{"id":28703,"date":"2021-08-18T14:08:45","date_gmt":"2021-08-18T17:08:45","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/08\/18\/ex-noiva-americana-em-cabul-tenta-ajudar-afegas-que-pedem-socorro-contra-taleban\/"},"modified":"2021-08-18T14:08:45","modified_gmt":"2021-08-18T17:08:45","slug":"ex-noiva-americana-em-cabul-tenta-ajudar-afegas-que-pedem-socorro-contra-taleban","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/08\/18\/ex-noiva-americana-em-cabul-tenta-ajudar-afegas-que-pedem-socorro-contra-taleban\/","title":{"rendered":"Ex-&#8216;noiva americana em Cabul&#8217; tenta ajudar afeg\u00e3s que pedem socorro contra Taleban"},"content":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;Voc\u00ea poderia por gentileza salvar a minha vida? As pessoas sabem que sou uma menina solteira, formada em medicina, que trabalhei com europeus e americanos fazendo pesquisas sobre sa\u00fade da mulher. Quebrei as regras conservadoras da minha sociedade.&#8221;<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>A s\u00faplica desta afeg\u00e3 de 26 anos chegou a Phyllis Chesler por meio de um amigo ativista em comum, do Reino Unido. &#8220;Encontrei um lugar excelente na \u00cdndia, onde ela trabalharia num orfanato para meninas deficientes que uma querida amiga fundou em Calcut\u00e1&#8221;, diz Chesler, 80.<\/p>\n<p>N\u00e3o deu certo. Ap\u00f3s Cabul capitular para o Taleban, n\u00e3o teve mais not\u00edcias da m\u00e9dica que recusou pedidos de casamentos de parentes para poder continuar a exercer sua profiss\u00e3o. &#8220;N\u00e3o tenho conseguido entrar em contato com ela por telefone ou e-mail.&#8221;<\/p>\n<p>Professora em\u00e9rita de psicologia na Universidade de Nova York, Chesler \u00e9 uma feminista influente nos EUA. S\u00e3o dela estudos pioneiros sobre como mulheres foram historicamente associadas \u00e0 loucura por n\u00e3o cumprirem os pap\u00e9is dom\u00e9sticos e matrimoniais que se esperavam delas.<\/p>\n<p>Escritos mais recentes levaram a m\u00e9dica afeg\u00e3 a procur\u00e1-la. Contava com a empatia de Chesler. Em 2013, ela escreveu &#8220;An American Bride in Kabul&#8221; (uma noiva americana em Cabul), uma autobiografia que come\u00e7a assim: &#8220;Uma vez morei num har\u00e9m no Afeganist\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Criada numa fam\u00edlia de judeus ortodoxos em Nova York, Chesler tinha 18 anos quando, no fim dos anos 1950, apaixonou-se por um rapaz que compartilhava sua paix\u00e3o por existencialismo e nouvelle vague. Abdul-Kareem era um mu\u00e7ulmano ocidentalizado que dizia querer ser uma for\u00e7a pol\u00edtica modernizadora em seu Afeganist\u00e3o natal.<\/p>\n<p>No livro, ela relata a experi\u00eancia de viajar com o marido para a na\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica e ver seu passaporte ser confiscado pouco ap\u00f3s aterrissar. Sem ajuda da embaixada americana, que dizia nada poder fazer por uma mulher sem documenta\u00e7\u00e3o, foi viver na casa do sogro polig\u00e2mico, confinada a assistir \u00e0 sogra costurar e bater nas serventes, mesmo em uma Cabul que respirava ares mais progressistas \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Seu marido dizia que s\u00f3 n\u00e3o a queria zanzando pelas ruas sozinha por temer que a jovem americana de jeans e t\u00eanis fosse sequestrada e estuprada. &#8220;Descobri rapidamente que seu pai tinha tr\u00eas esposas e 21 filhos e que eu deveria morar com a m\u00e3e dele&#8221;, conta ela \u00e0 Folha de S.Paulo. &#8220;Eu n\u00e3o tinha permiss\u00e3o para sair sem um acompanhante masculino e uma parente mulher. N\u00e3o podia deixar o pa\u00eds porque eles haviam removido meu passaporte, algo que acontecia com todas as noivas estrangeiras. Era, portanto, uma prisioneira num purdah [conceito para definir a pr\u00e1tica de esconder mulheres por meio de v\u00e9us isl\u00e2micos] muito elegante.&#8221;<\/p>\n<p>Chesler ficou seis meses cativa e voltou para os EUA valendo-se de uma desculpa m\u00e9dica. Estava gr\u00e1vida e com uma forte disenteria. Como precisava de melhores cuidados, recebeu a permiss\u00e3o para deixar o pa\u00eds. Diz que beijou o ch\u00e3o do aeroporto JFK, em Nova York, ao desembarcar &#8220;na terra das livrarias&#8221;.<\/p>\n<p>Mas aquele era o Afeganist\u00e3o anterior \u00e0 invas\u00e3o sovi\u00e9tica e a d\u00e9cadas de conflitos internos que, em 1996, terminaram com a tomada de poder pelos talebans. Esse simulacro de califado isl\u00e2mico medieval durou at\u00e9 2001, quando os anfitri\u00f5es de Osama bin Laden e sua Al Qaeda foram escorra\u00e7ados por for\u00e7as americanas e brit\u00e2nicas ap\u00f3s os atentados que arquitetaram para o 11 de setembro daquele ano.<\/p>\n<p>Sua experi\u00eancia em Cabul, reconhece Chesler, \u00e9 fichinha perto do que as afeg\u00e3s passaram nos cinco anos de regime taleban. Trabalhar, estudar ou ter contato com homens que n\u00e3o fossem da fam\u00edlia? Nem pensar.<\/p>\n<p>&#8220;Entre os abusos mais sistem\u00e1ticos e destrutivos do Taleban contra as mulheres estava a nega\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma a ONG Human Rights Watch. &#8220;Durante seu governo, eles proibiram quase toda a educa\u00e7\u00e3o para as meninas e as adultas.&#8221;<\/p>\n<p>Sair de casa sem burca, o v\u00e9u que cobre da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, era tamb\u00e9m impens\u00e1vel, at\u00e9 porque &#8220;o rosto de uma mulher \u00e9 a fonte da corrup\u00e7\u00e3o&#8221;, como explicou um porta-voz do grupo \u00e0 \u00e9poca. Havia ainda um departamento &#8220;de promo\u00e7\u00e3o da virtude e preven\u00e7\u00e3o do v\u00edcio&#8221;, conhecido como pol\u00edcia moral, para colocar desviantes na linha. Um de seus decretos previa cobrir de tinta preta janelas do primeiro andar, para que quem estivesse na rua n\u00e3o tivesse qualquer vislumbre das mulheres dentro de casa.<\/p>\n<p>No primeiro ano no comando, os talebans fecharam sal\u00f5es de beleza e deceparam parte do ded\u00e3o de uma mulher com esmalte nas unhas. As puni\u00e7\u00f5es \u00e0s infratoras inclu\u00edam a\u00e7oitamentos e execu\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Quando a m\u00e9dica que tenta escapar de Cabul procurou Chesler, a marcha dos talebans j\u00e1 parecia irrefre\u00e1vel. &#8220;Ouvi dizer que, em algumas prov\u00edncias onde o Taleban assumiu o controle, meninas solteiras s\u00e3o obrigadas \u00e0 for\u00e7a a se casar [com membros do movimento]&#8221;, a afeg\u00e3 relata em mensagem publicada pela americana. &#8220;Alguns pais decidiram &#8216;sacrificar&#8217; suas filhas, entregando-as para o matrim\u00f4nio apenas para obter a satisfa\u00e7\u00e3o do Taleban, esperando que assim estejam protegidos dos pr\u00f3ximos ataques.&#8221;<\/p>\n<p>Ativistas e ONGs estrangeiras t\u00eam recebido not\u00edcias de afeg\u00e3s que pagam contrabandistas para lev\u00e1-las a pa\u00edses vizinhos como Paquist\u00e3o, \u00cdndia e Tajiquist\u00e3o. &#8220;S\u00e3o lugares hostis e mis\u00f3ginos. Elas preferem um futuro desconhecido a ficar e enfrentar o Taleban.&#8221; O avan\u00e7o dos fundamentalistas pelo territ\u00f3rio impulsionou not\u00edcias como a da jovem de 21 anos morta a tiros por usar uma burca considerada justa demais. O assassinato foi atribu\u00eddo \u00e0 fac\u00e7\u00e3o fundamentalista, que negou sua autoria.<\/p>\n<p>A feminista veterana reconhece que a m\u00e9dica \u00e9 uma entre &#8220;milhares de mulheres, dissidentes e homossexuais&#8221; que agora entram na mira do grupo que volta ao controle. E nem ela conseguiu se salvar, ao menos por enquanto. Deu de cara com muros burocr\u00e1ticos. O governo brit\u00e2nico, segundo Chesler, recusou-se a colocar a afeg\u00e3 num voo para fora do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Uma ONG norueguesa para a qual a m\u00e9dica inclusive j\u00e1 trabalhou disse que a ajudaria, &#8220;mas apenas depois de ela magicamente aparecer na Noruega&#8221;, ironiza Chesler. &#8220;Um alem\u00e3o ofereceu fundos e talvez um jato executivo, mas ele, tamb\u00e9m, n\u00e3o conseguiu fazer com que o governo do seu pa\u00eds ajudasse.&#8221;<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de remover tropas ocidentais do Afeganist\u00e3o ap\u00f3s 20 anos de guerra, para ela, foi precipitada, &#8220;para n\u00e3o dizer horr\u00edvel&#8221;. &#8220;Sabemos o que acontecer\u00e1 em seguida, o que j\u00e1 est\u00e1 acontecendo. Ser\u00e3o incont\u00e1veis massacres, execu\u00e7\u00f5es, amputa\u00e7\u00f5es a mando da sharia [a lei isl\u00e2mica] e apedrejamentos.&#8221;<\/p>\n<p>Para a ex-noiva americana em Cabul, ao desistir do conflito, o presidente dos EUA, Joe Biden, mostra n\u00e3o ter apre\u00e7o pelas afeg\u00e3s. &#8220;Embora os EUA tenham ido ao Afeganist\u00e3o para encontrar Bin Laden, o empoderamento das mulheres foi possibilitado pela presen\u00e7a de botas ocidentais&#8221;, diz. &#8220;A ilus\u00e3o de que poder\u00edamos moderar a barb\u00e1rie medieval foi colocada de lado. A probabilidade de o Taleban treinar jihadistas de todos os lugares \u00e9 maior do que antes. Genghis Khan triunfou sobre a Am\u00e9rica de Biden.&#8221;<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Mundo<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/mundo\/1833892\/ex-noiva-americana-em-cabul-tenta-ajudar-afegas-que-pedem-socorro-contra-taleban?utm_source=rss-mundo&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;Voc\u00ea poderia por gentileza salvar a minha vida? 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