{"id":238,"date":"2021-03-07T00:09:34","date_gmt":"2021-03-07T03:09:34","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/03\/07\/invisivel-violencia-psicologica-e-prevista-na-maria-da-penha-mas-dificil-de-denunciarnoticias-ao-minuto-brasil-brasil\/"},"modified":"2021-03-07T00:09:34","modified_gmt":"2021-03-07T03:09:34","slug":"invisivel-violencia-psicologica-e-prevista-na-maria-da-penha-mas-dificil-de-denunciarnoticias-ao-minuto-brasil-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/03\/07\/invisivel-violencia-psicologica-e-prevista-na-maria-da-penha-mas-dificil-de-denunciarnoticias-ao-minuto-brasil-brasil\/","title":{"rendered":"Invis\u00edvel, viol\u00eancia psicol\u00f3gica \u00e9 prevista na Maria da Penha, mas dif\u00edcil de denunciarNot\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil"},"content":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, RJ, E BRAS\u00cdLIA, DF (FOLHAPRESS) &#8211; Quem nunca? A advogada Fernanda Cseh, 37, se apaixonou r\u00e1pido. Conheceu Tiago no dia 6 de dezembro, e ele j\u00e1 passou o Natal com a fam\u00edlia dela, e ela, o Ano-Novo com a fam\u00edlia dele. Naquele R\u00e9veillon, contudo, ningu\u00e9m brindou.<br \/>N\u00e3o deu tempo. Vizinhos irritaram seu novo namorado com motos barulhentas, ele foi tirar satisfa\u00e7\u00e3o, um primo dele tentou apartar o pega-pra-capar e ganhou um corte no superc\u00edlio. Fernanda, que tinha curso de primeiros socorros por ter trabalhado num cruzeiro, se disp\u00f4s a ajudar.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Tiago surtou. &#8220;Falou coisas tipo &#8216;voc\u00ea t\u00e1 cuidando dele porque quer alguma coisa com ele'&#8221;, lembra Fernanda. &#8220;Foi surreal ter ido arrumar briga e depois brigar comigo porque eu estava socorrendo o primo. Esse foi o primeiro sinal.&#8221; De muitos.<\/p>\n<p>Hoje ela sabe muito bem o que se passou ali. Mas, como a maioria das mulheres v\u00edtimas dessa modalidade de agress\u00e3o, nada fez na \u00e9poca. N\u00e3o conseguiu enxergar algo de errado naquela rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Amea\u00e7as, constrangimento, humilha\u00e7\u00e3o, isolamento (proibir de estudar e viajar ou de falar com amigos e parentes), vigil\u00e2ncia constante, chantagem, explora\u00e7\u00e3o, ridiculariza\u00e7\u00e3o, distorcer fatos para deixar a mulher em d\u00favida sobre sua mem\u00f3ria e sanidade (o &#8220;gaslighting&#8221;).<\/p>\n<p>O homem n\u00e3o precisa tocar um dedo numa mulher para ser enquadrado na Lei Maria da Penha, que inclui todas essas hip\u00f3teses no escopo da viol\u00eancia psicol\u00f3gica. S\u00f3 no primeiro semestre de 2020, a ouvidoria do Minist\u00e9rio da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos recebeu 106,6 mil den\u00fancias que caem nessa categoria, a maioria vinda de mulheres.<\/p>\n<p>H\u00e1 outros canais aos quais recorrer, mas a soma de todas essas notifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o faz sombra ao tanto de mulheres que sofrem calada, muitas vezes por sequer compreender que foram alvo de crime. &#8220;Os n\u00fameros nos dizem pouco, porque [o delito] acaba sendo naturalizado e n\u00e3o chega na estat\u00edstica p\u00fablica&#8221;, diz Samira Bueno, diretora do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/p>\n<p>O instituto, em parceria com o Datafolha, perguntou a 1.092 entrevistadas, em 2019, se no \u00faltimo ano haviam sido xingadas, insultadas ou humilhadas, e 22% responderam que sim. Se projetarmos para a popula\u00e7\u00e3o feminina do pa\u00eds, s\u00e3o milh\u00f5es de mulheres.<\/p>\n<p>Fernanda n\u00e3o denunciou Tiago, que por pouco n\u00e3o completou o bingo da viol\u00eancia psicol\u00f3gica. O rapaz tinha gosto por &#8220;fanfics&#8221;, fic\u00e7\u00f5es que ele deixava girar em looping na cabe\u00e7a dele, diz a advogada. Ela identifica dois epis\u00f3dios mais graves.<\/p>\n<p>Teve o dia em que voltavam do anivers\u00e1rio da sobrinha dele, o casal espremido no porta-malas de um carro cheio de parentes. &#8220;A gente chegou na festa, ele cismou que eu estava de olho num cara. O cara com uma crian\u00e7a no colo&#8221;, conta. &#8220;Na volta, ele sussurrava no meu ouvido: &#8216;Sua puta, olhando pra homem casado&#8217;. Fechava a m\u00e3o e pressionava em mim, tremendo, querendo socar e n\u00e3o podendo.&#8221;<\/p>\n<p>A intimida\u00e7\u00e3o foi tamanha que Fernanda duvidou de si mesma e ficou pensando se n\u00e3o fez algo que desse a entender que estava a fim do tal sujeito.<\/p>\n<p>Ci\u00fames motivaram mais ataques verbais. Uma vez, embarcaram num \u00f4nibus para ir \u00e0 casa dela. Fernanda pediu para um passageiro: &#8220;Deixa eu segurar neste pau com a m\u00e3o esquerda que eu tenho mais firmeza&#8221;. Referia-se \u00e0 barra de apoio, mas Tiago n\u00e3o entendeu assim. &#8220;Foi o caminho inteiro falando que eu era baixa, rampeira.&#8221;<\/p>\n<p>Por que Fernanda se submeteu \u00e0quilo? Uma boa explica\u00e7\u00e3o, segundo Alessandra Almeida, representante do Conselho Federal de Psicologia no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, \u00e9 o que na psicologia chamamos de rela\u00e7\u00e3o duplovincular. S\u00e3o as &#8220;pequenas contradi\u00e7\u00f5es&#8221; de uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima permeada pela viol\u00eancia, afirma.<\/p>\n<p>O mesmo homem que agride uma mulher lhe oferece um gesto de amor em seguida. Exemplo: ele a xinga de &#8220;rampeira&#8221; e fala que a ama tanto que enlouquece de ci\u00fames. &#8220;Ditas pelo mesmo emissor, mensagens assim te deixam completamente incapaz de dar uma resposta l\u00f3gica. Se eu te digo eu te amo e te odeio no mesmo momento, numa rela\u00e7\u00e3o de suposta lealdade, oxe, ou voc\u00ea me ama ou me odeia? Fica confuso.&#8221;<\/p>\n<p>As den\u00fancias que chegam \u00e0 pasta de Damares Alves mostram que a viol\u00eancia psicol\u00f3gica atinge mulheres de todas as classes e cores, mas \u00e9 mais cruel com mulheres pretas e pardas. Elas representam 33,5 mil das queixas, contra 28,7 mil brancas. A maioria (43,6 mil) n\u00e3o aponta a ra\u00e7a, mas especialistas concordam que as negras s\u00e3o a maior parte desse bolo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Das que se dispuseram a informar a renda, s\u00e3o as v\u00edtimas mais pobres que sofrem mais: 14,9 mil casos contra mulheres que ganham at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo, enquanto na outra aponta, as que faturam acima de 15 sal\u00e1rios, h\u00e1 98 queixas. Nada que destoe muito da pir\u00e2mide populacional do Brasil.<\/p>\n<p>Os suspeitos identificados s\u00e3o quase sempre parceiros que supostamente prometeram amar a v\u00edtima: maridos, companheiros ou namorados (23,1 mil) ou ex (13,3 mil). Mas a fauna de denunciados \u00e9 vasta: bisav\u00f4s (61), professores (109), l\u00edderes religiosos (85). Pai e m\u00e3e s\u00e3o outra cita\u00e7\u00e3o reincidente (15,2 mil).<\/p>\n<p>A maioria das den\u00fancias, 56%, \u00e9 encaminhada de forma an\u00f4nima. Em 35% das vezes, elas partem das pr\u00f3prias v\u00edtimas de maus-tratos psicol\u00f3gicos, e em 7,8%, de terceiros. Os pr\u00f3prios agressores se autoacusam em 0,2% dos casos.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil quantificar quantos homens foram condenados &#8220;s\u00f3&#8221; por esse tipo de viol\u00eancia. Se h\u00e1 entraves para que v\u00edtimas de viol\u00eancia f\u00edsica e sexual, que deixam marcas vis\u00edveis, sejam acolhidas pelo sistema penal, no caso de uma agress\u00e3o psicol\u00f3gica a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais delicada. Muitas vezes os casos se baseiam na palavra da v\u00edtima contra a do agressor.<\/p>\n<p>H\u00e1 outra quest\u00e3o: a Lei Maria da Penha, que lida com as viol\u00eancias contra a metade feminina da popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o define tipos penais. Na pr\u00e1tica, promotores precisam encaixar em outras infra\u00e7\u00f5es reconhecidas no C\u00f3digo Penal para esses relacionamentos abusivos sejam punidos.<\/p>\n<p>Superintendente-geral do Instituto Maria da Penha, Concei\u00e7\u00e3o de Maria diz que o mais dif\u00edcil \u00e9 fazer a mulher entender que \u00e9 alvo. &#8220;O grande problema \u00e9 que \u00e0s vezes ela nem sabe que est\u00e1 passando por uma viol\u00eancia que tamb\u00e9m cabe na lei. Muitas acham que s\u00f3 podem denunciar se o abuso for f\u00edsico ou sexual.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 uma tortura psicol\u00f3gica que pode escalar at\u00e9 a brutalidade f\u00edsica, afirma. &#8220;Pra chegar no tapa, a mulher j\u00e1 sofreu quase todas as viol\u00eancias antes. O ciclo sempre vai come\u00e7ar com a viol\u00eancia psicol\u00f3gica. Infelizmente, a inst\u00e2ncia \u00faltima pode ser o feminic\u00eddio. \u00c9 a morte anunciada.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Quando voc\u00ea cresce dentro de um ambiente abusivo, voc\u00ea normaliza. Passa a identificar abuso como amor&#8221;, reconhece hoje Fernanda, a advogada que passou um ano numa rela\u00e7\u00e3o t\u00f3xica.<\/p>\n<p>A primeira agress\u00e3o f\u00edsica veio com dez meses de namoro, depois de Tiago concluir que ela havia paquerado um passageiro no \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Estava frio naquela noite. No caminho para casa, conta, &#8220;ele pegou pelo cachecol e come\u00e7ou a me enforcar e bater minha cabe\u00e7a contra o port\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Persistiu no relacionamento: &#8220;Falei que s\u00f3 continuaria com ele se ele se tratasse. \u00c9 um ciclo, n\u00e9? Depois [de agredir] eles choram, se fazem de arrependido, &#8216;me perdoa, eu te amo&#8217;. Burra pra caralho. Continuei com ele&#8221;.<\/p>\n<p>Quando enfim deu um basta, uma semana antes do Natal de 2011, ele n\u00e3o aceitou. Depois do t\u00e9rmino, foi buscar o celular na casa dela. Segundo Fernanda, Tiago havia hackeado seu Facebook e visto uma mensagem de um amigo a chamando para sair com uma galera.<\/p>\n<p>Passou as festas de fim de ano &#8220;todinha roxa&#8221;. Isso porque o ex come\u00e7ou a chut\u00e1-la. &#8220;Sem medir for\u00e7as. \u00danica coisa que consegui pensar: coloquei os dois bra\u00e7os na frente, pra n\u00e3o acertar o rosto. Pensei: n\u00e3o posso gritar, porque o c\u00f4modo mais pr\u00f3ximo era o da minha v\u00f3. Se ela visse a cena, enfartaria. &#8216;Vou matar minha v\u00f3&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Em 2013, a revista para adolescentes Capricho publicou a reportagem &#8220;De que eles t\u00eam ci\u00fames?&#8221;. O texto trazia entrevistas com tr\u00eas rapazes de 19 a 22 anos e o seguinte enunciado: &#8220;[eles] n\u00e3o demonstram ci\u00fame, mas, se pudessem, levariam a namorada na coleira!&#8221;<\/p>\n<p>Para Fernanda, sua gera\u00e7\u00e3o foi influenciada por conte\u00fados desse tipo e vivia numa sociedade em que &#8220;todo ci\u00fame era prova de amor&#8221;. N\u00e3o era amor, era cilada.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/1783521\/invisivel-violencia-psicologica-e-prevista-na-maria-da-penha-mas-dificil-de-denunciar?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, RJ, E BRAS\u00cdLIA, DF (FOLHAPRESS) &#8211; Quem nunca? 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