa dos &#8220;soldados cidad\u00e3os&#8221;, dispersores puros de valores democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Isso foi uma obra do historiador americano Stephen Ambrose ampliada &#8220;ad nauseam&#8221; pela maestria t\u00e9cnica de Steven Spielberg no cinema (&#8220;O Resgate do Soldado Ryan&#8221;) e na TV (&#8220;Band of Brothers&#8221;).<\/p>\n<p>Ao longo dos anos 1990, ganharam corpo ent\u00e3o interven\u00e7\u00f5es militares &#8220;do bem&#8221;, aspas compuls\u00f3rias. Houve o fracasso na ex-Iugosl\u00e1via e um relativo sucesso na cria\u00e7\u00e3o de Kosovo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o 11 de Setembro, a guerra justa evoluiu: virou &#8220;constru\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00f5es&#8221; com valores ocidentais alien\u00edgenas em sua maioria. Mesmo no Afeganist\u00e3o sem petr\u00f3leo, havia um car\u00e1ter geopol\u00edtico: o pa\u00eds fecharia um cerco, a leste, contra o Ir\u00e3 j\u00e1 pressionado.<\/p>\n<p>O arcabou\u00e7o intelectual foi pescado de outro autor americano, o cientista pol\u00edtico Samuel Huntington, que em 1993 havia elaborado a teoria do &#8220;choque de civiliza\u00e7\u00f5es&#8221; -resumindo, o isl\u00e3 militante contra o resto do mundo.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo passo foi oportunista, incluindo o Iraque desafeto e rico em hidrocarbonetos na lista de alvos da &#8220;guerra ao terror&#8221;. O resultado: caos, mortes e, com a sa\u00edda dos EUA, a emerg\u00eancia do Estado Isl\u00e2mico, ainda que ningu\u00e9m v\u00e1 chorar o fim da ditadura de Saddam Hussein.<\/p>\n<p>A desagrega\u00e7\u00e3o de tiranias na chamada Primavera \u00c1rabe, na virada dos anos 2010, adicionou tempero: o apoio ocidental a rebeldes na L\u00edbia levou tanto \u00e0 morte de um reabilitado Muammar Gaddafi quanto \u00e0 fal\u00eancia do Estado. A S\u00edria vive at\u00e9 hoje a trag\u00e9dia conhecida.<\/p>\n<p>Enquanto esse drama se desenrolava, a China crescia, apoiada pela alian\u00e7a econ\u00f4mica com os EUA. Em 2000, o pa\u00eds respondia por cerca de 8% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial. Dez anos depois, estava em 14%, quando acelerou sua decolagem econ\u00f4mica ap\u00f3s a crise de 2008.<br \/>Hoje, os chineses respondem por mais de 20% do PIB mundial. Ainda \u00e9 uma economia menor do que a americana (US$ 20,5 trilh\u00f5es dos EUA ante US$ 13,4 trilh\u00f5es da China), mas quando a compara\u00e7\u00e3o \u00e9 feita em paridade de poder de compra, supera Washington: 19% ante 16%.<\/p>\n<p>At\u00e9 2012, quando Xi chegou ao poder, a regra era a da discri\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O novo l\u00edder mudou tudo, centralizou poderes e se tornou figura central da ditadura. O gasto militar, ainda um quarto do americano, \u00e9 o segundo do mundo e voltado a criar uma \u00e1rea de influ\u00eancia asi\u00e1tica, mas com ambi\u00e7\u00f5es maiores.<\/p>\n<p>Os EUA, assustados, criaram o &#8220;piv\u00f4 da \u00c1sia&#8221; de Barack Obama, mas o fato \u00e9 que a realidade era mais complexa. Havia o Afeganist\u00e3o, onde os combates principais cessaram em 2014, mas um Ex\u00e9rcito para construir a fim de pavimentar uma retirada, e a ressurrei\u00e7\u00e3o do fantasma russo exorcizado em 1991.<\/p>\n<p>Sob Vladimir Putin, no comando do pa\u00eds desde 1999 em encarna\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas como presidente e premi\u00ea, a R\u00fassia deixou para tr\u00e1s a entropia dos anos 1990 e, alimentada por ciclos de commodities, assumiu uma ret\u00f3rica agressiva.<\/p>\n<p>Maior pa\u00eds do mundo, sua preocupa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 manter coes\u00e3o territorial. Assim, Putin buscou reativar alian\u00e7as na sua periferia e barrar a expans\u00e3o da Otan (alian\u00e7a militar ocidental), o que fez na pr\u00e1tica nas guerras na Ge\u00f3rgia (2008) e na Ucr\u00e2nia (2014).<\/p>\n<p>O russo passou a expandir sua a\u00e7\u00e3o cuidadosamente, como na interven\u00e7\u00e3o que salvou a ditadura s\u00edria. Ansiosos, aliados europeus olhavam para os EUA por prote\u00e7\u00e3o, algo que os turbulentos anos de Donald Trump interromperam, mas que est\u00e1 de volta a curso sob Biden.<\/p>\n<p>O err\u00e1tico republicano, por sua vez, escancarou a Guerra Fria 2.0 contra os chineses, dando ares de profeta a um outro historiador americano, Graham Allison, que em 2017 mostrou que em 16 embates entre pot\u00eancias emergentes (China agora) e estabelecidas (EUA), 12 acabaram em guerra nos \u00faltimos 500 anos.<\/p>\n<p>Hoje, os interesses interligados que Biden e Xi expuseram em seu telefonema parecem evitar o pior, mas a escala da hist\u00f3ria \u00e9 em d\u00e9cadas, e h\u00e1 atritos crescentes no mar do Sul da China, no estreito de Taiwan, nas fronteiras indo-chinesas.<\/p>\n<p>Seja como for, o americano quer deixar para tr\u00e1s a &#8220;guerra ao terror&#8221;, que continuar\u00e1 na pr\u00e1tica, assim como o terrorismo. O Talib\u00e3 est\u00e1 de volta ao poder, mas agora a mira est\u00e1 em Pequim e, de forma lateral, na aliada chinesa R\u00fassia e seu poderio militar respeit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Assim, a dan\u00e7a geopol\u00edtica segue em seu ritmo pr\u00f3prio, ainda que sempre sujeita a b\u00f3lidos ex\u00f3genos como que atingiu o mundo em 11 de setembro de 2001, deixando no caminho cerca de 800 mil mortos e trilh\u00f5es de d\u00f3lares em gastos.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Mundo<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/politica\/1841558\/danca-geopolitica-leva-o-mundo-do-11-de-setembro-para-a-guerra-fria-20?utm_source=rss-mundo&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IGOR GIELOWS\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Na quinta-feira (9), o presidente americano, Joe Biden, passou<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":32729,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-32728","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32728","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32728"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32728\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32729"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}