{"id":2927,"date":"2021-03-31T06:20:36","date_gmt":"2021-03-31T09:20:36","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/03\/31\/desemprego-fome-e-falta-de-teto-escancaram-a-miseria-na-sao-paulo-pandemica\/"},"modified":"2021-03-31T06:20:36","modified_gmt":"2021-03-31T09:20:36","slug":"desemprego-fome-e-falta-de-teto-escancaram-a-miseria-na-sao-paulo-pandemica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/03\/31\/desemprego-fome-e-falta-de-teto-escancaram-a-miseria-na-sao-paulo-pandemica\/","title":{"rendered":"Desemprego, fome e falta de teto escancaram a mis\u00e9ria na S\u00e3o Paulo pand\u00eamica"},"content":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;N\u00e3o sinto mais dor. Pra falar a verdade, nem o dedo&#8221;, diz Gilvan Mauro da Silva, 26. Falta um peda\u00e7o de seu polegar direito, vermelho e infeccionado. A ponta do osso est\u00e1 exposta, parcialmente coberta por um pele amarelada e viscosa. Com a outra m\u00e3o, o homem usa uma marreta para pregar um peda\u00e7o de madeira. Est\u00e1 levantando um barraco.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Ap\u00f3s quase um ano dormindo na rua ele, que j\u00e1 desistiu de procurar emprego de pedreiro, vai passar a noite entre quatro paredes -de madeira recolhida das ruas.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 pior crise sanit\u00e1ria da hist\u00f3ria do pa\u00eds, desempregados, moradores de rua, pessoas que j\u00e1 n\u00e3o conseguem pagar um aluguel enchem as ruas de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Novos barracos, filas maiores por comida e o evidente aumento dos sem-teto -23 mil, de acordo com a Prefeitura de S\u00e3o Paulo ou ainda mais segundo cadastro do Minist\u00e9rio da Cidadania: 33.292 fam\u00edlias- criam novos desenhos na cidade. No centro e na periferia, os efeitos s\u00e3o vis\u00edveis.<\/p>\n<p>Enquanto isso, moradores da capital que podem passam os dias fechados em casa, cumprindo a recomenda\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos e especialistas para conter a dissemina\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Ao lado da futura casa de Gilvan, feita de material recicl\u00e1vel, Jo\u00e3o Vitor de Oliveira, 25, j\u00e1 ergueu seu novo endere\u00e7o. Desempregado h\u00e1 tr\u00eas semanas, n\u00e3o tinha mais como pagar R$ 600 de aluguel. Foi despejado h\u00e1 duas. Foram 15 dias vagando pela cidade. Sua companheira, Let\u00edcia Alves da Silva, 18, \u00e9 irm\u00e3 de La\u00eds, 20, mulher de Gilvan. Ao menos est\u00e3o juntas de novo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o dormia com a mulher e a filha de dois anos sob o viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida, no Tatuap\u00e9, zona leste de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Um dia assistiu homens da prefeitura colocarem pedras pontiagudas do lado de l\u00e1 da avenida Salim Farah Maluf. Depois, viu um senhor de 72 anos, um padre, usar uma marreta para retirar os blocos que impediam que moradores de rua, como ele, tivessem o ch\u00e3o do viaduto como teto.<\/p>\n<p>Mais alguns dias e, \u00e0 dist\u00e2ncia, reparou que um grupo se instalara no local. Foi quest\u00e3o de horas para que uma pilha de madeira aparecesse e o primeiro barraco surgisse. Um, dois, cinco, dez.<\/p>\n<p>Desconfiado, Jo\u00e3o tratou de atravessar a avenida. Foi bem recebido. Havia material suficiente para ele erguer quatro paredes de madeira -sem teto. Not\u00edcias assim correm, e sua mulher deu um jeito de alertar a irm\u00e3. Gilvan, que havia passado alguns dias no hospital para conter a infec\u00e7\u00e3o no dedo, que come\u00e7ou como uma p\u00fastula e amea\u00e7ava se espalhar, foi convencido por ela a tamb\u00e9m tentar a sorte.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Vitor, Let\u00edcia, Gilvan e La\u00eds fazem parte da cidade que se reconfigura sem ser vista. Ali, sob o viaduto, os 15 barracos j\u00e1 prontos formaram uma pequena favela. A luz vem de um gato da rede el\u00e9trica. N\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua, esgoto, espa\u00e7o ou esperan\u00e7a de algo melhor, mas n\u00e3o est\u00e3o dormindo na rua.<\/p>\n<p>Por vezes, seus moradores usam m\u00e1scaras, recebem \u00e1lcool em gel de doa\u00e7\u00f5es, mas o perigo da contamina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a principal preocupa\u00e7\u00e3o. Existir vem antes.<\/p>\n<p>A medida do que acontece nas ruas da capital e do estado de S\u00e3o Paulo durante a pandemia se observa de diferentes formas. Em 2019, foram 22.443.643 refei\u00e7\u00f5es servidas nas 59 unidades da rede de restaurantes populares Bom Prato. No ano passado, 30.494.007, aumento de 36% que reflete a crise desencadeada pelo avan\u00e7o do coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Em fevereiro deste ano, j\u00e1 durante a pior fase da pandemia, foram 2.770.151 refei\u00e7\u00f5es. No mesmo m\u00eas do ano passado, 1.640.733.<\/p>\n<p>Em meados de 2020, moradores de rua que recusaram encaminhamento para servi\u00e7os das prefeituras do estado receberam um cart\u00e3o que lhes permite se alimentar de gra\u00e7a na rede. De um total de 12.488 cadastrados, 8.000 est\u00e3o na capital.<\/p>\n<p>Na favela que se formou sob o viaduto na Salim Farah Maluf a ajuda chega pelas m\u00e3os de padre J\u00falio Lancellotti, o mesmo que tratou de arrancar as pedras colocadas pela prefeitura e que impediam os moradores de rua de dormir no local.<\/p>\n<p>&#8220;Eles est\u00e3o por a\u00ed, jogados, esquecidos, n\u00e3o faz sentido impedir que tenham um abrigo. Em meio \u00e0 pandemia n\u00e3o t\u00eam acesso a \u00e1gua, dignidade, nada&#8221;, diz o religioso, coordenador da Pastoral do Povo de Rua em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Igor de Jesus, 25, e a mulher, Geovana Almeida, 20, as filhas Lunna, 1, e Carolin, 5, foram os primeiros a chegar por ali. Catador de materiais recicl\u00e1veis, o rapaz viu seu ganho despencar durante a pandemia. O casal morava em uma ocupa\u00e7\u00e3o na zona leste e acabou indo parar na rua ap\u00f3s uma a\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o de posse. &#8220;Consigo menos da metade de antes e na rua dobrou o n\u00famero de catadores&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Com um Monza 92 transformado em caminhonete, emprestado por um colega tamb\u00e9m catador, Igor recolhe o que pode.<\/p>\n<p>&#8220;A madeira que a gente cata, a comida que d\u00e3o pra gente, \u00e9 tudo pra tudo mundo&#8221;, afirma. &#8220;Aqui, dormia apenas uma pessoa, um homem que s\u00f3 pegava comida do lixo, passava o dia sem falar com ningu\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>Na \u00faltima semana, a prefeitura come\u00e7ou a pagar a nova etapa do aux\u00edlio emergencial municipal. As parcelas s\u00e3o de R$ 100 e R$ 200 pagas nos meses de mar\u00e7o, abril e maio. Outros tr\u00eas pagamentos j\u00e1 haviam sido feitos no ano passado, de forma acumulada, em dezembro.<\/p>\n<p>De acordo com a prefeitura, quase 1,3 milh\u00e3o de pessoas ser\u00e3o beneficiadas com a nova rodada do aux\u00edlio, que prev\u00ea pagar R$ 398 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A necessidade tamb\u00e9m pode ser medida a 2 km dali, na Mooca, no n\u00facleo S\u00e3o Martinho de Lima, mantido em parceria entre a prefeitura e o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, e coordenado por padre J\u00falio.<\/p>\n<p>Ao longo de 2020, o percentual das pessoas atendidas pela primeira vez no local passou de 46% para 60% do total. &#8220;\u00c9 um reflexo de como mais gente tem ido parar na rua durante a pandemia&#8221;, diz o religioso.<\/p>\n<p>Procurada, a Prefeitura de S\u00e3o Paulo afirma que criou 1.979 novas vagas para atender a popula\u00e7\u00e3o de rua durante a pandemia, e que ampliou a oferta de servi\u00e7os nos quais elas t\u00eam acesso a refei\u00e7\u00f5es, banheiros, kits de higiene e orienta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A administra\u00e7\u00e3o municipal tamb\u00e9m informa que faz a busca ativa para abordar pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua e oferece acolhimento nos equipamentos da rede socioassistencial. &#8220;Importante ressaltar que o aceite \u00e9 volunt\u00e1rio. A popula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ajudar solicitando uma abordagem social pela Central 156&#8221;, diz em nota.<\/p>\n<p>Sobre os moradores que est\u00e3o vivendo sob o viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida, a prefeitura diz que foram abordados pelo servi\u00e7o municipal, mas n\u00e3o aceitaram receber qualquer tipo de atendimento.<\/p>\n<p>Segundo a administra\u00e7\u00e3o municipal, h\u00e1 um projeto de uma quadra poliesportiva para o local que j\u00e1 est\u00e1 em andamento. &#8220;Foi realizado um processo licitat\u00f3rio para realiza\u00e7\u00e3o da obra, no entanto, o contrato encontra-se suspenso por at\u00e9 120 dias, ou at\u00e9 que exista viabilidade financeira dentro do exerc\u00edcio de 2021&#8221;, diz a nota.<\/p>\n<p>At\u00e9 l\u00e1, se nada mudar, mais gente deve ir parar nas ruas. Na frente do centro de acolhida coordenado por padre J\u00falio, o movimento \u00e9 intenso e crescente.<\/p>\n<p>Ali, em uma das barracas montadas lado a lado na cal\u00e7ada, Irineu Rosa dos Santos, 53, tenta arrumar dinheiro pra comprar um pequeno botij\u00e3o de g\u00e1s. H\u00e1 duas semanas, usa peda\u00e7os de paus para fazer uma fogueira e poder cozinhar.<\/p>\n<p>Desempregado, o homem vive de bicos, entrega de comida, limpeza, o que aparecer. No entanto, n\u00e3o aparece mais nada. Casa, emprego, n\u00e3o s\u00e3o coisas com que ele sonhe mais. O tempo na rua passa r\u00e1pido e transforma as pessoas, ele diz.<\/p>\n<p>&#8220;Ando sozinho. N\u00e3o preciso de companhia. Nessa situa\u00e7\u00e3o que estamos aqui, \u00e9 melhor n\u00e3o estar com mais ningu\u00e9m&#8221;, afirma.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/1791129\/desemprego-fome-e-falta-de-teto-escancaram-a-miseria-na-sao-paulo-pandemica?utm_source=rss-economia&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><br \/>\nNot\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Economia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;N\u00e3o sinto mais dor. 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