{"id":25753,"date":"2021-08-01T13:08:27","date_gmt":"2021-08-01T16:08:27","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/08\/01\/professores-vao-de-casa-em-casa-para-trazer-alunos-de-volta-a-escola-em-sp\/"},"modified":"2021-08-01T13:08:27","modified_gmt":"2021-08-01T16:08:27","slug":"professores-vao-de-casa-em-casa-para-trazer-alunos-de-volta-a-escola-em-sp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/08\/01\/professores-vao-de-casa-em-casa-para-trazer-alunos-de-volta-a-escola-em-sp\/","title":{"rendered":"Professores v\u00e3o de casa em casa para trazer alunos de volta \u00e0 escola em SP"},"content":{"rendered":"<p>ANGELA PINHO E ISABELA PALHARES<br \/>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;Oi, \u00e9 a Jucilene do Heckel.&#8221; A frase era dita na porta de cada casa da favela Terra Prometida onde Jucilene de Araujo Freitas, 47, encontrou m\u00e3es de alunos da escola estadual Heckel Tavares, na regi\u00e3o do Jardim Helena, no extremo leste de S\u00e3o Paulo, naquela manh\u00e3 fria da quarta-feira (28).<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>A uma semana do in\u00edcio do segundo semestre letivo, diretores e professores de escolas p\u00fablicas de S\u00e3o Paulo t\u00eam feito maratona de liga\u00e7\u00f5es, mensagens e visitas para chamar os alunos de volta \u00e0 sala de aula e recuperar o estrago de quase um ano de escolas fechadas na capital paulista.<br \/>Na quarta, chovia e a temperatura era de 12\u00baC quando, de malha, gorro e guarda-chuva, Jucilene atravessou a rua da escola para fazer o mesmo na comunidade na beira do rio Tiet\u00ea onde mora parte dos seus alunos.<\/p>\n<p>A Heckel Tavares j\u00e1 tinha sido reaberta antes, mas, agora, ser\u00e1 poss\u00edvel atender um contingente maior devido \u00e0 decis\u00e3o do governo Jo\u00e3o Doria (PSDB) de acabar com a exig\u00eancia de um rod\u00edzio de 35% dos alunos. Desde que respeitada a dist\u00e2ncia de um metro entre os estudantes, pode-se atender at\u00e9 100% deles.<\/p>\n<p>Jucilene se programou para receber at\u00e9 70% todos os dias. \u00c9 uma meta ambiciosa.<\/p>\n<p>No primeiro semestre, mais de um ter\u00e7o dos estudantes do fundamental 2 frequentaram a escola presencialmente, de forma escalonada. No m\u00e9dio, s\u00f3 20%, porque muitos come\u00e7aram a trabalhar. E h\u00e1 ainda uma parcela de 20% que n\u00e3o aparece nem nas aulas presenciais nem nas remotas.<\/p>\n<p>Quando chove muito na Terra Prometida, o rio Tiet\u00ea chega a transbordar e, por vezes, os moradores t\u00eam que se abrigar na escola, como chegou a acontecer por uma semana logo antes de a pandemia come\u00e7ar.<\/p>\n<p>Mas s\u00f3 com chuva, sem temporal, d\u00e1 pra ir fazer a busca ativa, diz Jucilene. E \u00e9 necess\u00e1rio. &#8220;N\u00e3o adianta colocar no grupo de WhatsApp, tem gente que n\u00e3o tem celular e n\u00e3o vai ver&#8221;, explica.<br \/>A primeira m\u00e3e que ela encontra \u00e9 Liliane da Cruz, m\u00e3e de duas alunas, uma de 12 e outra de 17.<br \/>Por mais de um ano as meninas ficaram sem celular para assistir \u00e0s aulas. Hoje dividem um aparelho.<\/p>\n<p>Na segunda-feira estar\u00e3o na escola, diz a m\u00e3e. &#8220;N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa por telefone, n\u00e3o d\u00e1 pra tirar as d\u00favidas.&#8221;<\/p>\n<p>Jucilene sai dali e, para seguir em frente, esgueira-se por uma passagem de n\u00e3o mais de 30 cm de largura ao lado de uma po\u00e7a d&#8217;\u00e1gua gigantesca.<\/p>\n<p>Em outro barraco est\u00e1 uma m\u00e3e que sabe da volta \u00e0s aulas, mas que precisa de aux\u00edlio para se inscrever no Bolsa do Povo Educa\u00e7\u00e3o, programa que ir\u00e1 selecionar 20 mil respons\u00e1veis de alunos da rede estadual para prestar servi\u00e7os de apoio nas escolas estaduais, por R$ 500 mensais.<\/p>\n<p>Jucilene olha o celular dela para ajud\u00e1-la e se dirige \u00e0 associa\u00e7\u00e3o local de moradores para colar um cartaz com aviso sobre a volta \u00e0s aulas. A sede \u00e9 provis\u00f3ria, porque o barraco onde ficava a anterior desabou. No caminho, aparece outra m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8220;V\u00e2nia, as meninas v\u00e3o na segunda? Falta muito pouco pra elas se formarem. Elas n\u00e3o perderam o ano.&#8221;<\/p>\n<p>Para muitas crian\u00e7as e jovens das comunidades do entorno, a escola \u00e9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia, diz a diretora. D\u00e1 pra saber para quais. S\u00e3o aqueles alunos que repetem o prato tr\u00eas vezes na hora da merenda. Ou que chegam \u00e0 escola na segunda-feira dizendo &#8220;estou morrendo de fome&#8221; porque mal comeram no fim de semana. E tem m\u00e3e que bate na porta e pede pra comer um prato tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Jucilene teve medo de n\u00e3o estar viva pra contar a hist\u00f3ria desse ano em que as escolas estiveram fechadas.<br \/>Em dezembro, j\u00e1 de f\u00e9rias, pegou Covid e ficou 21 dias internada. Perdeu 12 kg. &#8220;Foi bem traum\u00e1tico. Eu n\u00e3o posso desanimar depois de tudo o que eu j\u00e1 passei.&#8221;<\/p>\n<p>Em toda a cidade, casos de crian\u00e7as que n\u00e3o apareceram nem na aula nem nas atividades remotas est\u00e3o sendo relatados aos conselhos tutelares. A orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 que isso s\u00f3 seja feito depois de a escola esgotar todas as tentativas: liga\u00e7\u00e3o, email, mensagem em rede social e carta registrada.<\/p>\n<p>Conselheira tutelar de Canga\u00edba, na zona leste, Ana Lucia Oliveira conta que o n\u00famero varia, mas que h\u00e1 escolas que t\u00eam 56 alunos n\u00e3o localizados. H\u00e1 unidades em que funcion\u00e1rios pegam at\u00e9 carro de som para encontrar os estudantes, mas outras escolas n\u00e3o v\u00e3o atr\u00e1s, queixa-se.<\/p>\n<p>O total de alunos que se desligaram da escola, ou seja, que n\u00e3o voltaram \u00e0s aulas presenciais e tamb\u00e9m n\u00e3o acompanham as atividades remotas, \u00e9 ainda uma inc\u00f3gnita para as secretarias municipais e estaduais de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas escolas da prefeitura, por exemplo, a estimativa \u00e9 que 30% dos cerca de 740 mil alunos n\u00e3o est\u00e3o acompanhando as aulas em nenhum dos dois formatos.<\/p>\n<p>S\u00e3o esses os estudantes que as a\u00e7\u00f5es de busca ativa tentam encontrar, mas os educadores estimam que o n\u00famero de crian\u00e7as em situa\u00e7\u00f5es de risco possa ser ainda maior.<\/p>\n<p>&#8220;Encontramos tantas situa\u00e7\u00f5es diferentes durante a pandemia, como o caso de crian\u00e7as que acompanham as aulas remotas e est\u00e3o vivendo na rua com as fam\u00edlias, meninas gr\u00e1vidas, jovens que est\u00e3o trabalhando&#8221;, diz M\u00e1rcia Bonif\u00e1cio, coordenadora do Naapa (N\u00facleo de Apoio e Acompanhamento para a Aprendizagem), da secretaria municipal de Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O n\u00facleo tem ajudado os professores a buscar solu\u00e7\u00f5es para situa\u00e7\u00f5es de riscos e definir quais casos devem ser encaminhados aos conselhos tutelares.<\/p>\n<p>Na Emef Badra, no Jardim da Conquista, extremo da regi\u00e3o noroeste da capital, os educadores tentam localizar cerca de 100 dos 900 matriculados. S\u00f3 na \u00faltima semana, os professores fizeram mais de 122 liga\u00e7\u00f5es atr\u00e1s de fam\u00edlias. Nos casos em que n\u00e3o conseguem contato, v\u00e3o \u00e0s casas.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 da \u00faltima sexta (30), tr\u00eas educadores, acompanhados de duas m\u00e3es de alunos, percorriam as vielas do bairro na miss\u00e3o de encontrar os estudantes que faltavam.<\/p>\n<p>&#8220;Temos um duplo desafio na localiza\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias: elas trocam muito de telefone e n\u00e3o nos comunicam e os endere\u00e7os do bairro n\u00e3o t\u00eam CEP ou numera\u00e7\u00e3o. Quem nos ajuda s\u00e3o os vizinhos e comerciantes&#8221;, conta o professor Eduardo dos Reis.<\/p>\n<p>Dos primeiros tr\u00eas endere\u00e7os buscados, em apenas um encontraram a fam\u00edlia. Bianca da Silva, 24, trocou de celular e perdeu o contato com a escola. Ela n\u00e3o sabia que as aulas da filha Ana Clara, 6, voltariam na segunda (2).<br \/>&#8220;Ela s\u00f3 fala em voltar para a escola, ainda bem que as aulas v\u00e3o recome\u00e7ar. Ela fica em casa sem ter com quem brincar, sem aprender.&#8221; A menina recebeu o tablet da Prefeitura de S\u00e3o Paulo para fazer as atividades online, mas ainda tem dificuldade em fazer as li\u00e7\u00f5es por n\u00e3o saber ler e escrever.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, a Badra s\u00f3 podia receber 35% dos alunos. Com os dias intercalados, poucas eram as crian\u00e7as que frequentavam as aulas. A partir de segunda, as turmas ser\u00e3o divididas em dois grupos e cada um ir\u00e1 em uma semana.<\/p>\n<p>A frequ\u00eancia \u00e0s aulas presenciais continua sendo opcional. Para Ricardo Marcusso, diretor da Badra, a obrigatoriedade do retorno pode prejudicar ainda mais os estudantes vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>&#8220;Tenho alunos do 9\u00ba ano que est\u00e3o trabalhando ou fazendo bico para ajudar a fam\u00edlia. Eles fazem isso no hor\u00e1rio da aula, mas continuam entregando as atividades online ou aparecem na escola em alguns dias&#8221;, conta.<\/p>\n<p>&#8220;Se eu obrigar esse menino a vir todo dia, ele vai abandonar os estudos, porque ele trabalha por necessidade. A inclus\u00e3o n\u00e3o pode trazer mais exclus\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>At\u00e9 a \u00faltima semana, a escola tinha recebido presencialmente 336 alunos e outros 430 s\u00f3 participavam das atividades remotas. A partir do dia 2, o diretor diz que as fam\u00edlias que optarem por continuar apenas com o ensino remoto ter\u00e3o de assinar um termo em que se comprometem com o acompanhamento peri\u00f3dico das aulas.<\/p>\n<p>Para Marcusso, com a possibilidade de receber mais alunos e o termo de compromisso, a escola ter\u00e1 mais controle de quantas e quais crian\u00e7as est\u00e3o em risco de abandono escolar. A unidade j\u00e1 encaminhou 12 casos ao conselho tutelar e acompanha outros 6.<\/p>\n<p>&#8220;As situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia, abuso s\u00e3o imediatamente reportadas, mas, em outros, insistimos na conversa. H\u00e1 casos de fam\u00edlias que n\u00e3o entendem a import\u00e2ncia da crian\u00e7a voltar \u00e0 escola agora e \u00e9 nesses que insistimos.&#8221;<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/1828593\/professores-vao-de-casa-em-casa-para-trazer-alunos-de-volta-a-escola-em-sp?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANGELA PINHO E ISABELA PALHARESS\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;Oi, \u00e9 a Jucilene do Heckel.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":25754,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-25753","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25753","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25753"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25753\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25754"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25753"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25753"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25753"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}