{"id":32715,"date":"2021-09-11T15:08:49","date_gmt":"2021-09-11T18:08:49","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/09\/11\/e-a-cobertura-mais-dificil-da-minha-vida-diz-jornalista-brasileira-no-afeganistao\/"},"modified":"2021-09-11T15:08:49","modified_gmt":"2021-09-11T18:08:49","slug":"e-a-cobertura-mais-dificil-da-minha-vida-diz-jornalista-brasileira-no-afeganistao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/09\/11\/e-a-cobertura-mais-dificil-da-minha-vida-diz-jornalista-brasileira-no-afeganistao\/","title":{"rendered":"&#8216;\u00c9 a cobertura mais dif\u00edcil da minha vida&#8217;, diz jornalista brasileira no Afeganist\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>FL\u00c1VIA MANTOVANI<br \/>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Enquanto a maioria dos estrangeiros corria para deixar o Afeganist\u00e3o o antes poss\u00edvel, a brasileira Anelise Borges esperava uma chance de fazer o caminho contr\u00e1rio. Correspondente internacional da rede Euronews, ela convenceu seus chefes a deix\u00e1-la ir ao menos at\u00e9 o Paquist\u00e3o, enquanto avaliava a possibilidade de ir para o pa\u00eds vizinho.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Atravessou a fronteira no \u00faltimo dia 1\u00ba, pouco depois que as tropas americanas deixaram definitivamente o pa\u00eds, e est\u00e1 em Cabul desde ent\u00e3o, acompanhando protestos de mulheres, entrevistando a popula\u00e7\u00e3o em suas casas e membros do Talib\u00e3 nas ruas.<br \/>Natural de Santa Catarina, a jornalista de 37 anos mora fora do Brasil h\u00e1 15. J\u00e1 viveu na Turquia, no Qatar e na Inglaterra e atualmente est\u00e1 baseada em Paris.<\/p>\n<p>Em sua carreira, fez reportagens em pa\u00edses como S\u00edria, L\u00edbia, Belarus e Ir\u00e3, entrevistou o ditador venezuelano Nicol\u00e1s Maduro e o opositor Juan Guaid\u00f3 na Venezuela e fez um document\u00e1rio sobre os dez dias que passou dentro do navio humanit\u00e1rio de resgate de imigrantes Aquarius.<\/p>\n<p>Apesar da experi\u00eancia em coberturas de crises e conflitos, esta \u00e9, para ela, a cobertura mais dif\u00edcil que j\u00e1 enfrentou. Em entrevista concedida nesta quinta-feira (10), Anelise conta como \u00e9 ser uma das poucas mulheres jornalistas a cobrir o conflito in loco -ela calcula que sejam menos de dez, no total.De quem partiu a ideia de ir para o Afeganist\u00e3o?<\/p>\n<p>ANELISE BORGES &#8211; Desde que os americanos confirmaram a retirada das tropas, eu estava planejando uma viagem para c\u00e1, para fazer uma s\u00e9rie de reportagens sobre o fim dessa miss\u00e3o. Eu tinha passagem comprada para vir dia 25 de agosto, mas o Talib\u00e3 chegou a Cabul dia 15 e os planos tiveram que ser adaptados. Primeiro a Euronews disse que de maneira nenhuma eles iriam me mandar para c\u00e1, porque a situa\u00e7\u00e3o estava muito vol\u00e1til. A gente tinha alguns rep\u00f3rteres freelancers no pa\u00eds e meu chefe falou que estava tentando tirar as pessoas de l\u00e1, n\u00e3o tinha sentido me enviar. Ent\u00e3o eu negociei vir para o Paquist\u00e3o, cobrir a situa\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds vizinho.Foi poss\u00edvel fazer alguma avalia\u00e7\u00e3o de risco antes de atravessar a fronteira?<\/p>\n<p>AB &#8211; A gente fez uma avalia\u00e7\u00e3o de risco, mas chegou uma hora que n\u00e3o tinha mais como, essa viagem ultrapassava todos os riscos que a Euronews normalmente se prop\u00f5e a assumir. Nem a companhia de seguros quis nos assegurar. Eu vim num momento em que muitas pessoas j\u00e1 tinham ido embora. Os \u00fanicos jornalistas estrangeiros que ficaram estavam num hotel embarricados, muitos deles ainda est\u00e3o.<br \/>Fiz um acordo com a Euronews e disse que precisava estar aqui. A gente at\u00e9 consegue trabalhar com testemunhas a dist\u00e2ncia, mas n\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o voc\u00ea estar presente no lugar. Assumimos o risco porque confiamos em pessoas que j\u00e1 trabalhavam com a gente aqui e se dispuseram a me buscar na fronteira. Ficamos monitorando todos os dias, uma pessoa fez uma viagem de reconhecimento, conversamos com outros rep\u00f3rteres que tinham pegado a mesma estrada. E a gente veio. Quer dizer, eu vim sozinha e l\u00e1 encontrei um produtor e um motorista. Sempre trabalhei sozinha, mas aqui a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite.O Talib\u00e3 tem dado alguma garantia de seguran\u00e7a para jornalistas internacionais?<\/p>\n<p>AB &#8211; O Talib\u00e3 prop\u00f4s credenciamento para os jornalistas. Quando voc\u00ea chega no pa\u00eds, tem que se apresentar no Minist\u00e9rio da Informa\u00e7\u00e3o. Eu mostrei a carta da TV, o passaporte e eles imprimiram um documento do Emirado Isl\u00e2mico do Afeganist\u00e3o com o carimbo do Talib\u00e3 dizendo que eu tenho autoriza\u00e7\u00e3o para trabalhar. \u00c9 surreal, mas foi assim que aconteceu.Voc\u00ea disse que considera esta a cobertura mais dif\u00edcil que j\u00e1 fez. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>AB &#8211; Sem d\u00favida \u00e9 a mais dif\u00edcil. No ano passado estive na Belarus cobrindo as elei\u00e7\u00f5es e foi muito dificil tamb\u00e9m porque fui de maneira ilegal, o governo n\u00e3o me deu autoriza\u00e7\u00e3o. E a Belarus tem pol\u00edcia secreta, tem a KGB, eu tinha que trocar de hotel quase todas as noites.<br \/>Aqui \u00e9 diferente, mas \u00e9 t\u00e3o tenso quanto porque a gente n\u00e3o sabe de onde vem a amea\u00e7a. O Talib\u00e3 abriu todas as cadeias e soltou todo mundo que tinha l\u00e1 dentro. Segundo minhas fontes, deve ter uns 2.000 membros do Estado Isl\u00e2mico aqui. Ent\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a \u00e9 cr\u00edtica n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o ao Talib\u00e3.<br \/>Nos \u00faltimos dias a tens\u00e3o aumentou por causa dos protestos [de mulheres]. A concentra\u00e7\u00e3o de muita gente num lugar s\u00f3 vira um alvo f\u00e1cil para um ataque terrorista. E o Talib\u00e3 tamb\u00e9m n\u00e3o quer que o mundo veja essas imagens. Eles t\u00eam dito que o Afeganist\u00e3o agora est\u00e1 independente da for\u00e7a ocupante americana, que as pessoas n\u00e3o t\u00eam medo deles, e as manifesta\u00e7\u00f5es de rua contradizem essa narrativa.<br \/>Mas para mim o mais dif\u00edcil \u00e9 que ao mesmo tempo em que estou contando as hist\u00f3rias das pessoas, eu estou colocando elas de frente com os medos delas, com o inimigo. Fiz entrevistas com mulheres nos protestos que queriam ser filmadas, dar o nome e o sobrenome. Eu pergunto: &#8216;Voc\u00ea tem certeza?&#8217; \u00c9 um equil\u00edbrio muito dif\u00edcil, eu realmente n\u00e3o sei se estou fazendo a coisa certa. Muitas vezes eu me pergunto se eu n\u00e3o estou fazendo mais mal pra essas pessoas do que bem. Porque eu sei que no momento que eu for embora elas v\u00e3o ficar.Como t\u00eam sido esses protestos?<\/p>\n<p>AB &#8211; Foi incr\u00edvel porque come\u00e7ou com um grupo pequeno de mulheres que foram \u00e0s ruas todos os dias: primeiro eram 12, 15, 20, e um dia foram mais ou menos uns 300 ou 400 homens que se juntaram a elas. O Talib\u00e3 ficou desnorteado, eles n\u00e3o sabem como fazer controle de multid\u00f5es. E isso levou ao que aconteceu dois dias atr\u00e1s, quando os talib\u00e3s atiraram por uns 10 minutos para o alto. N\u00e3o sei como n\u00e3o morreu gente porque eram centenas de pessoas e mais ou menos uns cem talib\u00e3s atirando para o c\u00e9u com metralhadoras.O Talib\u00e3 tenta passar uma imagem de que desta vez dar\u00e1 mais liberdade para a popula\u00e7\u00e3o e ser\u00e1 menos violento do que 20 anos atr\u00e1s. O que voc\u00ea tem visto confirma isso?<\/p>\n<p>AB &#8211; De maneira nenhuma. Passei hoje umas duas horas na casa de uma menina brilhante que conheci em um protesto. Ela me disse que agora perdeu toda a esperan\u00e7a. \u00c9 uma menina de 20 anos, que fala um ingl\u00eas impec\u00e1vel, l\u00ea milhares de livros. Ela falou: &#8216;Ainda tenho for\u00e7a, vontade de lutar, sonhos, mas eu sei que eles v\u00e3o se apagar. A dor e o desespero mudam as pessoas e v\u00e3o me mudar tamb\u00e9m&#8217;.<br \/>As mulheres acham que a \u00fanica chance que elas tinham era agora que jornalistas internacionais est\u00e3o aqui, que a comunidade internacional ainda est\u00e1 titubeando entre apoiar ou n\u00e3o esse governo. Elas acham que os dias delas est\u00e3o contados, n\u00e3o no sentido de que v\u00e3o ser todas assassinadas, mas de que v\u00e3o ser apagadas, eliminadas da sociedade e do futuro do Afeganist\u00e3o.Voc\u00ea se sentiu amea\u00e7ada ou viveu situa\u00e7\u00f5es de perigo enquanto est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>AB &#8211; Sim, mas ser jornalista me ajudou. Os talib\u00e3s andam armados at\u00e9 os dentes, n\u00e9? Muitos s\u00e3o uns meninos, s\u00e3o pequenininhos, as armas s\u00e3o quase do tamanho do corpo deles, \u00e9 assustador. E eles andam tamb\u00e9m com uns bast\u00f5es de ferro para bater nas pessoas. Nas manifesta\u00e7\u00f5es, eu filmo com meu celular e eles acham que eu sou uma manifestante. J\u00e1 amea\u00e7aram bater em mim v\u00e1rias vezes. Um deles veio com tudo para bater no meu rosto. O meu produtor se colocou no meio e gritou que eu era jornalista, para ele parar. Para mim foi o momento mais tenso porque eu achei realmente que ele ia me bater.<br \/>Fora isso, n\u00e3o me senti amea\u00e7ada. Eu fico preocupada \u00e9 com meu produtor e meu motorista. Estou conseguindo tudo aqui gra\u00e7as a eles. N\u00e3o tenho cr\u00e9dito nenhum, eles s\u00e3o meus olhos e meus ouvidos aqui. Meu produtor, o Tawfiq, \u00e9 um menino incr\u00edvel, tem muito carisma, fala com todo mundo, negocia acesso para mim com o Talib\u00e3. E ontem ele foi preso, ficou mais de 3 horas detido. Comecei a ligar para todo mundo com quem eu tinha tido contato dentro do Talib\u00e3. Levou umas tr\u00eas horas e a gente finalmente conseguiu tirar ele de l\u00e1.Quando tempo voc\u00ea pensa ficar a\u00ed?<\/p>\n<p>AB &#8211; Essa \u00e9 uma decis\u00e3o que a gente est\u00e1 tomando diariamente. Diariamente a gente decide se d\u00e1 para ficar mais um dia, o que \u00e9 muito dif\u00edcil. N\u00e3o posso chegar a um ponto em que eu arrisque tanto a seguran\u00e7a deles [a equipe local] que eles n\u00e3o possam mais trabalhar quando eu for embora. Ontem eu te confesso que eu estava pronta para ir embora. O Tawfiq que me convenceu a ficar.Ser uma jornalista mulher nesse tipo de cobertura ajuda, atrapalha ou n\u00e3o faz diferen\u00e7a?<\/p>\n<p>AB &#8211; Em algumas coberturas complica, mas aqui me ajudou muito. Principalmente porque eu ando toda coberta, de abaya [t\u00fanica preta longa] e v\u00e9u cobrindo at\u00e9 meu pesco\u00e7o. Eu recebi muitas cr\u00edticas sobre isso ultimamente. Mas me visto assim simplesmente porque me ajuda com o Talib\u00e3, porque eles n\u00e3o prestam muita aten\u00e7\u00e3o em mim, acham que eu sou uma mulher local conservadora, e eles tendem a respeitar isso. Estou aqui h\u00e1 oito dias, passei em tudo que \u00e9 checkpoint, quando eles me veem no carro, eles s\u00f3 nos pararam uma vez.<br \/>E ser mulher ajuda imensamente a entrar em ambientes femininos. Por exemplo, eu acabo de sair de um casamento. Essas festas s\u00e3o segregadas e fiquei no espa\u00e7o das mulheres, que estavam incrivelmente maquiadas, de salto, super produzidas. A galera tem que viver, tem que casar, ter filho. \u00c9 surreal como a for\u00e7a da vida se imp\u00f5e.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Mundo<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/mundo\/1841552\/e-a-cobertura-mais-dificil-da-minha-vida-diz-jornalista-brasileira-no-afeganistao?utm_source=rss-mundo&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FL\u00c1VIA MANTOVANIS\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Enquanto a maioria dos estrangeiros corria para deixar o<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":32716,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-32715","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32715","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32715"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32715\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32716"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32715"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32715"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32715"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}