{"id":2827,"date":"2021-03-30T16:09:18","date_gmt":"2021-03-30T19:09:18","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/03\/30\/morre-contardo-calligaris-o-psicanalista-italiano-que-pos-o-brasil-no-diva\/"},"modified":"2021-03-30T16:09:18","modified_gmt":"2021-03-30T19:09:18","slug":"morre-contardo-calligaris-o-psicanalista-italiano-que-pos-o-brasil-no-diva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/03\/30\/morre-contardo-calligaris-o-psicanalista-italiano-que-pos-o-brasil-no-diva\/","title":{"rendered":"Morre Contardo Calligaris, o psicanalista italiano que p\u00f4s o Brasil no div\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) &#8211; O estilo de se expressar de Contardo Calligaris, morto nesta ter\u00e7a-feira (30), aos 72 anos, era bastante particular. Gestual envolvente, olhar sedutor, tiradas ir\u00f4nicas e um sotaque que embaralhava italiano, ingl\u00eas e portugu\u00eas eram a marca de sua presen\u00e7a tanto num debate profissional como no h\u00e1bito de que ele tanto gostava, o da tert\u00falia com os amigos.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>A morte de Calligaris foi confirmada por seu filho, o cineasta Maximilien Calligaris, numa rede social. Segundo ele, diante da proximidade da morte, seu pai disse que esperava &#8220;estar \u00e0 altura&#8221;. O psicanalista, escritor e dramaturgo se firmou nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas no Brasil como um fino observador da cultura e do comportamento do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O diretor de Reda\u00e7\u00e3o da Folha de S.Paulo, Otavio Frias Filho, morto em 2018, gostava de provocar Calligaris, dizendo que, no fundo, ele devia ser um argentino que tinha inventado uma viv\u00eancia por v\u00e1rios pa\u00edses s\u00f3 para justificar o sotaque que virou sua marca.<\/p>\n<p>Calligaris, de bom humor, sempre ria dessa brincadeira. Ali\u00e1s, n\u00e3o era pequena a admira\u00e7\u00e3o de Frias Filho por ele. Ambos compartilhavam um gosto semelhante no que diz respeito a cinema e teatro e um interesse por entender a sexualidade humana.<\/p>\n<p>O sotaque, expliquemos logo, era resultado do fato de Calligaris ser italiano, por\u00e9m de ter sido alfabetizado em ingl\u00eas. Vinha de uma fam\u00edlia que havia lutado contra o fascismo de Mussolini e este era justamente o idioma da resist\u00eancia, como conta Calligaris em &#8220;Hello, Brasil&#8221;, escrito nos anos 1990.<\/p>\n<p>Na reedi\u00e7\u00e3o desse livro, em 2017, Calligaris afirmava que j\u00e1 n\u00e3o poderia mais escrever sobre o pa\u00eds com o olhar de um estrangeiro, j\u00e1 que se sentia cada vez mais brasileiro. Ele nasceu em Mil\u00e3o, em 2 de junho de 1948. Escritor, psicanalista e dramaturgo, manteve uma coluna neste jornal desde 1999, \u00e0s quintas-feiras, dedicadas a temas da psican\u00e1lise, filmes, pe\u00e7as e livros.<\/p>\n<p>&#8220;Nascido em Mil\u00e3o, cidad\u00e3o do mundo e tradutor do Brasil, Contardo Calligaris elevou o patamar do colunismo de cultura no Brasil. Foi testemunha ocular das principais mudan\u00e7as de comportamento dos \u00faltimos 50 anos. Deixar\u00e1 uma lacuna gigante&#8221;, afirmou S\u00e9rgio D\u00e1vila, diretor de Reda\u00e7\u00e3o da Folha de S.Paulo.<\/p>\n<p>Com o tempo, certa rigidez das abordagens iniciais se reduziu. Os temas deixaram de ser mais acad\u00eamicos ou mais relacionados a seu consult\u00f3rio. Calligaris passou a se sentir mais \u00e0 vontade -talvez mais brasileiro- para tratar de acontecimentos de sua vida cotidiana em S\u00e3o Paulo, virando um cronista da cidade, com um olhar \u00e1cido e divertido, transformando acontecimentos prosaicos em pe\u00e7as sobre o comportamento humano.<\/p>\n<p>Como numa das colunas, em que ele contou estar dirigindo numa madrugada na avenida Sapopemba, na zona leste, e, ao ver um c\u00e3o prestes a tentar atravessar a via, e assim se arriscar \u00e0 morte, desceu do carro e, para o seduzir a ficar onde estava, comprou para ele um faustoso churrasco numa barraquinha e o tranquilizou.<\/p>\n<p>Sua rela\u00e7\u00e3o com a capital paulista teve in\u00edcio em 1986, depois de lan\u00e7ar seu livro &#8220;Hip\u00f3tese sobre o Fantasma&#8221;. Calligaris veio ao Brasil para fazer palestras, e recebeu a proposta de um grupo de psicanalistas para que passasse 15 dias a cada dois meses em S\u00e3o Paulo, para serem analisados por ele. Aceitou.<\/p>\n<p>Depois de v\u00e1rias viagens, acabou se instalando num apartamento nos Jardins. E passou a ter o h\u00e1bito de jantar quase todos os dias no restaurante Tatini, na rua Batataes. Quando ia sozinho, levava um livro ou anota\u00e7\u00f5es. Mas tamb\u00e9m era ali que gostava de levar amigos para papear at\u00e9 altas horas.<\/p>\n<p>Calligaris gostava muito de escrever e ler em caf\u00e9s -h\u00e1bito mais europeu do que paulistano- e sentia falta de locais para fazer isso em S\u00e3o Paulo. Mesmo assim, o cultivava, e v\u00e1rias vezes se pegou fazendo anota\u00e7\u00f5es na cal\u00e7ada mesmo. Por isso, era normal o ver sempre com uma ou duas canetas no bolso.<\/p>\n<p>Ler e escrever em avi\u00f5es tamb\u00e9m eram parte de seu h\u00e1bito. E, como viajava muito, chegava a ler dois livros por voo entre S\u00e3o Paulo e Nova York, contando o tempo que passava no que chamava de &#8220;limbo&#8221;, os aeroportos e sal\u00f5es de embarque.<\/p>\n<p>Calligaris teve uma forma\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, filho de um cardiologista e de uma tenista. Na sua adolesc\u00eancia, na It\u00e1lia, conta que havia vivido &#8220;paix\u00f5es ideais contradit\u00f3rias&#8221;. Eram os anos 1960, e ele contava ter sido logo influenciado pela obra do jornalista liberal e antifascista Piero Gobetti. Depois disso, leu Antonio Gramsci e passou a se considerar um socialista. Por outro lado, ia se apaixonando tamb\u00e9m pela contracultura americana.<\/p>\n<p>Tinha uma rela\u00e7\u00e3o complicada com sua origem italiana, que n\u00e3o negava mas com a qual mantinha certa dist\u00e2ncia -achava que a imagem de seu pa\u00eds no exterior estava demasiado ligada ao fascismo ou \u00e0 estrid\u00eancia de sua cultura popular.<\/p>\n<p>Trabalhou, ainda na juventude, num jornal mensal de cultura, o &#8220;Utopia&#8221;. Depois de passar uma temporada no Reino Unido, foi estudar em Genebra e em Paris. Na Su\u00ed\u00e7a, foi aluno do historiador Jean Starobinski e do cr\u00edtico liter\u00e1rio George Steiner. Na Fran\u00e7a, ele se aprofundou no estudo da psican\u00e1lise, estudando com Jacques Lacan e Michel Foucault. Sua tese em semiologia foi orientada por Roland Barthes.<\/p>\n<p>Contava que se sentia &#8220;um peixe fora d&#8217;\u00e1gua&#8221;, na Fran\u00e7a dos anos 1970, por ter uma forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica lacaniana, estudando na escola freudiana de Paris, mas, ao mesmo tempo, interessado na obra de culturalistas americanos como Karen Horney e Erich Fromm.<\/p>\n<p>Seu \u00edmpeto contradit\u00f3rio fez com que o pai, quando Calligaris ainda era crian\u00e7a, dissesse ao filho que tinha dado a ele um nome errado. Que o deveria ter chamado de Contr\u00e1rio, e n\u00e3o de Contardo.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o que eu fosse permanentemente do contra, mas, desde pequeno, parecia que eu s\u00f3 sabia come\u00e7ar minhas frases por um &#8216;mas'&#8221;, ele dizia.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, foi professor de antropologia na Universidade da Calif\u00f3rnia e de e estudos culturais na New School, em Nova York. No Brasil, come\u00e7ou a atuar como psicanalista e, aos poucos, a construir uma personalidade p\u00fablica constantemente chamada a falar em p\u00fablico sobre temas sobre amor, rela\u00e7\u00f5es humanas, sexualidade e quest\u00f5es existenciais. Sua rela\u00e7\u00e3o com S\u00e3o Paulo foi se tornando mais intensa e seu personagem, mais popular. Vieram, ent\u00e3o, suas obras para teatro, romances e uma s\u00e9rie para a televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Teve oito casamentos e explicava essa cifra afirmando que era porque, quando se apaixonava, n\u00e3o queria &#8220;ver a pessoa apenas de vez em quando&#8221;, mas sim que gostava da conviv\u00eancia e do desafio de construir uma rela\u00e7\u00e3o. Seu interesse pela sexualidade humana tamb\u00e9m fez dele um explorador nessa \u00e1rea, que o levou a se interessar pelo que se passava no submundo sexual paulistano.<\/p>\n<p>Entre suas aventuras, uma das que fez p\u00fablica, foi o caso com uma malabarista de tr\u00e2nsito de S\u00e3o Paulo. Mas sua busca e seu interesse eram cont\u00ednuos. Dizia aos amigos que precisava fazer sexo todos os dias, sen\u00e3o n\u00e3o dormia direito.<\/p>\n<p>Calligaris teve um filho, Maximilien, nascido na Fran\u00e7a. At\u00e9 recentemente, ainda lutava boxe, o esporte que praticou na juventude e que rendeu a ele uma bolsa de estudos quando vivia na Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p>Numa entrevista a um meio ga\u00facho, em maio de 2020, Calligaris falou sobre a pandemia do coronav\u00edrus e sobre o medo que sentia de que alguns h\u00e1bitos e cenas do passado n\u00e3o voltassem mais.<\/p>\n<p>Entre eles, dois dos quais gostava tanto, como ir ao cinema ou entrar num avi\u00e3o sem medo. E, para exemplificar sua tristeza com a pandemia, que logo de in\u00edcio afetou tanto o seu pa\u00eds-natal, falou de uma imagem que viu da Piazza del Campo, de Siena, deserta por causa do confinamento. Era ali, disse, que, al\u00e9m dos turistas, os jovens caminhavam e buscavam flertar ou iniciar uma aventura amorosa. E se isso n\u00e3o voltasse nunca mais?<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Cultura<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1790942\/morre-contardo-calligaris-o-psicanalista-italiano-que-pos-o-brasil-no-diva?utm_source=rss-cultura&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) &#8211; O estilo de se expressar de Contardo Calligaris, morto nesta<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":2828,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2827","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2827","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2827"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2827\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2827"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2827"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2827"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}