{"id":31233,"date":"2021-09-01T20:09:57","date_gmt":"2021-09-01T23:09:57","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/09\/01\/bienal-de-sp-aposta-em-mitologias-alternativas-para-debelar-o-fim-do-mundo\/"},"modified":"2021-09-01T20:09:57","modified_gmt":"2021-09-01T23:09:57","slug":"bienal-de-sp-aposta-em-mitologias-alternativas-para-debelar-o-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/09\/01\/bienal-de-sp-aposta-em-mitologias-alternativas-para-debelar-o-fim-do-mundo\/","title":{"rendered":"Bienal de SP aposta em mitologias alternativas para debelar o fim do mundo"},"content":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; A extra\u00e7\u00e3o de prata na regi\u00e3o de Zacatecas, no M\u00e9xico, come\u00e7ou no s\u00e9culo 16. \u00c9 nesse solo seco, de uma terra arrasada h\u00e1 s\u00e9culos, que se passa &#8220;Sangre Pesada&#8221;, ou sangue pesado, fabula\u00e7\u00e3o da mexicana Naomi Rinc\u00f3n Gallardo.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Nela, criaturas meio bicho, meio homem revivem mitos pr\u00e9-colombianos numa est\u00e9tica atual, quase como num baile sob escombros. Ou, na defini\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria artista, uma dan\u00e7a de autodefesa nas ru\u00ednas.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 esse desejo querer de reivindicar nossos prazeres apesar da devasta\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma Gallardo, que apresenta dois trabalhos nesta 34\u00aa Bienal de S\u00e3o Paulo. &#8220;Embora haja muita viol\u00eancia, h\u00e1 tamb\u00e9m essa insist\u00eancia em buscar o prazer, a alegria e a dignidade.&#8221;<\/p>\n<p>A proposta da artista mexicana vai ao encontro de outras obras que apontam para um futuro mesmo neste nosso ensaio de fim do mundo. Em vez de apenas sobreviver a uma condi\u00e7\u00e3o adversa, h\u00e1 a ideia de clamar tamb\u00e9m pela alegria e pelo direito de cantar, brincar e dan\u00e7ar com for\u00e7a.<\/p>\n<p>E s\u00e3o muitas as ru\u00ednas de nosso tempo \u2013a crise clim\u00e1tica, a pr\u00f3pria pandemia do coronav\u00edrus, as investidas contra direitos de povos origin\u00e1rios e o assassinato sistem\u00e1tico da popula\u00e7\u00e3o negra. Gallardo responde a alguns desses problemas a partir de teorias feministas e decoloniais, como ela mesmo se define. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m o resgate de uma perspectiva ancestral do mundo.<\/p>\n<p>&#8220;No caso do M\u00e9xico, e de muitos outros lugares, cosmologias ind\u00edgenas trazem uma compreens\u00e3o diferente da nossa rela\u00e7\u00e3o com a natureza e com a terra, sagrada, e elas cont\u00eam pistas para a sobreviv\u00eancia da vida neste planeta&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Essa inten\u00e7\u00e3o propositiva j\u00e1 est\u00e1 no nome da Bienal que come\u00e7a agora \u2013&#8221;Faz Escuro, Mas Eu Canto&#8221;. A sonoridade que o verso de Thiago de Mello evoca permeia, por exemplo, os cantos maxacalis que tocar\u00e3o em parte do pavilh\u00e3o, e a instala\u00e7\u00e3o da nigeriana Zina Saro-Wiwa, onde se escuta uma antiga \u00e1rvore chamada &#8220;Kum&#8221; que ocupa um lugar central numa das aldeias do v\u00eddeo que a artista apresenta.<\/p>\n<p>E cosmologias ind\u00edgenas parecem ser fundamentais nos trabalhos que pensam outras possibilidades de exist\u00eancia em meio \u00e0s crises atuais nesta que \u00e9 a edi\u00e7\u00e3o do evento com maior protagonismo de povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Curador-assistente da Bienal, Paulo Miyada afirma que esta edi\u00e7\u00e3o aprofunda algo que est\u00e1 na hist\u00f3ria do evento, a de ser uma &#8220;m\u00e1quina que faz leituras da hist\u00f3ria e tenta apontar futuros&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A presen\u00e7a dos artistas ind\u00edgenas tem um sentido prospectivo, porque faz pensar que at\u00e9 um tempo n\u00e3o est\u00e1vamos ouvindo essas vozes. Se eles est\u00e3o aqui, n\u00e3o podem mais se retirar&#8221;, afirma Miyada. &#8220;\u00c9 uma nova voz que daqui em diante estar\u00e1 no debate, e isso antev\u00ea que o circuito s\u00f3 pode se transformar.&#8221;<\/p>\n<p>Uma dessas artistas \u00e9 Daiara Tukano, que apresenta agora &#8220;Dabukuri no C\u00e9u&#8221;. S\u00e3o quatro pinturas e quatro grandes mantos plum\u00e1rios, isto \u00e9, feitos de pena, que se referem a p\u00e1ssaros centrais para muitos povos da floresta \u2013o urubu-rei, a gar\u00e7a-real, a arara-vermelha e o gavi\u00e3o-real.<\/p>\n<p>&#8220;Dabukuri \u00e9 um encontro tradicional das aldeias, em que as fam\u00edlias se juntam e cada um leva um presente e uma oferenda, como uma fruta ou um peixe&#8221;, afirma ela. Um banco no centro da instala\u00e7\u00e3o remete justamente a essa ideia de reuni\u00e3o, em que o visitante pode ir ao encontro desses p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>A pot\u00eancia do encontro que ela e outros artistas que resgatam essas cosmologias ind\u00edgenas n\u00e3o anulam a viol\u00eancia e o trauma que os povos ind\u00edgenas sofrem, por\u00e9m. Tukano afirma que uma das motiva\u00e7\u00f5es de sua obra \u00e9 homenagear os que ela e os parentes perderam \u2013e continuam perdendo\u2013durante a pandemia. &#8220;Enquanto ind\u00edgena, n\u00f3s sempre estamos em luto. Isso al\u00e9m das viol\u00eancias que tamb\u00e9m t\u00eam aumentado de uma maneira muito absurda no contexto desse governo atual.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 um luto que est\u00e1 tamb\u00e9m no &#8220;Monumento \u00e0s Sociedades Nativas da Am\u00e9rica do Sul&#8221;, feito entre os anos 1970 e 1980 por Lothar Baumgarten. Apresentado na s\u00e9tima Documenta, em Kassel, na Alemanha, em 1982, a instala\u00e7\u00e3o estampa nos guarda-corpos curvos projetados por Oscar Niemeyer nomes de povos ind\u00edgenas amea\u00e7ados pela viol\u00eancia colonial.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Gustavo Caboco, outro artista ind\u00edgena, debate a morte e o apagamento em uma obra que dialoga com o meteorito que sobreviveu ao inc\u00eandio do Museu Nacional e est\u00e1 exposto logo abaixo.<\/p>\n<p>Caboco escreveu seu primeiro livro justamente ap\u00f3s esse inc\u00eandio \u2013com o t\u00edtulo &#8220;Baaraz Kawau&#8221;, que significa &#8220;o campo ap\u00f3s o fogo&#8221; na l\u00edngua wapichana, ele rememora a hist\u00f3ria de uma grande lideran\u00e7a de seu povo, que era tamb\u00e9m seu tio-av\u00f4, e tra\u00e7a um paralelo com a mem\u00f3ria de uma borduna, um tipo de arma ind\u00edgena, que estava no museu.<\/p>\n<p>&#8220;Quanto de vida ind\u00edgena, e quanta a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, cultural, intelectual que o nosso tio fez est\u00e1 sujeito a um apagamento? Fiz essa rela\u00e7\u00e3o direta com a borduna, que \u00e9 esse instrumento de luta e de defesa, mas tamb\u00e9m que movimenta quando \u00e9 usado, por exemplo, como um remo&#8221;, diz Caboco.<\/p>\n<p>A instala\u00e7\u00e3o do artista nesta Bienal foi feita em conjunto com outros parentes. Com anima\u00e7\u00e3o, pinturas, fotografias e outros objetos, Caboco prop\u00f5e escutar as pedras e retomar a vis\u00e3o ancestral que elas carregam, como se fossem grandes matriarcas da fam\u00edlia, respons\u00e1veis por preservar a cultura de um povo.<\/p>\n<p>O caminho dessas pedras tamb\u00e9m \u00e9 o curso do pr\u00f3prio fogo ao qual a mem\u00f3ria brasileira, simbolizada no meteorito com o qual a instala\u00e7\u00e3o dialoga, est\u00e1 submetida. &#8220;Coloco essa discuss\u00e3o na ideia desse campo em chamas, desse fogo constante que se espalha seja simbolicamente, seja fisicamente, como no Pantanal, na floresta amaz\u00f4nica, ou em institui\u00e7\u00f5es como a Cinemateca, o Museu Nacional e tantas outras&#8221;, diz o artista.<\/p>\n<p>O processo de arrancar tudo o que constui algo tamb\u00e9m aparece na obra do chileno Sebasti\u00e1n Calfuqueo, que v\u00ea no tornar oco uma maneira de descartar tudo o que foi ensinado a ele. A performance em v\u00eddeo do artista gira em torno do conceito de &#8220;ahuecar&#8221;, algo como escavar. J\u00e1 o &#8220;hueco&#8221; \u00e9 literalmente um buraco, mas tamb\u00e9m um xingamento a homossexuais no Chile.<\/p>\n<p>Numa guerra contra os espanh\u00f3is, segundo \u00e9 narrado num poema apresentado na obra, uma das figuras centrais da resist\u00eancia ind\u00edgena foi eleito como lideran\u00e7a ap\u00f3s resistir ao teste de carregar um tronco nos ombros duas noites sem desvanecer. O artista refaz esse desafio em espa\u00e7os p\u00fablicos de Santiago e carrega nos ombros um tronco que est\u00e1 completamente oco. Mas sua vers\u00e3o de um poss\u00edvel novo l\u00edder de uma resist\u00eancia usa saltos altos.<\/p>\n<p>O c\u00e9u parece estar desabando sobre as nossas cabe\u00e7as, como a lideran\u00e7a yanomami Davi Kopenawa descreve j\u00e1 descreveu em seu livro &#8220;A Queda do C\u00e9u&#8221;. Mas ir atr\u00e1s dos p\u00e1ssaros, como no trabalho de Daiara Tukano, \u00e9 tamb\u00e9m uma maneira de aprender a fazer a festa com quem ainda voa em liberdade, como define a pr\u00f3pria artista.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Cultura<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1838256\/bienal-de-sao-paulo-aposta-em-mitologias-alternativas-para-debelar-o-fim-do-mundo?utm_source=rss-cultura&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; A extra\u00e7\u00e3o de prata na regi\u00e3o de Zacatecas, no M\u00e9xico,<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":31234,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-31233","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31233","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31233"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31233\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31234"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}