{"id":213002,"date":"2026-08-25T10:42:01","date_gmt":"2026-08-25T13:42:01","guid":{"rendered":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/?p=213002"},"modified":"2026-08-25T10:42:05","modified_gmt":"2026-08-25T13:42:05","slug":"quarenta-graus-de-frio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2026\/08\/25\/quarenta-graus-de-frio\/","title":{"rendered":"Quarenta graus de frio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Tem gente que sente frio mesmo debaixo do sol. E tem gente que carrega um frio por dentro que nenhum casaco consegue aquecer. No fim, talvez o que todos procurem seja a mesma coisa: um pouco de calor para dividir<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00e1 fora fazia um dia de sol de encher os olhos, desses que o interior capricha, e eu estava dentro de casa de casaco. Casaco de verdade, com z\u00edper e capuz. Os quatro cachorros, esparramados no quintal torrando ao sol, me olhavam pela porta de vidro com uma express\u00e3o que eu conhe\u00e7o bem: n\u00e3o era pena, era julgamento. Quatro ju\u00edzes deitados de barriga pra cima, avaliando o dono friorento que trata vinte e dois graus como frente fria polar. Eu sustentei o olhar, ajeitei o capuz e fui fazer um ch\u00e1, porque dignidade a gente mant\u00e9m como pode.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser friorento cr\u00f4nico \u00e9 uma carreira que exige infraestrutura. Eu tenho uma cole\u00e7\u00e3o de mantas com hierarquia definida: a manta oficial do sof\u00e1, a manta reserva do bra\u00e7o da poltrona, e a manta de emerg\u00eancia, que fica dobrada num cesto pra visita achar que \u00e9 decora\u00e7\u00e3o. Tenho meia pra dentro de casa em pleno janeiro. Tenho a habilidade de detectar corrente de ar que nenhum instrumento meteorol\u00f3gico registra. O meu corpo funciona numa escala t\u00e9rmica particular em que o resto do mundo vive sempre uns dez graus acima de mim, e ningu\u00e9m acredita, e eu j\u00e1 cansei de explicar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cap\u00edtulo mais delicado \u00e9 a negocia\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica do casamento. O John \u00e9 uma fornalha humana: dorme de janela aberta, reclama de calor em julho, considera edredom um item decorativo. Eu, do meu lado da cama, monto acampamento. A gente j\u00e1 assinou tratados sobre a janela do quarto, cl\u00e1usulas sobre o ventilador, acordos de inverno com revis\u00e3o semestral. E no meio dessa diplomacia existe a lareira, que \u00e9 a minha religi\u00e3o pessoal. Acender a lareira no fim da tarde tem liturgia: a lenha empilhada de um jeito espec\u00edfico, o f\u00f3sforo, a paci\u00eancia. O John diz que eu fico olhando pro fogo como quem reza. Ele n\u00e3o est\u00e1 errado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas outro dia, sentado ali na frente do fogo, me ocorreu que tem gente que sente frio de outra natureza. Frio da vida. Gente que anda agasalhada por fora e congelando por dentro, procurando calor onde encontra: numa conversa, numa rotina, numa f\u00e9, numa mesa de bar, num abra\u00e7o que dure um pouco mais que o protocolo. O friorento da pele todo mundo identifica pelo casaco. O friorento da alma disfar\u00e7a melhor, e \u00e0s vezes \u00e9 a pessoa mais solar da sala.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o tenho conclus\u00e3o grandiosa, at\u00e9 porque estou escrevendo isto de manta e o meu ch\u00e1 est\u00e1 esfriando, o que configura emerg\u00eancia dom\u00e9stica. S\u00f3 queria deixar registrado: se voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9 friorento, da pele ou da vida, aqui em casa tem lugar perto da lareira. Eu n\u00e3o empresto a manta oficial, isso n\u00e3o, tenho limites. Mas a reserva \u00e9 sua, e o fogo d\u00e1 pra dividir. Calor, no fim das contas, \u00e9 das poucas coisas que aumentam quando a gente reparte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">@enricopierroofc<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem gente que sente frio mesmo debaixo do sol. 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