{"id":198004,"date":"2025-01-13T07:23:20","date_gmt":"2025-01-13T10:23:20","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/?p=198004"},"modified":"2025-01-13T07:27:59","modified_gmt":"2025-01-13T10:27:59","slug":"os-ladroes-da-seguridade-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2025\/01\/13\/os-ladroes-da-seguridade-social\/","title":{"rendered":"Os ladr\u00f5es da Seguridade Social"},"content":{"rendered":"\n<p><em>*Wagner Balera<\/em><br><br><br>Caros leitores, a inten\u00e7\u00e3o deste breve artigo \u00e9 explicar, minimamente, o financiamento da Seguridade Social, do qual a contribui\u00e7\u00e3o sobre a folha de sal\u00e1rios, paga pelas empresas,\u00a0\u00e9 apenas uma das receitas. Contudo, trata-se de parcela significativa. Ent\u00e3o, como funciona isso? Toda a sociedade financia a Seguridade Social, consoante comando constitucional.<br><br>A folha, o faturamento e o lucro foram estruturados, na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, como contribui\u00e7\u00f5es diretas.\u00a0Desse modo, a sociedade financia diretamente\u00a0o sistema de seguridade social por interm\u00e9dio dessas tr\u00eas modalidades de tributos, denominadas contribui\u00e7\u00f5es sociais.\u00a0\u00a0Posteriormente, sobreveio outra contribui\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 prestes a ser revogada pela reforma tribut\u00e1ria,\u00a0que incide sobre importa\u00e7\u00e3o de bens e produtos do exterior, acrescentada ao artigo 195 da Constitui\u00e7\u00e3o.\u00a0<br><br>Ademais, as pessoas pol\u00edticas \u2013 Uni\u00e3o, Estados, Distrito Federal e Munic\u00edpios,\u00a0tamb\u00e9m devem financiar a Seguridade Social, mediante destina\u00e7\u00e3o de parcela das respectivas receitas de impostos.<br><br>Todo o montante amealhado \u00e9 alocado a um fundo,\u00a0de natureza cont\u00e1bil,\u00a0do qual ser\u00e3o sacadas as presta\u00e7\u00f5es da Seguridade Social. Presta\u00e7\u00f5es s\u00e3o esp\u00e9cies de benef\u00edcios e servi\u00e7os,\u00a0geridas e administradas pelos tr\u00eas subsistemas de seguridade: o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS),\u00a0o Sistema \u00danico de Assist\u00eancia Social (SUAS) e o Regime Geral de Previd\u00eancia Social (RGPS).<br><br>Ao lado desse sistema geral,\u00a0existem os regimes pr\u00f3prios dos servidores p\u00fablicos,\u00a0cuja contabilidade \u00e9 apartada.<br><br>Imaginemos que se trata de uma grande caixa \u2013 e, antigamente, as institui\u00e7\u00f5es de previd\u00eancia eram assim chamadas, caixas de aposentadoria e pens\u00f5es, por exemplo, Caixa de Aposentadorias e Pens\u00f5es dos Banc\u00e1rios. Para essa caixa,\u00a0s\u00e3o vertidas as contribui\u00e7\u00f5es sociais e os aportes or\u00e7ament\u00e1rios das pessoas pol\u00edticas, e, dessa caixa, saem as presta\u00e7\u00f5es.<br><br>Retenhamos a imagem de uma caixa d&#8217;\u00e1gua. Entradas e sa\u00eddas.<br><br>Ora, na hidr\u00e1ulica das caixas,\u00a0h\u00e1 um ladr\u00e3o, aquele dispositivo regulador do excedente de \u00e1gua, que evita o transbordamento da caixa.\u00a0Pois fiquem\u00a0sabendo que, na Seguridade Social, a caixa teve acoplados dois ladr\u00f5es.<br><br>Quer dizer que nem todo o montante arrecadado vai para a sa\u00fade,\u00a0para a previd\u00eancia e para a assist\u00eancia.<br><br>Dois ladr\u00f5es, oficialmente instalados, retiram parte das receitas da seguridade social e as destinam a outros fins.<br><br>O primeiro ladr\u00e3o tem um nome disfar\u00e7ado: EPU \u2013 Encargos Previdenci\u00e1rios da Uni\u00e3o.<br><br>Voc\u00ea pode pensar que \u00e9 algo normal.<br><br>Mas, n\u00e3o. Esclareci h\u00e1 pouco que os servidores p\u00fablicos fazem parte de regimes apartados, denominados regimes pr\u00f3prios. S\u00f3 que o Regime Geral, por inexplic\u00e1vel distor\u00e7\u00e3o, paga parte da conta das presta\u00e7\u00f5es devidas pelos regimes pr\u00f3prios.<br><br>\u00c9 um ladr\u00e3o oficial que tira dinheiro da massa total\u00a0e verte para o regime de servidores p\u00fablicos.\u00a0Tal desvio ocorre h\u00e1 muitos anos.<br><br>Ent\u00e3o, o regime previdenci\u00e1rio dos trabalhadores em geral,\u00a0que deveria estar sendo custeado pelas contribui\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e das empresas, como define a lei, perde uma parte da sua arrecada\u00e7\u00e3o e subsidia os benef\u00edcios devidos aos dependentes dos servidores p\u00fablicos.<br><br>O desvio \u00e9 inexplic\u00e1vel.<br><br>O segundo ladr\u00e3o foi encravado na Constitui\u00e7\u00e3o.\u00a0Institu\u00eddo pela Emenda Constitucional de Revis\u00e3o n 1, de 1994, deveria durar dois anos. Foi chamado de Fundo Social de Emerg\u00eancia. Mudou de nome e se transformou em Fundo de Estabiliza\u00e7\u00e3o Fiscal, que duraria mais tr\u00eas anos, conforme a Emenda Constitucional n\u00ba 10, de mar\u00e7o de 1994. E assim foi ficando, at\u00e9 receber novo batismo como Desvincula\u00e7\u00e3o das Receitas da Uni\u00e3o \u2013 DRU \u2013 que foi sendo prorrogado e terminaria, pela Emenda Constitucional n. 93, de 2016, em 2023.<br><br>Uma emerg\u00eancia que se arrastou desde 1994 at\u00e9 2023.<br><br>Parecia que iria terminar, mas n\u00e3o. Agora a Emenda Constitucional n\u00ba 132, de 2023, estende at\u00e9 2032 a efic\u00e1cia. Quase quarenta anos de desvio de recursos da seguridade social.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td>&nbsp;<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>O que acontecer\u00e1 com a reforma tribut\u00e1ria? O ladr\u00e3o tamb\u00e9m vai operar sobre a contribui\u00e7\u00e3o que acaba de ser proposta, em substitui\u00e7\u00e3o ao COFINS e ao PIS\/PASEP, juntamente com a da importa\u00e7\u00e3o de bens vindos do exterior?<br><br>\u00c9 o ladr\u00e3o que toma novo formato, no seio da reforma tribut\u00e1ria.<br><br>Portanto, uma parte dos \u201cdinheiros\u201d&nbsp;da Seguridade Social&nbsp;ser\u00e1 desviada grosseiramente das finalidades da Sa\u00fade, da Previd\u00eancia Social e da Assist\u00eancia Social.&nbsp;<br><br>Tudo convivendo com o discurso oficial que proclama o d\u00e9ficit do sistema previdenci\u00e1rio.<br><br>E \u00e9 o momento da Reforma Previd\u00eancia.&nbsp;<br><br>Houve v\u00e1rias reformas previdenci\u00e1rias.&nbsp;Quatro emendas constitucionais. J\u00e1 se discute nos bastidores a elabora\u00e7\u00e3o de outra PEC para reformar&nbsp;a Previd\u00eancia novamente.&nbsp;Porque n\u00e3o d\u00e1&nbsp;para continuar como est\u00e1.<br><br>E o estranh\u00e1vel mundo de duas realidades paralelas, o da Reforma Tribut\u00e1ria,&nbsp;que deve tratar das entradas para a caixa, com estrita observ\u00e2ncia do crit\u00e9rio constitucional do equil\u00edbrio financeiro e atuarial do sistema;&nbsp;e a realidade da Reforma Previdenci\u00e1ria,&nbsp;que cuida e deve cuidar da sa\u00edda.<br><br>Tratam-se de realidades distintas, mas que se interpenetram.<br><br>As pens\u00f5es e as aposentadorias,&nbsp;as pens\u00f5es,&nbsp;os aux\u00edlios&nbsp;e as sempre crescentes despesas da sa\u00fade&nbsp;e da assist\u00eancia social ser\u00e3o sustent\u00e1veis no m\u00e9dio e no longo prazo? Possivelmente n\u00e3o, porque todas as proje\u00e7\u00f5es at\u00e9 aqui formuladas n\u00e3o se viram confirmadas pelos dados de realidade.<br>.<br><br>A Reforma Tribut\u00e1ria, promulgada pela Emenda Constitucional n\u00ba 132, de dezembro de 2023, insere no art. 195, o inciso V, que cria a contribui\u00e7\u00e3o social sobre bens e servi\u00e7os, que passar\u00e1 a vigorar em 2027.<br><br>Na mesma Emenda,&nbsp;s\u00e3o eliminadas diversas fontes de custeio, em manifesta interface com o sistema de prote\u00e7\u00e3o social, mas com impressionante descompromisso com o potencial de disp\u00eandio futuro das sa\u00eddas do caixa da Seguridade Social.&nbsp;A&nbsp;Reforma Previdenci\u00e1ria n\u00e3o amadurece,&nbsp;porque cada uma&nbsp;das quatro que j\u00e1 foram feitas at\u00e9 agora nem mesmo produz seus frutos e j\u00e1 se v\u00ea transformada em outra reforma. Fen\u00f4meno que se repete desde 1998.<br><br>Muito provavelmente,&nbsp;aos leitores deste texto,&nbsp;n\u00e3o estar\u00e1 garantido o direito de, com previd\u00eancia, projetarem o respectivo futuro previdenci\u00e1rio. Se \u00e9 que haver\u00e1 algum futuro para o vigente modelo.<br><br>Recomendo, expressamente, que cuidem de contratar, o quanto antes, seus planos&nbsp;de Previd\u00eancia Complementar. Aproveitem-se do incentivo fiscal que, por enquanto, ainda lhes d\u00e1 vantagem expressiva.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Wagner Balera &#8211;&nbsp;<\/strong><em>\u00c9 Livre-Docente em Direito Previdenci\u00e1rio pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC\/SP). Doutorado em Direito das Rela\u00e7\u00f5es Sociais pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC\/SP). Mestrado em Direito Tribut\u00e1rio pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC\/SP). Graduado em Direito pela Pontif&amp; iacu te;cia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC\/SP). Autor de mais de 30 livros em Direito Previdenci\u00e1rio. Coordenador dos cursos de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de Direito Previdenci\u00e1rio da PUC\/SP.<br>Coordenador do N\u00facleo de Estudos de Doutrina Social, Faculdade de Direito da PUC-SP.<br>\u00c9 Professor Titular de Direitos Humanos da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC\/SP). Coordenador do N\u00facleo de Direitos Humanos da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC\/SP). Coordenador da Revista Brasileira de Direitos Humanos. Membro da Academia Paulista de Direito. Membro da Academia Paulista de Letras Jur\u00eddicas. Membro da Academia Nacional de Seguros e Previd\u00eancia. Membro da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social. Membro da Academia Brasileira de Direito Tribut\u00e1rio. Advogado.<br>Presidente do IPCOM (Instituto de Previd\u00eancia Complementar e Sa\u00fade Suplementar).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Wagner Balera Caros leitores, a inten\u00e7\u00e3o deste breve artigo \u00e9 explicar, minimamente, o financiamento da<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":198008,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-198004","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198004","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=198004"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198004\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":198006,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198004\/revisions\/198006"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/198008"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=198004"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=198004"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=198004"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}