{"id":2390,"date":"2021-03-29T06:13:05","date_gmt":"2021-03-29T09:13:05","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/03\/29\/covid-19-fui-mutilada-aprendendo-a-conviver-com-o-que-restou-de-mim\/"},"modified":"2021-03-29T06:13:05","modified_gmt":"2021-03-29T09:13:05","slug":"covid-19-fui-mutilada-aprendendo-a-conviver-com-o-que-restou-de-mim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/03\/29\/covid-19-fui-mutilada-aprendendo-a-conviver-com-o-que-restou-de-mim\/","title":{"rendered":"Covid-19: &quot;Fui mutilada. Aprendendo a conviver com o que restou de mim&quot;"},"content":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Na garupa da moto, abra\u00e7ada ao marido, vento no rosto, ela se sentia revigorada depois de o casal ter superado a Covid-19. Ambos foram infectados pelo v\u00edrus, mas o quadro dele foi mais grave, passou 18 dias intubado numa UTI.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Aquele passeio celebrava uma supera\u00e7\u00e3o. Sete meses depois, Daniela Souza Antoneli, 49, foi surpreendida pela morte do companheiro, v\u00edtima de infarto. Desde 28 de dezembro, passou a viver sozinha. &#8220;Fui mutilada. Estou aprendendo a conviver com o que restou de mim&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Leia Tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/1790440\/brasil-registra-novo-recorde-na-media-movel-com-2598-mortes-diarias-por-covid\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Brasil registra novo recorde na m\u00e9dia m\u00f3vel com 2.598 mortes di\u00e1rias por Covid<\/a><\/p>\n<p>Vez ou outra, d\u00e1 vontade de sumir, desaparecer. &#8220;A sensa\u00e7\u00e3o de desamparo \u00e9 recorrente. Maior que ela s\u00f3 mesmo o desejo de seguir em frente.&#8221;<\/p>\n<p>Moradora do Trememb\u00e9, zona norte da capital, Daniela tem uma filha de 23 anos, que vive no interior paulista. Hoje, ela se apoia na companhia dos c\u00e3es, Kika, 11, Nany, 8, e Buzz, 5, assim como no contato remoto que mant\u00e9m com os amigos e os parentes.<\/p>\n<p>O sentimento profundo pela morte de um ente querido se avoluma num est\u00e1gio de restri\u00e7\u00f5es ainda mais severas diante do descontrole de transmiss\u00e3o do coronav\u00edrus. &#8220;Entre abril e maio do ano passado, tinha vivenciado uma esp\u00e9cie de luto precoce, quando ele estava grave, em coma.&#8221;<\/p>\n<p>Numa \u00e9poca em que os dias parecem todos iguais, viver s\u00f3 e ainda confinada \u00e9 um desafio de supera\u00e7\u00e3o e, sobretudo, um aprendizado. &#8220;Num momento t\u00e3o solit\u00e1rio e desesperan\u00e7oso como agora, com pouca vacina, a solid\u00e3o tem sido um exerc\u00edcio di\u00e1rio de renova\u00e7\u00e3o e f\u00e9. Independentemente do que sinto, estou \u00e0 procura de um novo sentido para a minha vida.&#8221;<\/p>\n<p>Quase 290 mil mulheres moravam sozinhas na cidade de S\u00e3o Paulo, enquanto os homens somavam 215 mil, segundo o Censo de 2010.<\/p>\n<p>Patr\u00edcia Mattos, psiquiatra da Unifesp, explica que nossos mecanismos naturais de autocura est\u00e3o intrinsecamente ligados a uma presen\u00e7a humana de seguran\u00e7a. &#8220;S\u00f3 que, neste momento, estar com o outro \u00e9 uma amea\u00e7a&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>A administradora de empresas N\u00e1dia Martins, 43, ainda tateia esse universo. H\u00e1 um ano e dois meses, ela perdeu o pai. Tr\u00eas meses atr\u00e1s, quem partiu foi a m\u00e3e. Enquanto digeria o luto, ficou desempregada. &#8220;Em pouco mais de um ano, minha vida virou completamente de cabe\u00e7a para baixo. Perdi as minhas refer\u00eancias.&#8221;<\/p>\n<p>Nestes tempos fr\u00e1geis, N\u00e1dia diz que est\u00e1 se reerguendo. &#8220;Cada dia \u00e9 uma descoberta.&#8221;<\/p>\n<p>O per\u00edodo em que a solid\u00e3o parece bater mais forte \u00e9 \u00e0 noite.<\/p>\n<p>&#8220;Quando tudo se aquieta, sinto-me solit\u00e1ria. \u00c9 uma fase lenta e dolorosa de aprender a cuidar de mim como eu cuidava dos meus pais. Mas, apesar de estar sozinha, nem sempre me sinto s\u00f3&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Pode at\u00e9 parecer paradoxal, mas estar s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 necessariamente sentir-se s\u00f3, na avalia\u00e7\u00e3o de Paulo S\u00e9rgio Boggio, 46, coordenador do Laborat\u00f3rio de Neuroci\u00eancia Cognitiva e Social da Universidade Mackenzie. Explica: &#8220;H\u00e1 pessoas que vivem com outras e sentem solid\u00e3o assim como h\u00e1 aquelas que vivem s\u00f3, mas com uma rede de contatos, carinhos e ideias que n\u00e3o as faz se sentirem sozinhas&#8221;.<\/p>\n<p>Arthur Danila, coordenador do programa de mudan\u00e7a de h\u00e1bito e estilo de vida do Instituto de Psiquiatria do HC da USP, afirma que a pandemia nos imp\u00f4s um luto da liberdade. Encontrar novos significados para a vida ganha propor\u00e7\u00f5es ainda mais desafiadoras.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 nessa hora que transformamos adversidades e trag\u00e9dias em resili\u00eancia social. Nos modificamos e nos fortalecemos ao entender que o isolamento implica perdas e restri\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m amplia nosso repert\u00f3rio, permitindo transformar solid\u00e3o em solitude&#8221;. Diz mais: &#8220;Temos a chance de aprender que podemos ser nossos melhores companheiros. Nos permitir conviver em harmonia conosco mesmos e, assim, poder enxergar melhor o outro&#8221;.<\/p>\n<p>Na lida com a solid\u00e3o, a bi\u00f3loga Sylvia Maria Affonso, 41, mant\u00e9m atividades virtuais em diferentes grupos de dan\u00e7a, ioga e medita\u00e7\u00e3o. Reserva todas as noites de ter\u00e7a para ligar para os amigos. &#8220;Por sorte, eles est\u00e3o dispon\u00edveis para conversar e manter esses v\u00ednculos t\u00e3o vitais.&#8221;<\/p>\n<p>Foi durante o isolamento que esses encontros foram redesenhados e ganharam maior relev\u00e2ncia. &#8220;Descobri quais s\u00e3o as pessoas de fato importantes para me dedicar mais tanto a elas quanto a mim.&#8221;<\/p>\n<p>Aos 86 anos, Herm\u00ednia Carvalho dos Santos n\u00e3o tem cabe\u00e7a nem paci\u00eancia para lidar com apetrechos tecnol\u00f3gicos. &#8220;Minha liga\u00e7\u00e3o com o mundo se d\u00e1 pelo meu \u00fanico companheiro, o r\u00e1dio.&#8221; Nos anos 1950, ela cantava em programas radiof\u00f4nicos no Rio, sua terra natal. &#8220;Canto, dan\u00e7o, as m\u00fasicas me trazem alegria e esperan\u00e7a. Vivo de recorda\u00e7\u00f5es para n\u00e3o cair na fossa.&#8221;<\/p>\n<p>Cat\u00f3lica, devota de S\u00e3o Jorge e Santa B\u00e1rbara, ela se conecta \u00e0s 18h, diariamente, com a f\u00e9. &#8220;Quando alguma coisa n\u00e3o anda bem, eu logo me agarro aos meus protetores&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Vi\u00fava, Herm\u00ednia tem quatro filhos, cinco netos e quatro bisnetos. Tomou as duas doses da vacina. Agora, espera ansiosamente pela imuniza\u00e7\u00e3o dos entes queridos.<\/p>\n<p>N\u00e3o reclama do fato de morar sozinha. &#8220;Viver s\u00f3 tem suas recompensas, n\u00e3o preciso dar satisfa\u00e7\u00e3o a ningu\u00e9m. Se quiser, fico pelada&#8221;, brinca. &#8220;Por outro lado, quero abra\u00e7ar e beijar a minha fam\u00edlia. Sinto muita falta do toque.&#8221;<\/p>\n<p>Tocar os outros tem efeito positivo na percep\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios negativos. O chamado toque afiliativo traz sensa\u00e7\u00e3o de conforto e suporte. &#8220;Isso ajuda a enfrentar situa\u00e7\u00f5es negativas com mais seguran\u00e7a&#8221;, diz o professor Boggio.<\/p>\n<p>Compartilhada por muita gente que mora s\u00f3, a preocupa\u00e7\u00e3o de Herm\u00ednia \u00e9 o medo de morrer sozinha, sem que ningu\u00e9m se d\u00ea conta de sua partida. &#8220;Como boa capricorniana, sou teimosa e tenho muita f\u00e9. Espero que essa trag\u00e9dia acabe logo e eu continue aqui.&#8221;<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/1790270\/pandemia-aprofunda-solidao-entre-mulheres?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Na garupa da moto, abra\u00e7ada ao marido, vento no rosto,<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":2391,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-2390","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2390","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2390"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2390\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2391"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2390"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2390"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2390"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}