{"id":2288,"date":"2021-03-28T14:08:39","date_gmt":"2021-03-28T17:08:39","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/03\/28\/no-brasil-chance-de-filho-repetir-baixa-escolaridade-do-pai-e-o-dobro-dos-eua\/"},"modified":"2021-03-28T14:08:39","modified_gmt":"2021-03-28T17:08:39","slug":"no-brasil-chance-de-filho-repetir-baixa-escolaridade-do-pai-e-o-dobro-dos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/03\/28\/no-brasil-chance-de-filho-repetir-baixa-escolaridade-do-pai-e-o-dobro-dos-eua\/","title":{"rendered":"No Brasil, chance de filho repetir baixa escolaridade do pai \u00e9 o dobro dos EUA"},"content":{"rendered":"<p>A chance de um filho repetir a baixa escolaridade de sua fam\u00edlia no Brasil \u00e9 o dobro da probabilidade de que isso ocorra nos EUA.<br \/>Em m\u00e9dia, quase 6 em cada 10 brasileiros (58,3%) cujos pais n\u00e3o tinham o ensino m\u00e9dio completo em 2014 \u2013\u00faltimo ano para o qual h\u00e1 dados\u2013 tamb\u00e9m pararam de estudar antes de concluir esse ciclo.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Entre os americanos, esse percentual cai \u00e0 metade, para 29,2%. J\u00e1 a m\u00e9dia na OCDE, grupo que re\u00fane quase quatro dezenas de na\u00e7\u00f5es ricas e emergentes, era de 33,4%.<br \/>Se o filho brasileiro pertencer a grupos populacionais menos favorecidos, a dist\u00e2ncia \u00e9 ainda maior.<\/p>\n<p>Entre o estrato 20% mais pobre da popula\u00e7\u00e3o brasileira, 80,8% dos filhos cujos pais (palavra empregada, no estudo, como plural de pai) n\u00e3o tinham o ensino m\u00e9dio completo repetiram esse desfecho educacional. No grupo dos 20% mais ricos do pa\u00eds, esse percentual era de 32,6%, um pouco abaixo da m\u00e9dia da OCDE.<\/p>\n<p>O contraste entre brancos e negros brasileiros tamb\u00e9m \u00e9 significativo. Entre os filhos de pais pretos e pardos que n\u00e3o terminaram o ensino m\u00e9dio, 64% n\u00e3o avan\u00e7aram al\u00e9m disso. Nas fam\u00edlias brancas, essa propor\u00e7\u00e3o era de 51,6%.<\/p>\n<p>Esse conjunto de dados \u00e9 parte de um estudo in\u00e9dito do Imds (Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social), que situou as transforma\u00e7\u00f5es educacionais ocorridas entre gera\u00e7\u00f5es brasileiras em um amplo contexto internacional.<\/p>\n<p>&#8220;O fato de que h\u00e1 grande desigualdade educacional [no Brasil] decorrente da incapacidade da sociedade de fazer avan\u00e7ar os filhos dos mais pobres (os menos escolarizados de suas respectivas gera\u00e7\u00f5es)&#8221;, ressalta um trecho da pesquisa.<\/p>\n<p>A mobilidade educacional ainda baixa entre os nascidos em fam\u00edlias menos favorecidas ajuda a perpetuar a alta disparidade de renda no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o dois problemas distintos, que andam juntos&#8221;, afirma outra parte do estudo, cujo t\u00edtulo \u00e9 &#8220;Mobilidade Intergeracional de Educa\u00e7\u00e3o: Compara\u00e7\u00f5es Internacionais&#8221;.<\/p>\n<p>O trabalho mostra que, desde a d\u00e9cada de 1940, ocorreram ganhos expressivos de escolaridade no Brasil. Mas tamb\u00e9m revela que enormes barreiras persistem.<\/p>\n<p>&#8220;Essa pesquisa avan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a estudos anteriores porque mostra tanto uma fotografia atual quanto um filme do que ocorreu em sucessivas gera\u00e7\u00f5es&#8221;, diz o economista Paulo Tafner, diretor-presidente do Imds.<\/p>\n<p>O trabalho \u00e9 dividido em duas partes. A primeira \u00e9 a fotografia do passado recente mencionada por Tafner. Nesse caso, o estudo se refere \u00e0 popula\u00e7\u00e3o entre 24 e 65 anos.<\/p>\n<p>A partir da an\u00e1lise de dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica) e da OCDE, os pesquisadores apresentam um retrato da escolaridade alcan\u00e7ada pelos filhos adultos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 de seus pais.<\/p>\n<p>Foram feitas compara\u00e7\u00f5es tanto dos resultados da m\u00e9dia do Brasil em rela\u00e7\u00e3o ao desempenho das na\u00e7\u00f5es da OCDE quanto entre diferentes grupos populacionais brasileiros, em recortes de ra\u00e7a, renda e g\u00eanero.<\/p>\n<p>A segunda parte teve como foco dados do Banco Mundial que o Imds computou para analisar o progresso educacional ao longo das gera\u00e7\u00f5es nascidas entre 1940 e 1980, em mais de cem pa\u00edses.<br \/>O filme resultante dessa an\u00e1lise revela que o progresso j\u00e1 conhecido do Brasil em termos absolutos \u2013no que se refere \u00e0 escolaridade m\u00e9dia da popula\u00e7\u00e3o\u2013 tamb\u00e9m foi marcante no contexto internacional.<\/p>\n<p>Oito em cada dez brasileiros nascidos na d\u00e9cada de 1980 estudaram mais do que seus pais. Entre 51 na\u00e7\u00f5es de renda m\u00e9dia alta \u2013grupo ao qual o Brasil pertence\u2013, a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 de seis em cada dez pessoas.<\/p>\n<p>Essa an\u00e1lise \u2013que excluiu os filhos cujos pais tinham conclu\u00eddo o ensino superior\u2013 pode capturar avan\u00e7os mais sutis de escolaridade, j\u00e1 que os dados do Banco Mundial incluem cinco n\u00edveis de estudo, ante tr\u00eas no caso dos n\u00fameros da OCDE.<br \/>&#8220;O aumento r\u00e1pido da mobilidade educacional do Brasil, principalmente, a partir dos anos 1960, \u00e9 bastante surpreendente&#8221;, afirma Tafner.<\/p>\n<p>O pesquisador explica, por\u00e9m, que esse progresso, puxado pela conquista do ciclo b\u00e1sico educacional, n\u00e3o foi acompanhado por um avan\u00e7o significativo na aquisi\u00e7\u00e3o do diploma universit\u00e1rio.<br \/>A parcela dos brasileiros nascidos na d\u00e9cada de 1980 que, hoje, t\u00eam o ensino m\u00e9dio completo \u00e9 66,6%, quase o triplo dos 23,4% registrados entre seus pais. Quando a mesma compara\u00e7\u00e3o \u00e9 feita com o ensino superior, essas fatias caem para, respectivamente, 26% e 11%.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, entre a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda, mesmo os pais que conquistaram um diploma universit\u00e1rio t\u00eam grande dificuldade em &#8220;transmitir&#8221; essa heran\u00e7a positiva para seus filhos.<\/p>\n<p>Entre os 20% mais pobres do pa\u00eds, apenas 27,7% dos filhos cujos pais tinham ensino superior, em 2014, atingiram essa mesma escolaridade. Na popula\u00e7\u00e3o 20% mais rica, a fatia dos filhos que, como seus pais, possu\u00edam curso universit\u00e1rio era de 81,5%.<br \/>&#8220;Isso mostra que h\u00e1 uma enorme fragilidade dos brasileiros mais pobres, cujas conquistas podem ser, facilmente, perdidas&#8221;, diz o economista Fernando Veloso, do Ibre e da EPGE, centros que fazem parte da FGV-Rio.<\/p>\n<p>De acordo com Tafner, o acesso da popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel ao ensino superior ocorre, muitas vezes, via cursos menos valorizados no mercado de trabalho. &#8220;Esses pais ter\u00e3o menos renda para garantir a educa\u00e7\u00e3o de seus filhos do que aqueles que seguiram carreiras com maior remunera\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma o economista.<\/p>\n<p>A pedagoga Catarina de Almeida, da UnB (Universidade de Bras\u00edlia), ressalta que, com a ado\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica nacional de cotas com crit\u00e9rios raciais e de renda nas universidades p\u00fablicas, em 2012, a fatia de brasileiros de estratos menos favorecidos com ensino superior tende a seguir aumentando.<br \/>&#8220;\u00c9 uma oportunidade que n\u00e3o existia quando eu, que sou negra, ingressei na universidade, em meados dos anos 1990&#8221;, afirma a pesquisadora.<\/p>\n<p>Almeida conta que foi a primeira pessoa de sua numerosa fam\u00edlia a concluir o ensino superior e, at\u00e9 hoje, \u00e9 a \u00fanica que tem mestrado e doutorado entre seus parentes.<\/p>\n<p>&#8220;Meus pais eram analfabetos. Minha m\u00e3e teve 15 filhos, dos quais 4 morreram. Apenas quatro irm\u00e3os e eu conclu\u00edmos o ensino superior, outros n\u00e3o terminaram nem o ensino fundamental.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo ela, embora as cotas nas universidades tenham sido um passo crucial, elas precisam ser complementadas por outras medidas, hoje, inviabilizadas pelo limite \u00e0 expans\u00e3o dos gastos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>&#8220;A cota \u00e9 uma pol\u00edtica de entrada. Faltam pol\u00edticas que garantam a perman\u00eancia, na universidade, desses jovens. Eles enfrentam dificuldades, que v\u00e3o da baixa renda familiar a uma base escolar anterior mais fraca.&#8221;<\/p>\n<p>Dificuldades financeiras como as mencionadas por Almeida foram o principal motivo que impediu Jos\u00e9 Ilton Santos Dantas, 18, a ingressar na faculdade ap\u00f3s concluir o ensino m\u00e9dio.<br \/>&#8220;Quase fiz, mas estava sem dinheiro&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Ca\u00e7ula entre seis filhos, Dantas ainda estudou dois anos a mais do que os pais, que chegaram apenas ao primeiro ano do ensino m\u00e9dio. Um de seus irm\u00e3os, conta, chegou a come\u00e7ar o ensino superior. O curso, por\u00e9m, precisou ser trancado.<\/p>\n<p>A prioridade na casa em que vivem hoje, em Francisco Morato, na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, \u00e9 conseguir emprego e ajudar no aluguel e demais contas da casa.<\/p>\n<p>&#8220;Meu pai faleceu em 2018. Por isso estou procurando servi\u00e7o. Sem ele, todo o mundo precisa ajudar no aluguel&#8221;, diz. &#8220;Fiz muitos bicos de ajudante de pedreiro, mas o servi\u00e7o terminou. Agora quero pegar o que aparecer.&#8221;<\/p>\n<p>O objetivo de ajudar jovens como Dantas \u00e9 o que leva Allan Greicon, 28, a dividir seu tempo entre o trabalho na Secretaria de Desenvolvimento Econ\u00f4mico do Governo de S\u00e3o Paulo e a coordena\u00e7\u00e3o do cursinho pr\u00e9-vestibular popular Emancipa Jardim Jaqueline.<\/p>\n<p>Nascido e criado em Itapevi, na periferia da Grande S\u00e3o Paulo, Greicon atribui sua conquista do diploma da gradua\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00f5es internacionais na USP (Universidade de S\u00e3o Paulo) \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o e ao est\u00edmulo constantes que recebeu da m\u00e3e, a cozinheira Val Macedo.<\/p>\n<p>&#8220;Meu pai morreu quando eu tinha seis anos, deixando para minha m\u00e3e apenas contas a pagar&#8221;, diz ele, que \u00e9 assessor t\u00e9cnico na \u00e1rea de gest\u00e3o de programas de educa\u00e7\u00e3o profissional do governo paulista.<\/p>\n<p>Segundo Greicon, embora n\u00e3o tenha completado o ensino fundamental, sua m\u00e3e sempre acreditou na import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o e trabalhou, de forma dura e incans\u00e1vel, para permitir que ele e seu irm\u00e3o mais velho se dedicassem apenas aos estudos.<\/p>\n<p>&#8220;Ela n\u00e3o tinha tempo de nos acompanhar, de ir a reuni\u00f5es da escola, mas ligava para os professores para se informar sobre nosso desempenho&#8221;, afirma ele.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do apoio da m\u00e3e, Greicon sempre se inspirou no irm\u00e3o mais velho, que ingressou um ano antes do que ele na Universidade de S\u00e3o Paulo, onde cursou jornalismo. Os dois fizeram cursinho pr\u00e9-vestibular popular para refor\u00e7ar sua base educacional.<\/p>\n<p>Greicon concorda com a professora Catarina, da UnB, que o Brasil precisa de pol\u00edticas educacionais complementares \u00e0s existentes, hoje, para garantir que jovens de baixa renda tenham mais chances de ir al\u00e9m da escolaridade de seus pais.<\/p>\n<p>&#8220;Os cursinhos populares s\u00e3o importantes, em primeiro lugar, porque levam os estudantes a sonhar com a universidade, porque esse n\u00e3o \u00e9 um sonho \u00f3bvio para um jovem de baixa renda&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ressalta, as fam\u00edlias precisam ter renda para atingir um n\u00edvel de bem-estar suficiente para que seus filhos possam, de fato, se dedicar aos estudos.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 muito dif\u00edcil estudar com fome&#8221;, diz Greicon.<br \/>\u00c0s barreiras j\u00e1 existentes ao avan\u00e7o educacional dos brasileiros menos favorecidos se somam, agora, outras criadas pela pandemia do coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>&#8220;Os alunos de baixa renda t\u00eam sido prejudicados pela falta de protocolos nacionais, que deveriam ter sido adotados havia muito tempo pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Veloso, da FGV.<br \/>&#8220;O descalabro que vemos na sa\u00fade, nesta crise, ocorre tamb\u00e9m na educa\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma o pesquisador.<\/p>\n<p>Segundo especialistas, as perdas decorrentes do acesso prec\u00e1rio de alunos pobres \u00e0 educa\u00e7\u00e3o na pandemia poder\u00e3o ser permanentes e levar at\u00e9 a um retrocesso na escolaridade da gera\u00e7\u00e3o jovem atual em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 de seus pais.<\/p>\n<p>Veloso ressalta que o quadro \u00e9 agravado pela piora das perspectivas futuras de trabalho para a popula\u00e7\u00e3o menos escolarizada, em meio \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o de uma tend\u00eancia, anterior \u00e0 crise, de substitui\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra menos qualificada por tecnologias cada vez mais avan\u00e7adas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/economia\/1790323\/no-brasil-chance-de-filho-repetir-baixa-escolaridade-do-pai-e-o-dobro-dos-eua?utm_source=rss-economia&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><br \/>\nNot\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Economia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A chance de um filho repetir a baixa escolaridade de sua fam\u00edlia no Brasil \u00e9<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":2289,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-2288","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2288"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2288\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2289"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}