{"id":146631,"date":"2023-10-16T07:09:04","date_gmt":"2023-10-16T10:09:04","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/10\/16\/rio-solimoes-vira-deserto-e-indigenas-adoecem-bebendo-agua-contaminada\/"},"modified":"2023-10-16T07:09:04","modified_gmt":"2023-10-16T10:09:04","slug":"rio-solimoes-vira-deserto-e-indigenas-adoecem-bebendo-agua-contaminada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/10\/16\/rio-solimoes-vira-deserto-e-indigenas-adoecem-bebendo-agua-contaminada\/","title":{"rendered":"Rio Solim\u00f5es vira deserto e ind\u00edgenas adoecem bebendo \u00e1gua contaminada"},"content":{"rendered":"<p>TEF\u00c9, AM (FOLHAPRESS) &#8211; O rio Solim\u00f5es \u00e9 uma veia central da Amaz\u00f4nia. Carrega ancestralidade, conecta regi\u00f5es e pa\u00edses, d\u00e1 vida a uma infinidade de comunidades tradicionais em suas margens e nas margens de afluentes e igarap\u00e9s.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>O trecho que banha a Terra Ind\u00edgena Porto Praia de Baixo, na regi\u00e3o de Tef\u00e9 (AM), virou deserto. O rio caudaloso, que ditava o ritmo da comunidade, foi substitu\u00eddo por enormes bancos de areia a perder de vista.<\/p>\n<p>Kokamas, tikunas e mayorunas cruzam esses bancos de areia de margem a margem, de ponta a ponta da terra ind\u00edgena, em uma imagem que lembra um deserto.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o extrema: os ind\u00edgenas de Porto Praia s\u00e3o un\u00e2nimes em apontar a seca de 2023 como a pior j\u00e1 vista, superando os efeitos da estiagem de 2010.<\/p>\n<p>O rio secou muito, os bancos de areia s\u00e3o mais extensos, os barcos ancoram cada vez mais longe, a estiagem j\u00e1 dura mais tempo e a expectativa \u00e9 de que esse cen\u00e1rio de deserto continue at\u00e9 novembro.<\/p>\n<p>&#8220;A gente tem de tirar esses barcos daqui hoje, sen\u00e3o tudo vai estar atolado amanh\u00e3&#8221;, dizia um dos ind\u00edgenas de Porto Praia nesta sexta-feira (13), em rela\u00e7\u00e3o a cerca de 30 barcos parados em frente \u00e0 comunidade. &#8220;O rio segue descendo&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A Folha de S.Paulo esteve pela primeira vez na terra ind\u00edgena em 23 de agosto de 2022. Era o in\u00edcio da estiagem, que se mostrou severa no ano passado, mas havia um rio no lugar. &#8220;A gente ainda pescava bem em setembro&#8221;, relembra um integrante da comunidade. Bancos de areia s\u00f3 se formaram em outubro daquele ano.<\/p>\n<p>Em 2023, o cen\u00e1rio encontrado \u00e9 outro -e a transforma\u00e7\u00e3o tem contornos dram\u00e1ticos. O rio secou em setembro, e os n\u00edveis de \u00e1gua diminuem a cada dia, sem previs\u00e3o de fim.<\/p>\n<p>Em 2022, chegar ao territ\u00f3rio foi simples: 30 minutos de barco de Tef\u00e9 \u00e0 escada de acesso \u00e0 comunidade. Agora, os barcos s\u00f3 chegam a dois quil\u00f4metros da aldeia. \u00c9 preciso percorrer a p\u00e9 a margem enlameada do rio. Outro percurso poss\u00edvel \u00e9 pelos bancos de areia, contornando po\u00e7as de \u00e1gua que resistem \u00e0 estiagem.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 tudo muito triste. N\u00e3o tem como sair para pescar, ou levar nossos produtos para vender na cidade&#8221;, afirma o cacique Amilton Braz da Silva Kokama, 52. As mais de 100 fam\u00edlias do territ\u00f3rio produzem principalmente farinha e banana.<\/p>\n<p>Os ind\u00edgenas improvisam pequenas dragagens, tentando abrir caminho para a \u00e1gua e para os barcos. Funciona muito pouco. A cada dia, h\u00e1 menos \u00e1gua.<\/p>\n<p>O deserto que se formou \u00e9 cruzado por quem insiste na pesca num lago ap\u00f3s a margem oposta. Ou por carregadores de produtos da cidade e de motores dos barcos deixados a quil\u00f4metros da comunidade.<\/p>\n<p>O medo \u00e9 de que os motores sejam roubados por piratas, comuns no m\u00e9dio Solim\u00f5es. Eles seguem atuando mesmo na estiagem severa.<\/p>\n<p>A reportagem esteve em Porto Praia em 2022 para uma s\u00e9rie sobre terras ind\u00edgenas n\u00e3o demarcadas, como \u00e9 o caso do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Os ind\u00edgenas fizeram uma autodemarca\u00e7\u00e3o, como forma de prote\u00e7\u00e3o contra invasores, especialmente madeireiros e pescadores ilegais, e montaram uma guarda para vigiar e combater a atua\u00e7\u00e3o de piratas no Solim\u00f5es.<\/p>\n<p>Pouco mais de um ano depois, a convers\u00e3o de um rio em deserto alterou a escala de preocupa\u00e7\u00f5es na comunidade.<\/p>\n<p>&#8220;A mortandade de peixes foi enorme, como n\u00e3o ocorreu na seca de 2010&#8221;, diz o cacique. &#8220;Aqui n\u00e3o &#8216;fechava&#8217; assim. Ficavam uns po\u00e7os mais profundos.&#8221;<\/p>\n<p>Um po\u00e7o artesiano garante o consumo de \u00e1gua pelas fam\u00edlias. Porto Praia insiste em contornar o isolamento: os ind\u00edgenas tentam acessar lagos para pesca e a cidade de Tef\u00e9, onde vendem seus produtos. O rio segue em vazante, um indicativo de que a seca ainda vai avan\u00e7ar nesse ponto do Solim\u00f5es.<\/p>\n<p>A realidade na aldeia Nova Esperan\u00e7a do Arauiri, da Terra Ind\u00edgena Boar\u00e1\/Boarazinho, tamb\u00e9m \u00e9 de isolamento -o igarap\u00e9 Paran\u00e3 do Arauiri virou um estreito curso d&#8217;\u00e1gua, com \u00e1gua parada, aquecida, enlameada e f\u00e9tida. As embarca\u00e7\u00f5es n\u00e3o alcan\u00e7am mais o Solim\u00f5es. Para chegar \u00e0 aldeia \u00e9 preciso percorrer dois quil\u00f4metros por uma trilha improvisada diante da sequid\u00e3o do igarap\u00e9.<\/p>\n<p>Nova Esperan\u00e7a vive um cr\u00f4nico problema de falta d&#8217;\u00e1gua. At\u00e9 um m\u00eas atr\u00e1s, a comunidade n\u00e3o tinha alternativa sen\u00e3o usar a \u00e1gua barrenta do igarap\u00e9. O resultado foi uma &#8220;pandemia&#8221; -palavra usada pelo cacique Cl\u00e1udio Cavalcante, 44- de diarreia, v\u00f4mito, febre e dor de est\u00f4mago, especialmente entre as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>A instala\u00e7\u00e3o de placas solares no m\u00eas passado permitiu o bombeamento de \u00e1gua de um lago pr\u00f3ximo, mas a qualidade segue ruim. Segundo o cacique, n\u00e3o houve capacita\u00e7\u00e3o para que as fam\u00edlias pudessem tratar e filtrar a \u00e1gua, que tamb\u00e9m \u00e9 captada das esparsas chuvas na estiagem.<\/p>\n<p>Os problemas de sa\u00fade decorrentes do consumo dessa \u00e1gua prosseguem. Quando a reportagem esteve na comunidade, quatro pessoas estavam doentes, com diarreia.<\/p>\n<p>Procurados, o governo do Amazonas, a prefeitura de Tef\u00e9 e a Funai (Funda\u00e7\u00e3o Nacional dos Povos Ind\u00edgenas) n\u00e3o responderam at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n<p>A Defesa Civil levou \u00e1gua pot\u00e1vel \u00e0s 17 fam\u00edlias kokamas de Nova Esperan\u00e7a, mas em quantidade insuficiente.<\/p>\n<p>&#8220;Com urg\u00eancia, a gente precisa de \u00e1gua, de capacita\u00e7\u00e3o para o tratamento e de medicamentos para diarreia, infec\u00e7\u00e3o intestinal e v\u00f4mito&#8221;, diz Cavalcante. O cacique prev\u00ea uma seca ainda mais prolongada: o rio s\u00f3 estar\u00e1 naveg\u00e1vel no fim de novembro. &#8220;A seca de 2010 n\u00e3o foi t\u00e3o dif\u00edcil como essa. Com certeza esta \u00e9 a pior que j\u00e1 tivemos aqui dentro.&#8221;<\/p>\n<p>O encolhimento do igarap\u00e9 impede o transporte at\u00e9 Tef\u00e9 do milho, da banana e da melancia cultivados pelos ind\u00edgenas. &#8220;O sol foi t\u00e3o quente nessa regi\u00e3o que atrapalhou a planta\u00e7\u00e3o. Secou a planta\u00e7\u00e3o de melancia&#8221;, afirma Cavalcante.<\/p>\n<p>Sem \u00e1gua para beber, foi necess\u00e1rio paralisar as aulas das crian\u00e7as. Nada \u00e9 mais urgente na aldeia do que a busca por uma solu\u00e7\u00e3o para que as fam\u00edlias tenham \u00e1gua pot\u00e1vel durante o prolongamento da seca.<\/p>\n<p>&#8220;A gente sofre com a &#8216;pandemia&#8217; dessas doen\u00e7as todo ano. Mas este ano foi pior, j\u00e1 come\u00e7ou em agosto&#8221;, diz o cacique. &#8220;A gente n\u00e3o consegue tratar a \u00e1gua.&#8221;<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/2072725\/rio-solimoes-vira-deserto-e-indigenas-adoecem-bebendo-agua-contaminada?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TEF\u00c9, AM (FOLHAPRESS) &#8211; O rio Solim\u00f5es \u00e9 uma veia central da Amaz\u00f4nia. 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