{"id":212422,"date":"2026-07-23T16:49:49","date_gmt":"2026-07-23T19:49:49","guid":{"rendered":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/?p=212422"},"modified":"2026-07-23T16:49:53","modified_gmt":"2026-07-23T19:49:53","slug":"a-odisseia-da-existencia-do-mito-ao-cinema-a-dor-do-regresso-e-o-nao-estar-em-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2026\/07\/23\/a-odisseia-da-existencia-do-mito-ao-cinema-a-dor-do-regresso-e-o-nao-estar-em-casa\/","title":{"rendered":"A Odisseia da exist\u00eancia do mito ao cinema: A dor do regresso e o n\u00e3o estar em casa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A busca incessante sobre a exist\u00eancia ganha contornos de urg\u00eancia e atualidade com a estreia recente do filme&nbsp;<em>A Odisseia<\/em>&nbsp;nos cinemas. Ao reinterpretar o cl\u00e1ssico hom\u00e9rico para as telas, o longa, do consagrado diretor Christopher Nolan, n\u00e3o faz apenas um resgate est\u00e9tico, mas joga luz exatamente sobre essa ferida aberta da nossa \u00e9poca: o isolamento contempor\u00e2neo e a crise de perten\u00e7a em um mundo hiperconectado, mas existencialmente fragmentado. O debate p\u00fablico gerado pela obra comprova que, mesmo cercados pelo conforto tecnol\u00f3gico de nossas casas de concreto, compartilhamos com o Odisseu das telas o mesmo &#8220;n\u00e3o estar em casa&#8221; heideggeriano, atualizando a milenar certeza de que a nossa travessia urbana moderna a inda \u00e9 motivada pela dor e pela beleza de se procurar um lugar para habitar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Odisseu costuma ser lembrado como o her\u00f3i do retorno. N\u00e3o por acaso, a palavra moderna \u201cnostalgia\u201d deriva da reuni\u00e3o dos termos gregos&nbsp;<em>n\u00f3stos<\/em>&nbsp;(retorno) e&nbsp;<em>\u00e1lgos<\/em>&nbsp;(dor), designando, em sua origem, o sofrimento provocado pelo desejo de voltar para casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A Odisseia<\/em>&nbsp;narra sua longa viagem de volta a \u00cdtaca, onde o aguardam Pen\u00e9lope, Tel\u00eamaco e a vida interrompida pela guerra. Mais do que uma aventura, por\u00e9m, sua travessia revela uma experi\u00eancia fundamental da exist\u00eancia: a busca por uma morada que nunca se alcan\u00e7a plenamente. A nostalgia de \u00cdtaca exprime o desejo de regressar \u00e0 p\u00e1tria, mas tamb\u00e9m inaugura uma pergunta que atravessar\u00e1 toda a tradi\u00e7\u00e3o ocidental: onde o homem realmente habita?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa figura adquire novo significado em Dante. No Canto XXVI do&nbsp;<em>Inferno<\/em>, Odisseu renuncia ao repouso e persuade seus companheiros a uma \u00faltima viagem:<br>\u201cConsidera a tua proveni\u00eancia: \/ n\u00e3o foste feito para viver como um bruto, \/ mas para buscar a excel\u00eancia e o conhecimento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O retorno deixa de constituir o horizonte da exist\u00eancia. O homem passa a definir-se pela inquieta\u00e7\u00e3o que o impele sempre al\u00e9m de si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e9culos depois, Kavafis desloca novamente o sentido da narrativa. Em seu poema&nbsp;<em>\u00cdtaca<\/em>, convida o viajante a desejar que o caminho seja longo. A ilha permanece necess\u00e1ria, mas apenas porque coloca o homem a caminho. O verdadeiro acontecimento j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a chegada, mas a transforma\u00e7\u00e3o produzida pela pr\u00f3pria travessia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa desloca\u00e7\u00e3o do olhar \u2014 do ponto de chegada para a pr\u00f3pria extens\u00e3o da jornada \u2014 altera tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o do viajante com a mem\u00f3ria do lar. \u00c0 medida que a travessia se prolonga e o indiv\u00edduo se transforma, a \u00cdtaca idealizada deixa de corresponder \u00e0 ilha f\u00edsica que o espera. O regresso j\u00e1 n\u00e3o promete a restaura\u00e7\u00e3o do passado, mas o confronto com a irreversibilidade do tempo. A travessia, portanto, desfaz a ilus\u00e3o do reencontro pleno: o homem que retorna jamais \u00e9 o mesmo que partiu, e a p\u00e1tria achada j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 aquela de onde se saiu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa transforma\u00e7\u00e3o pode ser compreendida \u00e0 luz da reflex\u00e3o de Jean Starobinski. Em&nbsp;<em>A tinta da melancolia<\/em>, ele mostra que a melancolia n\u00e3o constitui uma realidade imut\u00e1vel, mas uma experi\u00eancia cujos significados se transformam ao longo da hist\u00f3ria. A continuidade reside menos na perman\u00eancia de um mesmo estado de alma do que na sucess\u00e3o de diferentes interpreta\u00e7\u00f5es da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante desse horizonte<strong>,<\/strong>&nbsp;seria anacr\u00f4nico afirmar que o Odisseu hom\u00e9rico j\u00e1 \u00e9 melanc\u00f3lico no sentido moderno. Mais fecundo \u00e9 reconhecer que o&nbsp;<em>n\u00f3stos<\/em>, o desejo do retorno, constitui um dos antecedentes hist\u00f3ricos daquilo que, s\u00e9culos depois, a literatura e a filosofia compreender\u00e3o como melancolia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 precisamente essa estrutura de incompletude que permite ao mito de Odisseu atravessar os s\u00e9culos e projetar-se nas formas art\u00edsticas contempor\u00e2neas, como o cinema. Seja no isolamento silencioso de uma nave espacial em dire\u00e7\u00e3o ao desconhecido ou na melancolia de uma viagem mar\u00edtima onde o tempo desgasta as certezas humanas, a narrativa cinematogr\u00e1fica retoma esse mesmo impulso origin\u00e1rio. A err\u00e2ncia moderna, ao retratar o sujeito despojado de porto seguro, confirma a intui\u00e7\u00e3o de que a verdadeira odisseia n\u00e3o reside no reencontro com uma geografia perdida, mas no ato cont\u00ednuo de sustentar a busca em um mundo no qual o homem permanece fundamentalmente a caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 a partir de uma \u00f3tica fenomenol\u00f3gica,&nbsp;essa err\u00e2ncia n\u00e3o constitui um acidente da exist\u00eancia, mas uma de suas estruturas fundamentais. Em Heidegger, habitar n\u00e3o significa simplesmente ocupar um lugar ou possuir uma casa. Habitar \u00e9 o modo como o homem se encontra no mundo, relacionando-se consigo mesmo, com os outros e com as coisas. No entanto, essa rela\u00e7\u00e3o nunca lhe \u00e9 dada de forma plenamente assegurada. Por isso, Heidegger afirma que a exist\u00eancia humana \u00e9 originariamente marcada por um \u201cn\u00e3o estar em casa\u201d (<em>Un-zuhause-sein<\/em>). N\u00e3o se trata da perda de uma p\u00e1tria nem de um desenraizamento hist\u00f3rico, mas da condi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do existir. O homem jamais coincide inteiramente consigo mesmo ou com o mundo em que vive. Sua exist\u00eancia permanece aberta, exposta \u00e0s possibilidades e, por isso mesmo, nunca definitivamente instalada. \u00c9 essa abertura origin\u00e1ria que torna a busca por pertencimento uma tarefa incessante e inacabada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>Jo\u00e3o Ibaixe Jr.<\/strong>\u00a0\u00e9 advogado criminalista e ex-Delegado de Pol\u00edcia. Doutor em Filosofia (UERJ) e mestre em Direito (PUC\/SP), \u00e9 coordenador do Grupo de Criminologia Filos\u00f3fica (GCRIMFIL).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fotos &#8211; Divulga\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A busca incessante sobre a exist\u00eancia ganha contornos de urg\u00eancia e atualidade com a estreia<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":212424,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-212422","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/212422","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=212422"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/212422\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":212425,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/212422\/revisions\/212425"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/212424"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=212422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=212422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=212422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}