{"id":208739,"date":"2026-02-19T08:30:03","date_gmt":"2026-02-19T11:30:03","guid":{"rendered":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/?p=208739"},"modified":"2026-02-19T08:30:06","modified_gmt":"2026-02-19T11:30:06","slug":"a-cor-das-paredes-da-infancia-ainda-pinta-quem-somos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2026\/02\/19\/a-cor-das-paredes-da-infancia-ainda-pinta-quem-somos\/","title":{"rendered":"A cor das paredes da inf\u00e2ncia ainda pinta quem somos"},"content":{"rendered":"\n<p>As mem\u00f3rias mais profundas n\u00e3o vivem no que conseguimos contar, mas no que o corpo insiste em sentir. Datas se perdem; sensa\u00e7\u00f5es ficam. Pergunte a algu\u00e9m sobre a inf\u00e2ncia e talvez lhe falte precis\u00e3o. Mas pergunte pela cor das paredes do quarto, pelo cheiro da casa da av\u00f3 ou pelo sabor do lanche depois da escola \u2014 e uma geografia afetiva inteira se acende.<\/p>\n\n\n\n<p>Na minha inf\u00e2ncia, as paredes eram de um amarelo suave: luz de fim de tarde eternizada. N\u00e3o o amarelo estridente das escolhas apressadas da vida adulta, mas um tom que parecia acolher o sol e devolv\u00ea-lo ao aconchego. Esse amarelo tinha gosto de mingau com canela nas manh\u00e3s frias e cheiro de roupa limpa no arm\u00e1rio de madeira.<\/p>\n\n\n\n<p>A felicidade cabia em cenas pequenas: bolhas de sab\u00e3o no ar, desenhos aos s\u00e1bados com achocolatado espumoso, a aspereza do tronco da \u00e1rvore onde eu erguia castelos imagin\u00e1rios. Havia o cheiro que antecede a chuva \u2014 terra molhada, um leve oz\u00f4nio no ar \u2014 anunciando o tempo de contemplar a vida da varanda ou tomar banho de chuva, como quem lava at\u00e9 os pensamentos. A alegria tinha sabor de fruta colhida do p\u00e9 e de p\u00e3o quente com manteiga; tinha o som de risos vindos da cozinha e o abrigo de um cobertor nas noites frias.<\/p>\n\n\n\n<p>Gaston Bachelard, em&nbsp;<em>A Po\u00e9tica do Espa\u00e7o<\/em>, ajuda a entender por que essas imagens permanecem. Ao falar da \u201ctopoan\u00e1lise\u201d, mostra como os lugares da intimidade nos constituem. A casa da inf\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 cen\u00e1rio: \u00e9 territ\u00f3rio emocional que carregamos por dentro. \u00c9 ali que se forma nosso primeiro universo.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquelas paredes amarelas n\u00e3o eram tintas: eram continentes emocionais onde se desenrolaram os primeiros dramas e encantamentos. Cada canto, cada sombra, cada fresta de luz compunha um \u201cespa\u00e7o feliz\u201d que, sem percebermos, nos moldava. Mudamos de endere\u00e7o, de cidade, de vida \u2014 mas as geografias \u00edntimas nos acompanham.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, percebo esse di\u00e1logo nas escolhas do presente: tons terrosos, amarelos suaves, verdes que acalmam. O paladar ainda busca o conforto dos sabores simples \u2014 n\u00e3o por saudosismo, mas por reconhecimento. O tato pede materiais que contam hist\u00f3rias e imperfei\u00e7\u00f5es que aquecem mais do que o brilho frio do novo.<\/p>\n\n\n\n<p>A mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 arquivo; \u00e9 reconstru\u00e7\u00e3o. Um cheiro ou uma m\u00fasica n\u00e3o nos levam apenas a um lugar: devolvem um estado de ser. A crian\u00e7a que fomos n\u00e3o se perdeu; ela nos encontra por chaves sensoriais.<\/p>\n\n\n\n<p>Perguntar pela cor das paredes da inf\u00e2ncia \u00e9 perguntar pela nossa primeira linguagem \u2014 a dos sentidos, anterior \u00e0s palavras. O que importa n\u00e3o \u00e9 a exatid\u00e3o do fato, mas a verdade emocional que permanece. Talvez o trabalho da vida adulta n\u00e3o seja superar a inf\u00e2ncia, mas traduzi-la para o presente. Fica a pergunta: qual \u00e9 a cor das nossas paredes interiores hoje?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>*Soraya Medeiros \u00e9 jornalista<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As mem\u00f3rias mais profundas n\u00e3o vivem no que conseguimos contar, mas no que o corpo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":208740,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-208739","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/208739","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=208739"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/208739\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":208741,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/208739\/revisions\/208741"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/208740"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=208739"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=208739"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=208739"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}