{"id":147413,"date":"2023-10-21T10:08:35","date_gmt":"2023-10-21T13:08:35","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/10\/21\/como-a-globo-tem-driblado-o-politicamente-incorreto-em-novelas-problematicas\/"},"modified":"2023-10-21T10:08:35","modified_gmt":"2023-10-21T13:08:35","slug":"como-a-globo-tem-driblado-o-politicamente-incorreto-em-novelas-problematicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/10\/21\/como-a-globo-tem-driblado-o-politicamente-incorreto-em-novelas-problematicas\/","title":{"rendered":"Como a Globo tem driblado o politicamente incorreto em novelas &#8216;problem\u00e1ticas&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>CRISTINA PADIGLIONE<br \/>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; S\u00e3o novos tempos, e a Globo sabe disso. Ao revisitar o seu acervo para exibi\u00e7\u00f5es na faixa &#8220;Vale a Pena Ver de Novo&#8221; da TV aberta, no canal Viva ou na plataforma de streaming Globoplay, a emissora tem investido em alertas de gatilho ou at\u00e9 em cortes secos de cenas que hoje s\u00e3o vistas como ofensivas, na tentativa de driblar o cancelamento.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Naquele que \u00e9 o maior arquivo do audiovisual brasileiro, n\u00e3o faltam di\u00e1logos que hoje s\u00e3o considerados homof\u00f3bicos, machistas, racistas, etaristas e outros &#8220;istas&#8221; desagrad\u00e1veis.<\/p>\n<p>A emissora diz que tenta reexibir os conte\u00fados &#8220;em sua integralidade sempre que poss\u00edvel&#8221;. No Globoplay e no Viva, tem sido comum o uso de uma cartela de avisos no in\u00edcio de cada cap\u00edtulo. J\u00e1 no canal aberto a dire\u00e7\u00e3o tenta cortar cenas inc\u00f4modas quando elas n\u00e3o s\u00e3o essenciais para a compreens\u00e3o da trama.<\/p>\n<p>Os cortes funcionam para os casos em que a abordagem de algum tema sens\u00edvel hoje tida como incorreta n\u00e3o toma conta da obra toda. Os outros casos podem levar a emissora a n\u00e3o tirar mais a novela da gaveta.<\/p>\n<p>Pode ainda impor desafios \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de remakes, como o que est\u00e1 por acontecer com &#8220;Vale Tudo&#8221;, escrita por Gilberto Braga h\u00e1 35 anos. \u00c9 dif\u00edcil imaginar uma frase da vil\u00e3 Odete Roitman que hoje n\u00e3o seria alvo de cancelamento.<\/p>\n<p>&#8220;Como no Globoplay os t\u00edtulos est\u00e3o disponibilizados sob demanda, \u00e9 o assinante que busca o que deseja assistir e, assim, fica reduzida a possibilidade de contato com conte\u00fados que poderiam ferir sua sensibilidade&#8221;, diz uma nota da emissora. &#8220;Ainda assim, cartelas de contexto de \u00e9poca s\u00e3o utilizadas para lembrar que as obras de acervo reproduzem costumes e comportamentos do tempo em que foram produzidas.&#8221;<\/p>\n<p>As cartelas foram a op\u00e7\u00e3o adotada para o lan\u00e7amento, no final de julho, da novela &#8220;A Lua me Disse&#8221;, de Miguel Falabella, no Globoplay. &#8220;Esta obra pode conter representa\u00e7\u00f5es negativas e estere\u00f3tipos da \u00e9poca em que foi realizada. A obra \u00e9 exibida na \u00edntegra porque acreditamos que essas cenas podem contribuir para o debate sobre um futuro mais diverso e inclusivo&#8221;, diz o aviso.<\/p>\n<p>Ainda quando foi ao ar pela primeira vez, em 2005, o folhetim despertou controv\u00e9rsias sobre racismo, homofobia e humilha\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas. Mas as tramas, vistas por uns como preconceituosas, tamb\u00e9m foram tratadas por outros como uma cr\u00edtica a estere\u00f3tipos.<\/p>\n<p>A cartela \u00e9 uma extens\u00e3o de um recado mais sucinto que surgiu h\u00e1 tr\u00eas anos no Viva, quando o canal passou a reprisar &#8220;Da Cor do Pecado&#8221;, de Jo\u00e3o Emanuel Carneiro, que foi ao ar em 2004. &#8220;Esta obra reproduz comportamentos e costumes da \u00e9poca em que foi realizada.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o por contextualizar erros do passado, em vez de fingir que eles nunca existiram, tem predominado na ind\u00fastria do audiovisual. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o diferente do que ocorre nos livros, principalmente nos que s\u00e3o voltados ao p\u00fablico infantil, como os de Roald Dahl, de &#8220;A Fant\u00e1stica F\u00e1brica de Chocolate&#8221;, que t\u00eam sido submetidos a cortes com aprova\u00e7\u00e3o de seus herdeiros.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio sobre Xuxa no Globoplay oferece v\u00e1rios pontos para reflex\u00e3o sobre os cacoetes impr\u00f3prios dos anos 1980, como as indica\u00e7\u00f5es da apresentadora e de seu core\u00f3grafo para um concurso em busca de novas &#8220;paquitas&#8221;, como eram chamadas suas assistentes de palco. &#8220;Tem de ser bonita, magra e, de prefer\u00eancia, loira&#8221;, diz uma mensagem resgatada da \u00e9poca, que hoje Xuxa reconhece como um erro.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o parecida aconteceu com o document\u00e1rio &#8220;A Superfant\u00e1stica Hist\u00f3ria do Bal\u00e3o&#8221;, este do Star+, quando bailarinas desfilavam coreografias libidinosas em um figurino de mai\u00f4s cavados bem na altura dos olhos das crian\u00e7as do Bal\u00e3o M\u00e1gico.<\/p>\n<p>At\u00e9 parece uma cena de &#8220;Bingo&#8221;, o filme de Daniel Rezende sobre um dos int\u00e9rpretes do palha\u00e7o Bozo que cheirava coca\u00edna antes de entrar em cena e, impaciente com o p\u00fablico infantil, mal se fazia notar no trato inadequado com a plateia. Exagero de fic\u00e7\u00e3o? Antes fosse.<\/p>\n<p>Diferentemente de um livro, onde uma nota de rodap\u00e9 basta para chamar a aten\u00e7\u00e3o do leitor no mesmo instante em que ele l\u00ea algo ultrapassado para os conceitos sociais contempor\u00e2neos, uma produ\u00e7\u00e3o audiovisual n\u00e3o pode ser bruscamente interrompida em uma cena qualquer<\/p>\n<p>&#8220;Como \u00e9 que vai parar a cena e colocar um cartaz no meio?&#8221;, diz Alcides Nogueira, autor de v\u00e1rias novelas da Globo ao longo de 40 anos e distante da emissora desde o ano passado. O autor, assim como Maria Adelaide Amaral, que tamb\u00e9m assina v\u00e1rias produ\u00e7\u00f5es do acervo da Globo e deixou a emissora no ano passado, diz ser favor\u00e1vel \u00e0 contextualiza\u00e7\u00e3o por meio de cartelas e avisos na tela<\/p>\n<p>O autor, assim como Maria Adelaide Amaral, que tamb\u00e9m assina v\u00e1rias produ\u00e7\u00f5es do acervo da Globo e deixou a emissora no ano passado, diz ser favor\u00e1vel \u00e0 contextualiza\u00e7\u00e3o por meio de cartelas e avisos na tela.<\/p>\n<p>&#8220;A primeira vez que vi algo sobre revisionismo, fiquei chocada, porque isso me lembrou a ditadura militar, em que palavras ou frases das pe\u00e7as eram cortadas ou a obra simplesmente censurada como um todo, como aconteceu comigo&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Ainda penso que em muitos casos h\u00e1 exagero, mas a gente n\u00e3o est\u00e1 no lugar do outro, e me refiro especificamente aos negros, \u00e0s etnias que foram t\u00e3o mal representadas, com tanto preconceito e superioridade racial por parte dos brancos.&#8221;<\/p>\n<p>Amaral cita Monteiro Lobato, outro alvo de extensas discuss\u00f5es sobre o tema, observando que o autor reproduzia aquilo que era usual para a \u00e9poca. &#8220;Fiquei chocada quando soube que iam censurar Lobato. [Sou a favor de] nota de rodap\u00e9. \u00c9 muito mais educativo. Se voc\u00ea rasgar, perde toda a perspectiva da \u00e9poca.&#8221;<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 cenas que a emissora considera t\u00e3o inadequadas que prefere cortar. Em reprises no Viva de &#8220;\u00cata Mundo Bom&#8221;, de 2018, e de uma sequ\u00eancia de &#8220;Malha\u00e7\u00e3o&#8221;, de 1998, a Globo decidiu suprimir cenas de &#8220;blackface&#8221; \u2013como \u00e9 chamado o ato de um ator branco pintar a pele para parecer negro e fazer disso uma piada.<\/p>\n<p>Preservar a mem\u00f3ria da nossa teledramaturgia \u00e9 um compromisso, mas isso tem de se equilibrar com os valores da sociedade contempor\u00e2nea. Muitos espectadores poderiam se sentir ofendidos com a reprodu\u00e7\u00e3o daquelas cenas de &#8216;blackface&#8217;. Respeitamos quem pensa diferente, mas prevaleceu o respeito \u00e0 sensibilidade&#8221;, disse Erick Bretas, diretor de produtos digitais e canais fechados da Globo, nas redes sociais.<\/p>\n<p>Amaral e Nogueira dizem acreditar que n\u00e3o h\u00e1 nada a ser &#8220;corrigido&#8221; em suas obras. O dramaturgo lembra a abordagem da escravid\u00e3o em &#8220;For\u00e7a de um Desejo&#8221;, de 1999, que ele escreveu com Gilberto Braga. &#8220;Lembro que eu e Gilberto est\u00e1vamos muito atentos j\u00e1 naquele tempo. A trama mostrava n\u00e3o s\u00f3 a quest\u00e3o da aboli\u00e7\u00e3o, mas dos abolicionistas. Pode ser que tenha passado alguma coisa, mas acho que n\u00e3o&#8221;, diz.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos, a Globo se viu obrigada a operar mudan\u00e7as tamb\u00e9m na trama de \u00e9poca &#8220;Nos Tempos do Imperador&#8221;, de Thereza Falc\u00e3o e Alessandro Marson, por uma cena que expressava racismo reverso e passou batida pelos autores e pela dire\u00e7\u00e3o, que foi apedrejada no Twitter.<\/p>\n<p>A partir do epis\u00f3dio, os autores fizeram uma revis\u00e3o do texto, com apoio de pesquisadores, e reescreveram cenas envolvendo a princesa Isabel e a aboli\u00e7\u00e3o. Houve at\u00e9 sequ\u00eancias jogadas no lixo e regravadas.<\/p>\n<p>Segundo Nogueira, \u00e9 preciso redobrar a aten\u00e7\u00e3o a respeito de produ\u00e7\u00f5es de \u00e9poca, porque recontar certos epis\u00f3dios exige que a contextualiza\u00e7\u00e3o esteja dentro do pr\u00f3prio roteiro, mas sem que seja distorcida a realidade do per\u00edodo retratado. &#8220;Se houver um cartaz, tem que alertar para esses dois momentos&#8221;, diz o autor. &#8220;N\u00e3o concordo \u00e9 com o apagamento. N\u00e3o pode apagar a cria\u00e7\u00e3o nem o que foi feito.<\/p>\n<p>Leia Tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/2074588\/boninho-anuncia-reality-show-inedito-para-grade-da-globo-em-2024\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Boninho anuncia reality show in\u00e9dito para grade da Globo em 2024<\/a><\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Fama<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/celebridades\/2074933\/como-a-globo-tem-driblado-o-politicamente-incorreto-em-novelas-problematicas?utm_source=rss-fama&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CRISTINA PADIGLIONES\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; S\u00e3o novos tempos, e a Globo sabe disso. 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