{"id":141380,"date":"2023-09-08T06:08:37","date_gmt":"2023-09-08T09:08:37","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/09\/08\/sem-ler-e-escrever-alunos-mais-velhos-ficam-de-fora-de-politicas-de-alfabetizacao\/"},"modified":"2023-09-08T06:08:37","modified_gmt":"2023-09-08T09:08:37","slug":"sem-ler-e-escrever-alunos-mais-velhos-ficam-de-fora-de-politicas-de-alfabetizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/09\/08\/sem-ler-e-escrever-alunos-mais-velhos-ficam-de-fora-de-politicas-de-alfabetizacao\/","title":{"rendered":"Sem ler e escrever, alunos mais velhos ficam de fora de pol\u00edticas de alfabetiza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Professora de ingl\u00eas, Claudiane Tormes, 49, tem deixado de lado o conte\u00fado de sua disciplina depois de perceber que quase metade dos alunos n\u00e3o consegue ler ou escrever at\u00e9 mesmo em portugu\u00eas.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Ela d\u00e1 aula para turmas de 6\u00ba ano do ensino fundamental de uma escola estadual na periferia de Curitiba, no Paran\u00e1. No in\u00edcio do ano, ela identificou que os alunos n\u00e3o entendiam o que estava escrito na lousa ou nas atividades e n\u00e3o conseguiam escrever nos cadernos. Por isso, ela passou a dedicar parte das aulas para ajud\u00e1-los na alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por lei, as crian\u00e7as deveriam ter assegurado o direito de aprender a ler e escrever at\u00e9 o fim do 2\u00ba ano do ensino fundamental. O Brasil, no entanto, nunca conseguiu garantir esse direito a todas, e a presen\u00e7a de estudantes com a alfabetiza\u00e7\u00e3o incompleta nas turmas dos anos finais do fundamental \u00e9 uma realidade enfrentada pelas escolas h\u00e1 anos.<\/p>\n<p>A pandemia ampliou ainda mais esse problema. Os alunos que hoje est\u00e3o no 6\u00ba ano estavam no 3\u00ba ano em 2020, quando a crise sanit\u00e1ria levou ao fechamento das escolas. Ou seja, eles ficaram sem aulas presenciais e pouco (ou nenhum) contato com os professores na s\u00e9rie em que \u00e9 esperada a consolida\u00e7\u00e3o do processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Sempre tinha dois ou tr\u00eas alunos por turma com dificuldade, que precisavam de mais aten\u00e7\u00e3o e atividades adaptadas. Mas, agora, em uma sala com 30 alunos, metade n\u00e3o est\u00e1 alfabetizada. Muda toda a din\u00e2mica, n\u00e3o tem como seguir com o conte\u00fado previsto&#8221;, diz Claudiane, que atua na rede p\u00fablica h\u00e1 26 anos.<\/p>\n<p>Para especialistas da \u00e1rea, esses estudantes mais velhos, que n\u00e3o tiveram assegurado o direito de se alfabetizar na etapa esperada, est\u00e3o &#8220;invis\u00edveis&#8221; j\u00e1 que n\u00e3o s\u00e3o alvo hoje de nenhuma pol\u00edtica p\u00fablica espec\u00edfica.<\/p>\n<p>O Compromisso Nacional Crian\u00e7a Alfabetizada, lan\u00e7ado pelo governo Lula (PT) em junho, n\u00e3o prev\u00ea a\u00e7\u00f5es para os anos finais (do 6\u00ba ao 9\u00ba ano). Nas redes estaduais, as pol\u00edticas de refor\u00e7o escolar para essas s\u00e9ries tamb\u00e9m n\u00e3o tra\u00e7am estrat\u00e9gias espec\u00edficas para a alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O governo brasileiro est\u00e1 fazendo um grande esfor\u00e7o para resolver o problema da alfabetiza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o est\u00e1 enxergando a situa\u00e7\u00e3o de um grupo de crian\u00e7as que est\u00e1 dentro da escola. Um grupo que foi muito prejudicado na pandemia, n\u00e3o recebeu aten\u00e7\u00e3o do governo na \u00e9poca e agora continua sem ser olhado&#8221;, diz Elaine Constant, coordenadora do LIA (Laborat\u00f3rio Integrado de Estudos da Alfabetiza\u00e7\u00e3o) da UFRJ.<\/p>\n<p>A Folha conversou com professores de tr\u00eas estados e de disciplinas diferentes que relatam a dificuldade de lidar com a quantidade de alunos sem o processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o completo.<\/p>\n<p>Claudiane, por exemplo, tem apenas duas aulas por semana com as turmas de 6\u00ba ano e avalia que, mesmo voltando \u00e0s atividades para esse processo, elas s\u00e3o insuficientes para cobrir a lacuna de aprendizado.<\/p>\n<p>&#8220;As crian\u00e7as n\u00e3o desenvolveram nem a coordena\u00e7\u00e3o motora necess\u00e1ria para escrever, elas t\u00eam dificuldade de escrever seguindo as linhas do caderno. Elas n\u00e3o conseguem ler palavras escritas em letra cursiva. O abismo \u00e9 muito grande&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Formada em letras, Claudiane tem familiaridade com o processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o ainda que n\u00e3o tenha se especializado ou atuado formalmente nessa etapa. &#8220;Para os professores de outras disciplinas \u00e9 ainda mais complicado. Eles at\u00e9 tentam ajudar os alunos a ler e escrever, mas n\u00e3o t\u00eam forma\u00e7\u00e3o para isso.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c1lvaro Dias, 44, professor de hist\u00f3ria, em uma escola estadual de Mogi das Cruzes (Grande SP), conta que tem buscado atividades de alfabetiza\u00e7\u00e3o para os seus alunos de 6\u00ba ano. &#8220;N\u00e3o adianta eu chegar na sala e dar o conte\u00fado que a secretaria manda, se as crian\u00e7as n\u00e3o est\u00e3o acompanhando. Em uma das turmas, mais de 70% mal consegue ler o que est\u00e1 na lousa e copiar no caderno.&#8221;<\/p>\n<p>Ele conta que tem adaptado as atividades de sua disciplina para que sejam feitas de forma oral. &#8220;Tenho poucas aulas com eles, ent\u00e3o penso em estrat\u00e9gias para otimizar o tempo e para que eles aprendam alguma coisa. Se for esperar a turma toda responder por escrito um exerc\u00edcio, a aula n\u00e3o anda.&#8221;<\/p>\n<p>Professora de biologia em uma escola estadual na regi\u00e3o de Santa Cruz, no Rio, Priscila Santos, 36, diz que passou a pedir ajuda aos colegas da \u00e1rea de portugu\u00eas para passar atividades de alfabetiza\u00e7\u00e3o aos alunos.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 triste porque os alunos j\u00e1 t\u00eam consci\u00eancia de que deveriam saber ler e escrever e ficam com vergonha. \u00c9 f\u00e1cil identificar aqueles que n\u00e3o sabem, eles se recusam a escrever e dizem ter a letra feia ou que s\u00e3o lentos. Na verdade, eles est\u00e3o com vergonha e inseguros por n\u00e3o saber.&#8221;<\/p>\n<p>Anna Helena Altenfelder, presidente do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educa\u00e7\u00e3o), diz que deveriam ser pensadas a\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para a alfabetiza\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as mais velhas, j\u00e1 que as condi\u00e7\u00f5es e complexidades s\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>&#8220;Alfabetizar a crian\u00e7a nessa idade \u00e9 diferente de quando ela \u00e9 novinha. Pode existir uma resist\u00eancia maior por causa da inseguran\u00e7a e vergonha que a situa\u00e7\u00e3o traz. Mas tamb\u00e9m tem algumas vantagens porque a crian\u00e7a j\u00e1 tem uma no\u00e7\u00e3o, um contato com o mundo letrado. Ela n\u00e3o come\u00e7a do zero.&#8221;<\/p>\n<p>Para ela, a aus\u00eancia de pol\u00edticas \u00e9 injusta com estudantes e professores. &#8220;O aluno \u00e9 penalizado por n\u00e3o ter aprendido durante uma pandemia. E o professor lida sozinho com o problema, sem ter sido formado para isso. N\u00e3o podemos ter um compromisso de alfabetiza\u00e7\u00e3o que deixe de fora aqueles que n\u00e3o tiveram a oportunidade na etapa adequada.&#8221;<\/p>\n<p>K\u00e1tia Schweickardt, secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica do MEC, disse que o governo Lula precisou eleger prioridades na \u00e1rea educacional apesar de o diagn\u00f3stico inicial ter apontado uma s\u00e9rie de problemas graves em todas as etapas.<\/p>\n<p>&#8220;A gente precisou definir o que era mais urgente, mas n\u00e3o esquecemos dos anos finais do ensino fundamental. Os alunos dessa etapa v\u00e3o ser mais bem atendidos com a expans\u00e3o do ensino em tempo integral, que \u00e9 uma das prioridades do governo.&#8221;<\/p>\n<p>A secret\u00e1ria disse ainda que o minist\u00e9rio est\u00e1 elaborando uma pol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o para professores da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, que deve contemplar estrat\u00e9gias de recomposi\u00e7\u00e3o da alfabetiza\u00e7\u00e3o para estudantes dos anos finais.<\/p>\n<p>Em nota, a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Paran\u00e1 disse ter lan\u00e7ado o Programa Mais Aprendizado, que agrupa os alunos por n\u00edvel de dificuldade. A pasta disse os professores t\u00eam recebido forma\u00e7\u00e3o para lidar com alunos que ainda tenham dificuldade de alfabetiza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o informou quantos foram formados.<\/p>\n<p>A pasta disse ainda que &#8220;disponibilizou plataformas que podem ser utilizadas pelos professores para potencializar o tempo de aprendizagem dos alunos. S\u00e3o aplicativos ou jogos de empresas que a pasta tem cobrado para serem usados em sala, como o Khan Academy e Quizizz.<\/p>\n<p>A Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Rio informou apenas que tem o projeto Foco, de refor\u00e7o escolar para alunos do 6\u00ba ao 9\u00ba ano e ensino m\u00e9dio, mas n\u00e3o disse se h\u00e1 a\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/2059828\/sem-ler-e-escrever-alunos-mais-velhos-ficam-de-fora-de-politicas-de-alfabetizacao?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Professora de ingl\u00eas, Claudiane Tormes, 49, tem deixado de lado<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":141381,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-141380","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141380","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=141380"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141380\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/141381"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=141380"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=141380"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=141380"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}