{"id":15753,"date":"2021-06-05T16:11:43","date_gmt":"2021-06-05T19:11:43","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/06\/05\/cruella-estilista-retalha-costura-pulsante-e-faz-caricatura-egolatra-da-moda\/"},"modified":"2021-06-05T16:11:43","modified_gmt":"2021-06-05T19:11:43","slug":"cruella-estilista-retalha-costura-pulsante-e-faz-caricatura-egolatra-da-moda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/06\/05\/cruella-estilista-retalha-costura-pulsante-e-faz-caricatura-egolatra-da-moda\/","title":{"rendered":"Cruella estilista retalha costura pulsante e faz caricatura eg\u00f3latra da moda"},"content":{"rendered":"<p>Por mais hiperb\u00f3lica que a vil\u00e3 Cruella possa soar para quem assiste ao filme hom\u00f4nimo, lan\u00e7ado pela Disney em 27 de maio, \u00e9 verdade que ela realmente existiu. Ou melhor, que ecos de sua personalidade t\u00e3o bipolar quanto o cabelo preto e branco, a pretensa genialidade e, inclusive, as roupas exuberantes exibidas e &#8220;criadas&#8221; por ela no longa s\u00e3o retalhos reais da moda nas d\u00e9cadas pr\u00e9-pand\u00eamicas.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Em uma primeira leitura, a persona encarnada pela atriz Emma Stone \u2013e por sua rival, &#8220;Baronesa&#8221;, interpretada por Emma Thompson\u2013 diverte a audi\u00eancia por lhe oferecer o combo de trejeitos, acidez e desd\u00e9m pelo pr\u00f3ximo envolvidos numa capa de suposto glamour, uma caricatura que norteou o entendimento sobre essa ind\u00fastria a partir da segunda metade do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>A superficialidade com a qual a moda \u00e9 encarada por parte do p\u00fablico que a rejeita \u00e9 explorada ao m\u00e1ximo, potencializada pelos embates recheados de pux\u00f5es de tapete e epis\u00f3dios de ass\u00e9dio moral protagonizados pela dupla.<\/p>\n<p>\u00c9 que o fio condutor de toda a maldade, neste filme, \u00e9 a moda, um lugar in\u00f3spito de pessoas sem sal acompanhando estetas que disputam o estrelato por meio de planos maquiav\u00e9licos e roupas reservadas a uma casta privilegiada de entendidos no assunto.<\/p>\n<p>Espertamente, por\u00e9m, a dire\u00e7\u00e3o se apoia na pr\u00f3pria moda, aqui na pesquisa dos roteiristas Tony McNamara e Dana Fox emoldurada pelo figurino de Jenny Beaven, para encher os olhos do espectador a ponto de ele, sem perceber, assimilar o legado e a hist\u00f3ria de nomes da costura.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel reconhecer na constru\u00e7\u00e3o de Cruella, por exemplo, o transtorno man\u00edaco-depressivo do franc\u00eas Yves Saint Laurent expl\u00edcitos no document\u00e1rio &#8220;O Louco Amor de Yves Saint Laurent&#8221;, de Pierre Thoretton, ou o tormento do brit\u00e2nico Alexander McQueen (1969-2010) at\u00e9 ser compreendido em sua tentativa de quebrar as regras da costura cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>O embate entre as l\u00ednguas francesas e inglesa, ali\u00e1s, parece uma piadinha interna plantada no filme. A Baronesa personifica o tradicionalismo da alta-costura. Os ateli\u00eas de Christian Dior serviram de base para a constru\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio, assim como o sal\u00e3o do Lyc\u00e9e Carnot, em Paris, ainda hoje usado para desfiles da semana de moda local, ambienta o derradeiro show de horrores resultado das brigas entre as vil\u00e3s.<\/p>\n<p>Seus looks, modelados com r\u00e9gua e esquadro precisos, remetem \u00e0 era dos &#8220;couturiers&#8221;. Chapel\u00f5es, joias e acess\u00f3rios brutos alinhavam o styling saudoso dos bailes de gala do passado.<br \/>Esse apego ao passado sobre o qual o filme trata e o desafio dos estilistas consagrados em agradar \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es s\u00e3o conflitos pr\u00f3prios da ind\u00fastria da moda. O medo de que a velhice enferruje a tesoura justifica a penca de designers contratados nas equipes de estilo, que, assim como na da Baronesa Von Hellman, vez ou outra saem nom\u00f5es do estilo.<\/p>\n<p>Jean Paul Gautier foi pupilo de Pierre Cardin, assim como Saint Laurent foi de Dior, Givenchy de Elsa Schiaparelli e Emanuel Ungaro de Crist\u00f3bal Balenciaga. A hist\u00f3ria nos livros n\u00e3o esmi\u00fa\u00e7a detalhes s\u00f3rdidos dessas rela\u00e7\u00f5es, mas, invariavelmente, os desenhos e alfinetadas voavam soltos pelas mesas de corte suadas assim como mostram as cenas com alta voltagem c\u00f4mica do filme.<\/p>\n<p>Cruella, por sua vez, destila o vanguardismo ingl\u00eas, repleto de nomes autossuficientes que balan\u00e7aram o xadrez da moda desafiando os metros de chiffon franceses.<\/p>\n<p>O chamado &#8220;vestido-\u00edcone&#8221;, desenhado por ela e roubado pela chefe, representa uma guinada na trama e nada mais \u00e9 do que uma vers\u00e3o asseada do conjunto escamoso criado por Alexander McQueen para seu \u00faltimo desfile, de ver\u00e3o 2010, e usado por Lady Gaga no clipe da m\u00fasica &#8220;Bad Romance&#8221;. Uma homenagem n\u00e3o creditada a um dos poucos g\u00eanios da moda no novo mil\u00eanio.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito an\u00e1rquico da inglesa Vivienne Westwood empresta ao guarda-roupa idealizado por Cruella o in\u00edcio punk de sua carreira, gestado nos mesmos 1970 nos quais a hist\u00f3ria \u00e9 ambientada. Tamb\u00e9m azeita a performance em que sacos de lixo se transformam num vestido, numa clara refer\u00eancia \u00e0 imagem de Westwood, em 2011, enfiada em um lix\u00e3o para criticar o descarte da moda.<\/p>\n<p>Esse aspecto sustent\u00e1vel da roupa criada pela personagem, vale dizer, \u00e9 a alma do que se entende como grande revolu\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria. Seu epicentro criativo est\u00e1 exatamente em Londres, sede de &#8220;estilistas verdes&#8221; como Stella McCartney, tamb\u00e9m chegada naquela imagem da roupa nascida em meio ao lixo, e a jovem designer brasileira Renata Brenha.<\/p>\n<p>J\u00e1 o visual g\u00f3tico apocal\u00edptico assumido por Cruella na \u00faltima fase de sua metamorfose, parece sa\u00eddo dos desfiles recentes do georgiano Demna Gvasalia na grife Balenciaga, enquanto sua vers\u00e3o boa e transgressora, a Estella, mostra-se s\u00edntese da feminista de boina, saia e jaqueta desenhada pela atual diretora criativa da Dior, a italiana Maria Grazia Chiuri.<\/p>\n<p>Mesmo a ideia de transmuta\u00e7\u00e3o aplicada a uma capa branca convertida em vestido vermelho, este surtido em meio a chamas acionadas num estalar de dedos, tamb\u00e9m encontra par a altura na vida real dos desfiles.<\/p>\n<p>Esp\u00e9cie de engenheiro da costura, o cipriota Hussein Chalayan h\u00e1 tempos choca plateias com roupas que viram do avesso ou mudam de cor, formato ou comprimento em plena passarela por meio de dispositivos escondidos na trama.<\/p>\n<p>Para quem se prestar a olhar de perto, o mosaico de ideias aliviaria o conceito estereotipado que &#8220;Cruella&#8221;, o filme e a vil\u00e3, carregam consigo. Mas n\u00e3o era mesmo a inten\u00e7\u00e3o repensar os conceitos sobre a moda. Mesmo o fim do uso de pele animal na costura, novo mantra das grifes e principal ponto fora curva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria original do desenho animado, fica apenas subentendido.<\/p>\n<p>Nada parece mais poderoso do ponto de vista narrativo do que apostar em vil\u00f5es sorrateiros que usam talento intelectual para esnobar o que entendem como fraqueza alheia.<\/p>\n<p>&#8220;Cruella&#8221; traz essa leitura, ironicamente, dentro do escopo da moda, um universo que embora seja apontado apenas como desumano e vil, foi constru\u00eddo para ajudar os outros a se afirmar e, por meio de uma outra pele (agora falsa), mascarar as inseguran\u00e7as. O resto \u00e9 s\u00f3 intriga.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Cultura<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1810787\/cruella-estilista-retalha-costura-pulsante-e-faz-caricatura-egolatra-da-moda?utm_source=rss-cultura&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por mais hiperb\u00f3lica que a vil\u00e3 Cruella possa soar para quem assiste ao filme hom\u00f4nimo,<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":15754,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-15753","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15753","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15753"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15753\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15754"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15753"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15753"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15753"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}