{"id":147529,"date":"2023-10-22T15:08:29","date_gmt":"2023-10-22T18:08:29","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/10\/22\/quem-disse-que-preciso-de-forca-desafiam-mulheres-que-cuidam-de-fazendas\/"},"modified":"2023-10-22T15:08:29","modified_gmt":"2023-10-22T18:08:29","slug":"quem-disse-que-preciso-de-forca-desafiam-mulheres-que-cuidam-de-fazendas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/10\/22\/quem-disse-que-preciso-de-forca-desafiam-mulheres-que-cuidam-de-fazendas\/","title":{"rendered":"&#8216;Quem disse que preciso de for\u00e7a?&#8217;, desafiam mulheres que cuidam de fazendas"},"content":{"rendered":"<p>ALEX SABINO<br \/>ITAPIRA E PEDREIRA, SP (FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;Ela \u00e9 assim mesmo. Meio mulher, meio homem.&#8221;<br \/>Ana Cristina Pires, 67, j\u00e1 n\u00e3o sabe quantas vezes ouviu isso. Conta sem emo\u00e7\u00e3o na voz, como se fosse uma coisa qualquer. N\u00e3o liga. S\u00e3o 9h em sua fazenda em Pedreira (SP). Ela precisa separar o gado.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>A 50 quil\u00f4metros dali, em Itapira (SP), Sofia Gallas, 27, entende e se solidariza com o que a colega j\u00e1 escutou. Ela se lembra de epis\u00f3dio em que tomou a frente para domar um cavalo arredio.<br \/>&#8220;Cuidado, voc\u00ea n\u00e3o tem for\u00e7a para isso&#8221;, veio o aviso.<br \/>Ela nem sequer se deu ao trabalho de amarrar o cabelo comprido e castanho-claro.<br \/>&#8220;Quem disse que preciso de for\u00e7a? Eu uso a intelig\u00eancia&#8221;, respondeu.<\/p>\n<p>As duas s\u00e3o personagens de um fen\u00f4meno cada vez mais comum no cen\u00e1rio do agro: mulheres que cuidam de fazendas sozinhas. Desempenham todas as tarefas antes reservadas aos homens na administra\u00e7\u00e3o ou nos trabalhos bra\u00e7ais.<br \/>Censo da CNA (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Agricultura e Pecu\u00e1ria do Brasil) aponta que 19% das fazendas no pa\u00eds s\u00e3o geridas apenas por mulheres. Este n\u00famero \u00e9 de 2017. A entidade deve fazer novo levantamento em 2024 e espera dados ainda mais expressivos.<\/p>\n<p>&#8220;O agro sempre foi visto como algo que exige muita for\u00e7a f\u00edsica, como uma atividade masculinizada. Nesses \u00faltimos anos, o setor se profissionalizou e a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica permitiu isso. \u00c9 preciso uma vis\u00e3o gerencial e a mulher tem muito mais organiza\u00e7\u00e3o. Possui vis\u00e3o mais humanizada, detalhista e diferenciada&#8221;, diz Stephanie Ferreira, 30, presidente da Comiss\u00e3o Nacional das Mulheres do Agro da CNA e tamb\u00e9m dona de empresa que presta assessoria pecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>Algumas partes do trabalho no campo podem ter passado por processo de moderniza\u00e7\u00e3o, mas nem sempre, principalmente em pequenas propriedades. Ana Cristina desmama e vende bezerros, cuida das vacas nelore -&#8220;as mais bravas que existem&#8221;, avisa- e separa os touros porque, juntos, um pode matar o outro. Tudo sozinha. S\u00e3o cinco irm\u00e3os na fam\u00edlia, mas apenas ela entrou na vida de fazendeira.<\/p>\n<p>&#8216;Quem disse que preciso de for\u00e7a?&#8217;, desafiam mulheres que cuidam de fazendas<br \/>Segundo confedera\u00e7\u00e3o do setor, 19% das propriedades do agro s\u00e3o administradas por elas<\/p>\n<p>&#8220;Ela \u00e9 assim mesmo. Meio mulher, meio homem.&#8221;Ana Cristina Pires, 67, j\u00e1 n\u00e3o sabe quantas vezes ouviu isso. Conta sem emo\u00e7\u00e3o na voz, como se fosse uma coisa qualquer. N\u00e3o liga. S\u00e3o 9h em sua fazenda em Pedreira (SP). Ela precisa separar o gado.A 50 quil\u00f4metros dali, em Itapira (SP), Sofia Gallas, 27, entende e se solidariza com o que a colega j\u00e1 escutou. Ela se lembra de epis\u00f3dio em que tomou a frente para domar um cavalo arredio.&#8221;Cuidado, voc\u00ea n\u00e3o tem for\u00e7a para isso&#8221;, veio o aviso.Ela nem sequer se deu ao trabalho de amarrar o cabelo comprido e castanho-claro.PUBLICIDADE&#8221;Quem disse que preciso de for\u00e7a? Eu uso a intelig\u00eancia&#8221;, respondeu.Sofia Gallas conduz cavalos que cria no Rancho 5G, de sua propriedade, em Itapira<br \/>Sofia Gallas conduz cavalos que cria no Rancho 5G, de sua propriedade, em Itapira (SP) &#8211; Karime Xavier\/Folhapress<br \/>As duas s\u00e3o personagens de um fen\u00f4meno cada vez mais comum no cen\u00e1rio do agro: mulheres que cuidam de fazendas sozinhas. Desempenham todas as tarefas antes reservadas aos homens na administra\u00e7\u00e3o ou nos trabalhos bra\u00e7ais.<\/p>\n<p>Censo da CNA (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Agricultura e Pecu\u00e1ria do Brasil) aponta que 19% das fazendas no pa\u00eds s\u00e3o geridas apenas por mulheres. Este n\u00famero \u00e9 de 2017. A entidade deve fazer novo levantamento em 2024 e espera dados ainda mais expressivos.&#8221;O agro sempre foi visto como algo que exige muita for\u00e7a f\u00edsica, como uma atividade masculinizada. Nesses \u00faltimos anos, o setor se profissionalizou e a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica permitiu isso. \u00c9 preciso uma vis\u00e3o gerencial e a mulher tem muito mais organiza\u00e7\u00e3o. Possui vis\u00e3o mais humanizada, detalhista e diferenciada&#8221;, diz Stephanie Ferreira, 30, presidente da Comiss\u00e3o Nacional das Mulheres do Agro da CNA e tamb\u00e9m dona de empresa que presta assessoria pecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>Algumas partes do trabalho no campo podem ter passado por processo de moderniza\u00e7\u00e3o, mas nem sempre, principalmente em pequenas propriedades. Ana Cristina desmama e vende bezerros, cuida das vacas nelore -&#8220;as mais bravas que existem&#8221;, avisa- e separa os touros porque, juntos, um pode matar o outro. Tudo sozinha. S\u00e3o cinco irm\u00e3os na fam\u00edlia, mas apenas ela entrou na vida de fazendeira.<\/p>\n<p>&#8220;Minha irm\u00e3 tamb\u00e9m fazia tudo muito bem. Mas ela casou e se acostumou com a vida da cidade. Isso n\u00e3o \u00e9 para mim. Aqui estou no para\u00edso. N\u00e3o sei o que \u00e9 tr\u00e2nsito e n\u00e3o tenho vizinho. Fa\u00e7o tudo sozinha porque os homens que j\u00e1 vieram trabalhar aqui n\u00e3o entendem nada. Eu \u00e9 que sei quando a vaca vai dar cria, quando tenho de separar o gado, quando curar o umbigo do bezerro para n\u00e3o dar bicho&#8230;&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Sofia teve de buscar seu pr\u00f3prio espa\u00e7o. Ningu\u00e9m dava ouvidos ao que tinha a dizer sobre a administra\u00e7\u00e3o da fazenda da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O que aquela menina sabia sobre gado, cavalos e o agro em geral? Quando ela completou 20 anos, a av\u00f3, sua maior refer\u00eancia na vida, chamou-a. Deu-lhe uma propriedade hoje chamada de 5G, com 113 hectares, o equivalente a 1,13 km quadrado (para compara\u00e7\u00e3o, o parque Ibirapuera tem 1,6 km quadrado).<\/p>\n<p>&#8220;Vai l\u00e1 e faz do seu jeito agora&#8221;, foi o pedido.<br \/>Era tudo o que ela desejava e mergulhou no trabalho. Veterin\u00e1ria de forma\u00e7\u00e3o, havia castrado dois bois e um carneiro um dia antes da visita da reportagem da Folha.<\/p>\n<p>&#8220;O come\u00e7o foi complicado. As pessoas n\u00e3o acreditavam e havia preconceito, sim. Diziam que eu n\u00e3o sabia o que estava fazendo. N\u00e3o levavam f\u00e9 na minha capacidade&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>Sofia hoje tem 43 cabe\u00e7as de gado de corte. Tamb\u00e9m cria cavalos das ra\u00e7as quarto de milha e appaloosas e carneiros. Compete em corridas de tr\u00eas tambores (em que montador e cavalo percorrem um circuito no menor tempo poss\u00edvel) em rodeios pelo Brasil.<\/p>\n<p>\u00c9 uma vida que fascina Mar\u00edlia Guerreiro Scarpioni de Lima, 32, desde cedo. Lembra-se de quando tinha 8 anos e o av\u00f4 Jos\u00e9 Guerreiro ia pagar os funcion\u00e1rios da fazenda. A crian\u00e7a ia junto. Ela hoje tem mais o papel de administradora, tomando decis\u00f5es financeiras e estrat\u00e9gicas das fazendas em Itapira. Ainda planeja mais.<\/p>\n<p>&#8220;Sou formada em psicologia, mas isso ficou no passado. Falo que o sonho da minha vida \u00e9 poder trabalhar s\u00f3 com a fazenda. Fico tamb\u00e9m na companhia de atacado da fam\u00edlia e quando chega o funcion\u00e1rio da fazenda para falar comigo, meu dia muda. Poderia ficar conversando por horas. Quero estar l\u00e1 de verdade. \u00c9 o que faz brilhar meu olho&#8221;, confessa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a CNA quer formar mais lideran\u00e7as mulheres no agro. A entidade realiza cursos para preparar l\u00edderes que possam atuar no sindicato patronal.<br \/>&#8220;Ainda s\u00e3o poucas as que entendem a import\u00e2ncia disso, mas vai mudar. J\u00e1 temos 54 representantes espalhadas por diferentes estados&#8221;, diz Stephanie.<\/p>\n<p>Ana Cristina se preocupa com a queda do pre\u00e7o do bezerro. Ela costumava vend\u00ea-los por R$ 2.800 cada. Hoje, est\u00e1 por volta de R$ 1.500. Sofia usa as segundas-feiras para cuidar de todo o administrativo do rancho e, assim, ficar livre o restante da semana. Todos os dias de Mar\u00edlia s\u00e3o ocupados tamb\u00e9m por negociar lotes de gado, comprar touro, escolher o tipo de milho e fazer cota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No discurso de todas, est\u00e1 subentendido o desejo de provar que podem fazer bem qualquer tarefa no campo.<br \/>Sofia nunca esqueceu que suas opini\u00f5es pertinentes n\u00e3o eram ouvidas. Ana Cristina d\u00e1 de ombros para as preocupa\u00e7\u00f5es familiares por morar sozinha e tratar as vacas t\u00e3o bem que parecem cachorros de estima\u00e7\u00e3o. Mar\u00edlia o tempo todo chama para si a responsabilidade de diferentes fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Uma vez minha m\u00e3e me perguntou o que eu faria se n\u00e3o pudesse trabalhar na minha fazenda. Respondi: &#8216;Vou trabalhar na do vizinho'&#8221;, conta Sofia.<br \/>Ela tem na casa, constru\u00edda h\u00e1 mais de 200 anos no centro da propriedade, a continua\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. H\u00e1 dois anos, nasceu sua filha Alice.<\/p>\n<p>A menina, segundo a m\u00e3e, j\u00e1 escolhe o cavalo de que gosta mais e quer montar. Mar\u00edlia at\u00e9 hoje se diverte quando escuta fornecedores da fazenda dizerem que v\u00e3o &#8220;conversar com a menina&#8221;.<br \/>Ana Cristina reclama. Queixa-se de problemas nas costas pelo esfor\u00e7o e na pele por causa do sol constante. Mas n\u00e3o troca isso por nada.<\/p>\n<p>&#8220;Minha alegria \u00e9 ficar na cocheira. Se pudesse, estava l\u00e1 o dia inteiro. Me d\u00e1 raiva n\u00e3o conseguir fazer o que fazia antes&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p>Algumas coisas ela ainda faz. Como quando o \u00fanico funcion\u00e1rio da sua fazenda veio avis\u00e1-la sobre um drone que sobrevoava a propriedade para &#8220;ver tudo o que ela tinha&#8221;.<br \/>Ana Cristina n\u00e3o se abalou. Pegou sua espingarda calibre 12, apontou para o objeto voador e o abateu com um tiro.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/economia\/2075112\/quem-disse-que-preciso-de-forca-desafiam-mulheres-que-cuidam-de-fazendas?utm_source=rss-economia&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><br \/>\nNot\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Economia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ALEX SABINOITAPIRA E PEDREIRA, SP (FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;Ela \u00e9 assim mesmo. 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