{"id":163397,"date":"2024-02-11T16:09:00","date_gmt":"2024-02-11T19:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2024\/02\/11\/mulher-desiste-do-crack-apos-sete-anos-nas-ruas-e-recupera-autonomia-com-maconha\/"},"modified":"2024-02-11T16:09:00","modified_gmt":"2024-02-11T19:09:00","slug":"mulher-desiste-do-crack-apos-sete-anos-nas-ruas-e-recupera-autonomia-com-maconha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2024\/02\/11\/mulher-desiste-do-crack-apos-sete-anos-nas-ruas-e-recupera-autonomia-com-maconha\/","title":{"rendered":"Mulher desiste do crack ap\u00f3s sete anos nas ruas e recupera autonomia com maconha"},"content":{"rendered":"<p>CL\u00c1UDIA COLLUCCI<br \/>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Franciele Silva, 43, lembra-se bem da data em que a vida deu uma reviravolta: 8 de agosto de 2008. Ap\u00f3s um epis\u00f3dio de viol\u00eancia dom\u00e9stica, ela fugiu com as tr\u00eas filhas para Curitiba (PR). Tinha 28 anos e estava casada havia 12.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Sem conhecer ningu\u00e9m na capital paranaense, come\u00e7ou a vender balas nas ruas. Dois meses depois, o Conselho Tutelar recolheu as crian\u00e7as e as entregou para o ent\u00e3o marido de Franciele, pai de duas das filhas.<br \/>&#8220;Perdi o ch\u00e3o, o rumo. No dia seguinte, fumei a primeira pedra de crack e fiquei oito dias sem dormir e sem comer. S\u00f3 fumando e chorando. Dali em diante, comecei a trabalhar para um traficante e a roubar.&#8221;<\/p>\n<p>Franciele at\u00e9 tentou voltar a morar durante duas semanas com o marido, para estar pr\u00f3xima das filhas, mas recaiu e, ap\u00f3s uma nova briga, foi viver na cracol\u00e2ndia, no centro de S\u00e3o Paulo.<br \/>&#8220;L\u00e1 eu fiquei por sete anos. Vi muita coisa feia, tive tuberculose, fui presa por tr\u00e1fico, mas fui absolvida porque a ju\u00edza entendeu que eu era usu\u00e1ria.&#8221;<\/p>\n<p>Em 2015, ela conheceu um rapaz no fluxo e ambos ingressaram no programa &#8220;De Bra\u00e7os Abertos&#8221;, implantado na cracol\u00e2ndia em 2014 pela gest\u00e3o Fernando Haddad (PT) na Prefeitura de S\u00e3o Paulo e extinto pelo sucessor Jo\u00e3o Doria (PSDB).<\/p>\n<p>Baseado na estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de danos, o programa ofertava moradia, trabalho (os participantes ganhavam R$ 15 por dia por servi\u00e7os como varri\u00e7\u00e3o e reciclagem) e acompanhamento m\u00e9dico. Estudo apontou que dois ter\u00e7os dos benefici\u00e1rios reduziram o uso da droga. O abrigo nos hot\u00e9is da regi\u00e3o, contudo, mostrou-se temer\u00e1rio: o tr\u00e1fico acabou se infiltrando nesses locais.<\/p>\n<p>&#8220;Fiquei 15 dias sem fumar crack. Para segurar, comecei a fumar maconha porque ia conhecer a m\u00e3e dele [do parceiro] e n\u00e3o queria que ela me visse com os dedos queimados [pelas pedras do crack]. Eu n\u00e3o prometi parar, mas depois disso n\u00e3o tive mais coragem de fumar crack. Isso foi no dia 28 de maio de 2015.&#8221;<\/p>\n<p>Quase nove anos depois, ela mant\u00e9m o uso de c\u00e2nabis em forma de cigarro e de \u00f3leo, o canabidiol, faz acompanhamento psiqui\u00e1trico e utiliza o clonazepam, medicamento indicado para tratamento do dist\u00farbio do p\u00e2nico e da ansiedade. &#8220;Se eu n\u00e3o tomo, eu n\u00e3o durmo. Fiquei com sequelas do crack.&#8221;<\/p>\n<p>Assim como Franciele, muitos pacientes t\u00eam desistido de perseguir a abstin\u00eancia total de drogas, condi\u00e7\u00e3o imposta por muitos servi\u00e7os que oferecem interna\u00e7\u00f5es como tratamento da depend\u00eancia, e conseguido resgatar a autonomia e a dignidade por meio de estrat\u00e9gias de redu\u00e7\u00e3o de danos.<\/p>\n<p>&#8220;Nos melhores tratamentos do mundo com proposta de abstin\u00eancia total, depois de dois anos de acompanhamento, s\u00f3 20% conseguem essa meta. \u00c9 uma grande perversidade a defesa da abstin\u00eancia total como \u00fanica estrat\u00e9gia aceit\u00e1vel&#8221;, diz o psiquiatra e palha\u00e7o Fl\u00e1vio Falcone, que atua na cracol\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Depois de deixar o fluxo, Franciele adotou sua quarta filha e se reaproximou das outras tr\u00eas. Para sobreviver, ela j\u00e1 teve banca de batata frita e pastel e, desde 2020, cadastrou-se em um aplicativo e atua como carroceira de recicl\u00e1veis na regi\u00e3o de Higien\u00f3polis (SP).<br \/>Tamb\u00e9m j\u00e1 trabalhou como educadora t\u00e9cnica em projeto de reeduca\u00e7\u00e3o de danos na cracol\u00e2ndia e fez um curso de cuidadora. At\u00e9 o fim deste ano, espera se recuperar totalmente do tratamento para o c\u00e2ncer de intestino que foi diagnosticado no fim do ano passado e concluir o ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p>&#8220;Puxando carro\u00e7a, conheci esse lado da sustentabilidade, do meio ambiente. Quero continuar atuando com isso e tamb\u00e9m com redu\u00e7\u00e3o de danos.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo Falcone, n\u00e3o h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o entre o modelo de redu\u00e7\u00e3o de danos e o da abstin\u00eancia total. &#8220;Cada pessoa tem o seu caminho. A gente constr\u00f3i um projeto de terap\u00eautico de acordo com as condi\u00e7\u00f5es de cada pessoa e isso pode, inclusive, resultar em abstin\u00eancia total&#8221;, refor\u00e7a.<br \/>Para o psiquiatra Lu\u00eds Fernando T\u00f3foli, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e pesquisador de pol\u00edticas sobre drogas, a ideia central da redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 diminuir o impacto do uso problem\u00e1tico das drogas. &#8220;\u00c9 uma vis\u00e3o deturpada achar que redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 desistir da abstin\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p>Karin di Monteiro, que coordena o n\u00facleo de ensino e pesquisa da ONG \u00c9 de Lei, diz que essa ideia equivocada de que s\u00f3 existe um caminho, o da abstin\u00eancia total, muitas vezes afasta as pessoas de tratamento.<br \/>&#8220;Elas tentam v\u00e1rias vezes, at\u00e9 conseguem ficar per\u00edodos abstinentes, mas voltam. Isso n\u00e3o significa que \u00e9 uma falha da meta. Sem a gente impor essa obrigatoriedade de abstin\u00eancia, muitas vezes a pessoa chega nesse lugar sozinha, vira uma chave.&#8221;<\/p>\n<p>Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatra e professor da Unifesp (Universidade Federal de S\u00e3o Paulo), afirma que, em m\u00e9dia, 70% das pessoas que buscam tratamentos para a depend\u00eancia n\u00e3o conseguir\u00e3o ficar abstinentes.<\/p>\n<p>&#8220;A redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 um plano B que d\u00e1 certo. Muitos arrumam emprego, conseguem manter um relacionamento est\u00e1vel, se responsabilizam pela pr\u00f3pria vida.&#8221;<\/p>\n<p>De acordo com ele, a m\u00e9dio prazo, depois de um acompanhamento de dois a quatro anos, metade das pessoas inseridas em programas de redu\u00e7\u00e3o de danos est\u00e1 abstinente.<\/p>\n<p>&#8220;Embora n\u00e3o seja pr\u00e9-requisito a abstin\u00eancia, o fato de se tolerar que aquele indiv\u00edduo consuma [alguma droga], mas n\u00e3o de forma prejudicial, \u00e9 um caminho para ele tamb\u00e9m ficar abstinente.&#8221;<br \/>Entre os que n\u00e3o conseguem a abstin\u00eancia ap\u00f3s esse per\u00edodo, 75% mant\u00eam estrat\u00e9gias de redu\u00e7\u00e3o de danos usando outras subst\u00e2ncias de uma forma controlada. &#8220;Ela desiste do projeto de abstin\u00eancia total e vivem uma vida praticamente normal&#8221;, conta Silveira.<\/p>\n<p>Para o psiquiatra Alexandre Valverde, a redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 uma perspectiva mais realista para o paciente. &#8220;Essa ideia de que o paciente vai obedecer e adotar [a abstin\u00eancia] porque voc\u00ea est\u00e1 na sua autoridade de m\u00e9dico dizendo que \u00e9 esse o caminho \u00e9 irreal. As pessoas abandonam os tratamentos e geram um circuito de frustra\u00e7\u00e3o, culpa e puni\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 totalmente contraproducente.&#8221;<\/p>\n<p>Internacionalmente reconhecida pela OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade), a redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 pol\u00edtica oficial em v\u00e1rios pa\u00edses como Holanda, Inglaterra, Canad\u00e1 e Austr\u00e1lia. Em 2019, a gest\u00e3o de Jair Bolsonaro (PL) p\u00f4s fim \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de danos e colocou a abstin\u00eancia como \u00fanica pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p>Silveira, da Unifesp, conta que muita gente que desiste de ficar abstinente nem precisaria perseguir isso porque, na verdade, n\u00e3o s\u00e3o dependentes qu\u00edmicos de fato, condi\u00e7\u00e3o definida como a perda de controle do consumo.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas tentam [a abstin\u00eancia] porque a cultura do pa\u00eds \u00e9 punitiva e policialesca com as drogas il\u00edcitas. S\u00f3 podem usar droga legalizada, como o \u00e1lcool, se n\u00e3o s\u00e3o tachadas como dependentes qu\u00edmicos.&#8221;<br \/>Silveira explica que a depend\u00eancia qu\u00edmica atinge apenas uma minoria de usu\u00e1rios. Para o \u00e1lcool, por exemplo, a taxa de depend\u00eancia \u00e9 de 15%, enquanto a maconha, de 9%, a coca\u00edna, de 30%, e o crack, de 40%.<\/p>\n<p>Leia Tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/mundo\/2114362\/brasileiro-sequestrado-pelo-hamas-ha-4-meses-ganhou-neto-batizado-de-coragem\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Brasileiro sequestrado pelo Hamas h\u00e1 4 meses ganhou neto batizado de &#8216;coragem&#8217;<\/a><\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/2114315\/mulher-desiste-do-crack-apos-sete-anos-nas-ruas-e-recupera-autonomia-com-maconha?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CL\u00c1UDIA COLLUCCIS\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Franciele Silva, 43, lembra-se bem da data em que<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":163398,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-163397","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/163397","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=163397"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/163397\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/163398"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=163397"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=163397"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=163397"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}